Relatório anual do Instituto Fogo Cruzado traz panorama da violência armada na região metropolitana de Belém em 2025
- 23 agentes de segurança foram baleados na região metropolitana de Belém
- Crescimento de 300% em vítimas de balas perdidas
Os dados do Relatório Anual do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta quinta-feira (26), mostram que, em 2025, enquanto o Pará se projetava internacionalmente como sede da COP 30, a violência armada perpetuava um cenário preocupante na região metropolitana de Belém. Com 46% das mortes por arma de fogo na região registradas durante ações policiais, a RMB atingiu a maior proporção entre todas as regiões metropolitanas monitoradas pelo Instituto no país.
Embora o número total de tiroteios tenha apresentado queda em relação ao ano anterior, cresceu a proporção de ocorrências e de vítimas em contextos que envolvem as forças de segurança do estado, evidenciando o peso dessas intervenções na dinâmica da violência local.
Ao longo de 2025, foram registrados 542 disparos de arma de fogo na região metropolitana de Belém, o equivalente a uma média de dez tiroteios por semana. O número representa uma queda de 22% em comparação com 2024, quando 694 tiroteios foram mapeados. Ainda assim, 46% das ocorrências do ano aconteceram durante ações e operações policiais, somando 248 registros, percentual superior ao observado no ano anterior, quando 42% dos tiroteios estavam nesse contexto.
Ao todo, 499 pessoas foram baleadas na região metropolitana em 2025, sendo 391 mortas e 108 feridas. Entre as vítimas, 222 foram atingidas durante ações e operações policiais, o que indica que 44% das vítimas baleadas estavam nesse tipo de ocorrência. Em 2024, esse percentual foi de 41%.
Dos 391 mortos em 2025, 23 foram vitimados nas sete chacinas que ocorreram na região metropolitana de Belém. Entre as chacinas mapeadas, 86% delas (6) foram durante ações ou operações policiais, deixando 20 civis mortos. Dos 524 mortos em 2024, 18 foram vitimados em seis chacinas. Entre as chacinas mapeadas, 67% delas (4) foram durante ações ou operações policiais, deixando 12 civis mortos.
Um dos episódios que marcou o ano ocorreu em agosto, na comunidade de Israel, no bairro Aurá, em Ananindeua. Imagens gravadas por moradores mostram um adolescente de 16 anos imobilizado no chão durante uma ação policial. Nos vídeos, que circularam nas redes sociais e na imprensa, é possível ouvir um disparo antes de o jovem ser retirado do local pelos agentes. A gravação ganhou repercussão pública e levantou questionamentos sobre as circunstâncias da ocorrência, já que a versão apresentada inicialmente apontava para um confronto.
Para Eryck Batalha, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Pará, os dados reforçam um padrão persistente no estado: a política de confronto direto como eixo central da segurança pública, com resultados limitados na redução da violência. “O Pará vive uma contradição profunda. Enquanto o governo projeta, de um lado, uma imagem internacional de defesa de direitos e sustentabilidade e, de outro, comunica êxitos de um Programa de Segurança Pública baseado em prevenção, os dados mostram que o Estado segue sendo um dos principais motores da violência armada dentro de seus próprios territórios”, afirma Eryck Batalha.
A violência armada também atinge os próprios agentes de segurança. Em 2025, ao menos 23 agentes foram baleados na região metropolitana de Belém, sendo nove mortos e 14 feridos. Entre eles, 14 foram atingidos quando estavam fora de serviço, quatro em serviço e cinco eram aposentados ou exonerados do cargo. Os policiais militares concentraram 70% dos casos registrados.
Os dados indicam que o risco não se restringe ao contexto das operações formais, alcançando também agentes fora do horário de trabalho. A exposição recorrente à violência armada, inclusive em momentos de folga, evidencia como o cenário de confrontos impacta tanto a população quanto os profissionais de segurança pública.
Ao menos oito pessoas foram atingidas por balas perdidas em 2025 na região metropolitana de Belém. Em 2024 foram registradas duas vítimas de balas perdidas. Houve um aumento de 300% no número de atingidos por balas perdidas em 2025.
Os registros de “ataque armado sobre rodas”, conhecidos como “carro preto” ou “carro prata”, também são essenciais para entender a dinâmica da violência na região. No total foram registrados 43 casos em 2025. O relatório também destacou o crescimento de 125% nos registros de ocorrências de ataque a tiros a civis, indo de quatro em 2024 para nove em 2025.
O mapa da violência armada
Municípios
Entre os municípios que fazem parte da região metropolitana de Belém, os mais impactados pela violência armada em 2025 foram:
- Belém: 277 tiroteios
- Ananindeua: 108 tiroteios
- Castanhal: 52 tiroteios
- Marituba: 46 tiroteios
- Barcarena: 27 tiroteios
Bairros
Considerando os bairros da região metropolitana, os cinco mais afetados em 2025 foram:
- Icuí Guajará: 18 tiroteios
- Guamá: 18 tiroteios
- Marambaia: 17 tiroteios
- Telégrafo: 17 tiroteios
- Terra Firme: 15 tiroteios
- Cidade Nova: 15 tiroteios
Locais
Entre as pessoas baleadas na região metropolitana de Belém em 2025, 59 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa, 23 foram baleadas quando estavam dentro de automóveis, 11 atingidas quando estavam em bares, outras três foram atingidas em postos de gasolina, duas foram atingidas em eventos, uma dentro de barbearia e uma foi baleada dentro de uma unidade de ensino.
O perfil da violência armada
Ocupação
Quatro motoristas de aplicativo, cinco mototaxistas, dois vendedores ambulantes e um entregador/motoboy foram baleados em 2025 na região metropolitana de Belém.
Vítimas por faixa etária
Ao menos 10 adolescentes, 480 adultos e cinco idosos foram baleados na região metropolitana de Belém em 2025. Houve ainda quatro pessoas baleadas que não tiveram a idade revelada.
Motivos
Os principais motivos dos disparos de arma de fogo na região metropolitana foram: Ação/Operação policial (248); Homicídio/Tentativa de homicídio (197); Roubo/Tentativa de roubo (106); Briga (22); Ataque a civis (9).
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que utiliza tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado obtém e disponibiliza informações sobre tiroteios, verificados em tempo real, que são o único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.
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“Vítima de bala perdida”: uma pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projeto (ISP).
O Unicef considera crianças com idade inferior a 12 anos.
O Unicef considera adolescentes com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos.
O Estatuto do Idoso considera idosos com idade igual ou superior a 60 anos.
Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.
Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP).