Relatório anual do Instituto Fogo Cruzado traz panorama da violência armada na região metropolitana do Rio em 2025
- Tiroteios caem, mas registros de vítimas sobem 10%
- Grande Rio registrou recorde de disputas entre grupos armados
- 460 pessoas morreram em ações policiais, maior número desde 2016
Os dados do relatório anual do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta quinta-feira (26), mostram que, em 2025, a violência armada na Região Metropolitana do Rio manteve-se em níveis elevados e com forte presença do Estado nos confrontos. Embora o número total de tiroteios tenha apresentado queda em relação ao ano anterior, 2025 apresentou recorde de registros com participação policial, evidenciando a centralidade da política de confronto na dinâmica da segurança pública.
Com uma média de mais de seis tiroteios por dia, o Grande Rio registrou 2.315 ocorrências de disparos de arma de fogo ao longo de 2025. O número atual representa uma queda de 9% em relação aos 2.535 tiroteios do ano anterior. Mais do que uma redução anual, este é o menor registro da série histórica do Fogo Cruzado desde que o monitoramento começou, em 2017.
Os dados mostram que ao longo dos anos, o número de tiroteios registrados na região metropolitana do Rio foi de:
- 2017: 5.444 tiroteios
- 2018: 9.633 tiroteios
- 2019: 7.370 tiroteios
- 2020: 4.585 tiroteios
- 2021: 4.651 tiroteios
- 2022: 3.589 tiroteios
- 2023: 2.954 tiroteios
- 2024: 2.535 tiroteios
- 2025: 2.315 tiroteios
O número de tiroteios diminuiu em 2025, mas o total de pessoas baleadas aumentou na Região Metropolitana do Rio. Em média, quase cinco pessoas foram baleadas por dia. Ao todo, 1.722 pessoas foram vítimas de tiros na região metropolitana: 944 morreram e 778 ficaram feridas. Em comparação com 2024, quando 1.568 pessoas foram baleadas — 765 mortas e 803 feridas — o número total de vítimas cresceu 10%. O número de mortos teve aumento de 23%, enquanto o de feridos apresentou leve redução de 3%.
Das 1.722 pessoas baleadas na região metropolitana do Rio em 2025, 54% delas (936) foram atingidas em tiroteios durante ações e operações policiais: 460 morreram. O número de mortos representa um aumento de 52% em relação ao ano anterior. Em 2024, das 1.568 pessoas baleadas, 51% delas (793) foram atingidas nesse contexto.
Apesar da redução expressiva da violência armada, 39% dos tiroteios ocorridos em 2025 aconteceram durante ações policiais — a maior proporção de tiroteios com participação policial já registrada pelo Fogo Cruzado desde o início da série histórica, em 2017.
Para Carlos Nhanga, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Rio de Janeiro, os dados mostram que a letalidade policial permanece como elemento central da política de segurança do estado. “O Estado continua sendo um dos principais motores da violência armada que afirma combater. A política do confronto não protege a população, não desmonta estruturas criminosas e ainda amplia o risco para quem vive e circula em áreas mais vulneráveis. Essa estratégia há anos se mostra ineficiente. Após a operação mais letal da história do Brasil, o que mudou na estrutura do crime organizado? As facções continuam em expansão em força e em domínio territorial”, questiona Nhanga.
Nhanga refere-se à operação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão, que resultou em 122 mortos e se tornou o episódio mais letal do Rio. A ação reforçou o padrão de incursões de grande escala, com alto número de vítimas e impactos que ultrapassam o território onde ocorrem. Moradores de diversas regiões entraram em alerta, relataram dias de medo, conviveram com interrupção de serviços e circulação restrita, em um cenário que evidenciou, mais uma vez, o custo humano e social das estratégias baseadas no confronto armado.
Outros indicadores reforçam o avanço da letalidade policial em 2025. Ao todo, foram registradas 31 chacinas policiais na região metropolitana, que deixaram 231 mortos — um aumento de 133% em relação ao ano anterior. Em contraponto, o número de chacinas sem a presença da polícia teve queda de 26%, indo de 19 para 14. Desde que Cláudio Castro assumiu o governo do estado, em agosto de 2020, foram registradas 265 chacinas na região metropolitana do Rio, sendo 70% delas durante ações policiais.
Também chama atenção o crescimento dos confrontos entre grupos armados. Em 2025, o Instituto Fogo Cruzado registrou 275 tiroteios motivados por disputas territoriais no Grande Rio, um aumento de 26% em relação a 2024 e o maior número da série histórica. Esses confrontos deixaram 180 pessoas baleadas ao longo do ano, entre elas a pequena Mirella Pinho Francisconi, de 2 anos, que foi baleada quando descia do ônibus, no colo da mãe, em Pilares, na Zona Norte da capital. Elas voltavam da praia quando foram surpreendidas por um tiroteio entre grupos armados em disputa pelo território.
Bairros como Vicente de Carvalho e Cascadura, na Zona Norte da capital, figuram entre os mais afetados, com rotinas marcadas por tiroteios frequentes, interrupção da mobilidade urbana e fechamento de serviços essenciais. Ao longo de 2025, 47 dias letivos foram impactados por confrontos armados durante essas disputas, e ao menos 38 unidades de ensino registraram tiros em disputa em seu entorno, comprometendo o direito à educação de milhares de crianças e adolescentes, em toda região metropolitana do Rio de Janeiro.
Dos 2.315 tiroteios mapeados em 2025 na região metropolitana do Rio, parte significativa ocorreu, em um raio de até 300 metros, de equipamentos essenciais, como unidades de saúde e escolas. Ao menos 1.149 unidades de saúde foram afetadas por tiroteios na região ao longo do ano. Entre esses registros, 28% ocorreram durante ações e operações policiais, evidenciando o impacto direto das estratégias de confronto sobre o funcionamento de serviços essenciais.
Entre as 7.386 escolas e creches públicas e privadas nos 21 municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro, 1.104 foram afetadas por tiroteios em seu entorno. Do total de unidades de ensino impactadas, 50% foram atingidas durante confrontos com participação policial, reforçando como a dinâmica das operações interfere diretamente na rotina escolar e no direito à educação. Em 2025, oito pessoas foram baleadas dentro de instituições de ensino na região metropolitana — o maior número registrado desde o início da série histórica do Instituto Fogo Cruzado, em 2017.
A poucos meses das eleições que definirão os rumos dos governos estaduais e federal, os dados reforçam a necessidade de um debate público qualificado, informado por evidências, e não em promessas genéricas de “guerra ao crime”, avalia Carlos Nhanga. “Os números de 2025 deixam claro que insistir nas mesmas estratégias produzirá os mesmos resultados. O desafio colocado para a sociedade e para os eleitores é decidir se queremos continuar apostando em políticas fracassadas ou construir um novo paradigma de segurança pública, baseado em dados, direitos humanos e proteção da vida”, conclui o coordenador regional do Fogo Cruzado.
O mapa da violência armada
Regiões
Entre as seis regiões que compõem o Grande Rio, a Zona Norte concentrou 44% do total de tiroteios e 36% de baleados mapeados no ano. A distribuição da violência armada em 2025 se deu da seguinte forma:
- Zona Norte (Capital): 1.025 tiroteios e 613 baleados
- Baixada Fluminense: 440 tiroteios e 409 baleados
- Leste Metropolitano: 308 tiroteios e 249 baleados
- Zona Sudoeste (Capital): 227 tiroteios e 207 baleados
- Zona Oeste (Capital): 209 tiroteios e, 176 baleados
- Centro (Capital): 60 tiroteios e 29 baleados
- Zona Sul (Capital): 46 tiroteio e 39 baleados
Municípios
O Rio de Janeiro concentrou 68% dos tiroteios mapeados em 2025. Os municípios da região metropolitana do Rio mais afetados pela violência armada foram:
- Rio de Janeiro: 1.567 tiroteios
- São Gonçalo: 174 tiroteios
- Duque de Caxias: 116 tiroteios
- São João de Meriti: 82 tiroteios
- Niterói: 79 tiroteios
Bairros
O bairro de Cascadura, na Zona Norte da capital, ocupa o primeiro lugar no ranking entre os bairros da região metropolitana do Rio de Janeiro que mais foram afetados por tiroteios em 2025:
- Cascadura (Rio de Janeiro): 126 tiroteios
- Vila Isabel (Rio de Janeiro): 98 tiroteios
- Vicente de Carvalho (Rio de Janeiro): 71 tiroteios
- Maré (Rio de Janeiro): 63 tiroteios
- Bangu (Rio de Janeiro): 54 tiroteios
Também na Zona Norte da capital, a Penha concentrou o maior número de baleados em 2025, entre os bairros da região metropolitana do Rio. O bairro teve mais baleados que a soma dos baleados dos bairros que ocupam segundo, terceiro, quarto e quinto lugar no ranking:
- Penha (Rio de Janeiro): 162 baleados
- Bangu (Rio de Janeiro): 49 baleados
- Costa Barros (Rio de Janeiro): 40 baleados
- Vicente de Carvalho (Rio de Janeiro): 38 baleados
- Cascadura (Rio de Janeiro): 33 baleados
Locais
Ao menos 176 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de automóveis, outras 64 foram atingidas quando estavam dentro de bares e 63 foram baleadas quando estavam dentro de casa. Houve ainda 34 pessoas baleadas quando participavam de eventos, sete atingidas dentro de transporte público, quatro dentro de barbearias, oito atingidas dentro de unidades de ensino e duas atingidas em lava-jato.
O perfil da violência armada
Vítimas por faixa etária
Considerando a faixa etária das vítimas da violência armada em 2025, houve ainda 16 crianças, 49 adolescentes, 1.607 adultos e 34 idosos baleados em 2025. Outras 16 vítimas não tiveram a idade revelada.
Agentes de segurança
Ao menos 155 agentes de segurança foram baleados na região metropolitana do Rio de Janeiro em 2025, entre as vítimas, 67 morreram e 88 ficaram feridos. Entre os 155 agentes baleados, 46% foram baleados fora de serviço, 45% baleados em serviço e 9% eram aposentados/exonerados. Os policiais militares foram os mais afetados pela violência armada, com 112 baleados.
Trabalhadores informais
Ao menos 18 motoristas de aplicativo, 15 entregadores/motoboys, nove mototaxistas e quatro vendedores ambulantes foram baleados no Grande Rio em 2025.
Contexto
Chacinas
Houve 31 chacinas policiais na região metropolitana do Rio em 2025 que deixaram 231 pessoas mortas. O número de mortos em chacinas policiais é o segundo maior registrado na série histórica do Fogo Cruzado.
- 2017: 24 chacinas policiais com 89 civis mortos
- 2018: 44 chacinas policiais com 177 civis mortos
- 2019: 64 chacinas policiais com 235 civis mortos
- 2020: 33 chacinas policiais com 134 civis mortos
- 2021: 45 chacinas policiais com 191 civis mortos
- 2022: 41 chacinas policiais com 194 civis mortos
- 2023: 29 chacinas policiais com 117 civis mortos
- 2024: 28 chacinas policiais com 99 civis mortos
- 2025: 31 chacinas policiais com 231 civis mortos
Balas perdidas
Em 2025, 114 pessoas foram vítimas de balas perdidas na região metropolitana do Rio de Janeiro: 25 morreram e 89 ficaram feridas. Em 2024, foram 111 vítimas (27 mortas e 84 feridas).
Entre as 114 vítimas de balas perdidas mapeadas em 2025, 61 foram atingidas durante ações e operações policiais, o que representa 54% das vítimas de balas perdidas.
Motivos
Os principais motivos dos disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro em 2025 foram: Ação/Operação policial (912); Homicídio/Tentativa de homicídio (285); Roubo/Tentativa de roubo (228); Disputa entre grupos armados (275); e Ataque a civis (31).
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.
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Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.
“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).
Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP).
O Estatuto do Idoso considera idosos com idade igual ou superior a 60 anos.
O Unicef considera crianças com idade inferior a 12 anos.
O Unicef considera adolescentes com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos.
O Instituto Fogo Cruzado considera a Região Metropolitana do Rio como: Rio de Janeiro (Capital), Baixada Fluminense (Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica) e Leste Metropolitano (Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu e Tanguá).