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Pernambuco: recordes de vítimas de bala perdida em 2025

Relatório anual do Instituto Fogo Cruzado traz panorama da violência armada na região metropolitana do Recife em 2025

  • Número de crianças e adolescentes é o maior da série histórica
  • Região bateu recordes de vítimas de bala perdida
  • Tiroteios motivados por disputas entre grupos armados registrou aumento de 650%

O Relatório Anual 2025 do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta quinta-feira (26), revela o agravamento da violência armada contra crianças e adolescentes na região metropolitana do Recife. Ao longo do ano, 16 crianças de até 11 anos foram baleadas, quatro delas morreram. Entre adolescentes de 12 a 17 anos, 132 foram atingidos por disparos de arma de fogo e 93 morreram. Somados, com 148 registros, o número anual é o maior já registrado desde o início do monitoramento do Instituto Fogo Cruzado na região, em 2019.

Embora sejam prioridade no programa Juntos Pela Segurança, os adolescentes de Pernambuco seguem no centro da violência armada: 96% dos baleados nessa faixa etária foram vítimas de ataques diretos (homicídios), evidenciando que a violência contra esse grupo é, em sua maioria, intencional. Entre abril de 2018 e dezembro de 2025, o Grande Recife registrou 902 adolescentes (12 a 17 anos) baleados. Desse total, 42% das ocorrências se concentraram na gestão da governadora Raquel Lyra. Tamanha recorrência expõe a ausência de políticas de proteção à juventude e compromete o desenvolvimento do estado. Veja o comparativo da violência armada contra crianças e adolescentes no Grande Recife em toda a série histórica do Fogo Cruzado:

  • 2019: 119 registros de crianças e adolescentes baleados
  • 2020: 104 registros de crianças e adolescentes baleados
  •  2021: 116 registros de crianças e adolescentes baleados
  • 2022: 131 registros de crianças e adolescentes baleados
  • 2023: 118 registros de crianças e adolescentes baleados
  • 2024: 147 registros de crianças e adolescentes baleados
  • 2025: 148 registros de crianças e adolescentes baleados

Com média de quatro tiroteios por dia, 2025 terminou com 1.483 ocorrências no Grande Recife. Apesar da redução de 15% no número de tiroteios em relação a 2024, quando 1.748 casos foram mapeados, os dados indicam a persistência de níveis elevados de letalidade, mesmo diante do investimento contínuo em policiamento ostensivo e da ampliação do aparato de segurança pública.

Ao todo, 1.718 pessoas foram baleadas em 2025 na região metropolitana: 1.233 morreram e 485 ficaram feridas. Em média, cerca de cinco pessoas foram baleadas diariamente na região. O número de pessoas baleadas segue o padrão do ano anterior e continua superior à quantidade de tiroteios registrados. Houve queda de 14% no número de mortos e queda de 7% na quantidade de feridos em comparação com 2024, que acumulou 1.959 baleados, sendo 1.437 mortos e 522 feridos.

Ao menos 72 pessoas foram vítimas de bala perdida no Grande Recife em 2025, das quais oito morreram e 64 ficaram feridas. O número representa um aumento de 47% em relação a 2024 e configura o maior patamar desde o início da série histórica, em 2019. O pico foi registrado em março, mês em que 17 pessoas foram atingidas por balas perdidas, inclusive durante grandes eventos públicos. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu durante o carnaval de Olinda, quando um tiroteio na Praça do Carmo deixou sete pessoas feridas em meio a um dos principais polos da festa.

“A bala perdida é um retrato contundente do descontrole da violência armada. Sua gravidade se evidencia no fato de que as vítimas não estão envolvidas em diretamente em confrontos, pois são pessoas que seguiam suas rotinas, em momentos de lazer, deslocamento ou trabalho, e foram, literalmente, atravessadas por tiros e pelo trauma físico e psicológico que permanece. Trata-se de um evento que amplia a sensação coletiva de insegurança da população. Negar que essa realidade se impõe de forma concreta e cotidiana é omitir-se diante da responsabilidade constitucional do Estado de garantir proteção, segurança pública e o direito fundamental à vida”, avalia Ana Maria Franca, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco.

Veja o comparativo de vítimas de bala perdida no Grande Recife em toda a série histórica do Fogo Cruzado: 

  • 2019: 30 vítimas – 5 mortas e 25 feridas
  • 2020: 51 vítimas – 5 mortas e 46 feridas
  • 2021: 28 vítimas – 1 morta e 27 feridas
  • 2022: 67 vítimas – 10 mortas e 57 feridas
  • 2023: 47 vítimas – 7 mortas e 40 feridas
  • 2024: 49 vítimas – 7 mortas e 42 feridas
  • 2025: 72 vítimas – 8 mortas e 64 feridas

Outro dado que acende o alerta é o crescimento acelerado das disputas territoriais entre grupos armados. Em 2025, o Fogo Cruzado registrou 46 tiroteios motivados por disputas entre grupos na região metropolitana do Recife, um aumento de 650% em relação ao ano anterior. Oito municípios foram afetados, evidenciando que o fenômeno deixou de ser pontual e passou a se espalhar por todo o território metropolitano.

Para a coordenadora do Fogo Cruzado, o avanço dessas disputas expõe a fragilidade de uma política de segurança centrada quase exclusivamente no patrulhamento ostensivo, sem ações estruturadas de inteligência, investigação, desarticulação e descapitalização das redes criminosas.

“O aumento do efetivo policial é uma medida necessária para conter a violência, mas não basta para enfrentar problemas estruturais que continuam alimentando as dinâmicas de risco. Combater o crime organizado requer ações articuladas e integradas de longo prazo, como o rastreamento e a desarticulação de fluxos financeiros e de suas lideranças. Além disso, o fortalecimento de políticas públicas de proteção e promoção social é fundamental para impedir a expansão dessas redes, que se alimentam da vulnerabilidade e cooptam principalmente os mais jovens. Repressão qualificada e proteção social devem caminhar juntas nessa tarefa”, explica Ana Maria.

O mapa da violência armada

Municípios

Recife concentrou 38% dos tiroteios mapeados em 2025. Os municípios da região metropolitana do Recife mais afetados pela violência armada foram:

  • Recife: 561 tiroteios 
  • Jaboatão dos Guararapes: 228 tiroteios
  • Cabo de Santo Agostinho: 146 tiroteios
  • Olinda: 123 tiroteios
  • Paulista: 95 tiroteios

Bairros

Entre os bairros da região metropolitana do Recife mapeados pelo Instituto Fogo Cruzado, os que concentraram o maior número de baleados foram:

  • Muribeca: 35 baleados
  • Dois Unidos: 35 baleados
  • Nova Descoberta: 33 baleados
  • Prazeres: 31 baleados
  • Ponte dos Carvalhos: 25 baleados
  • Cohab: 25 baleados
  • Água Fria: 25 baleados

Locais

Ao menos 229 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa. Outras 52 pessoas foram baleadas quando participavam de eventos, 48 pessoas foram baleadas dentro de bares, 46 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de automóveis, 20 dentro de barbearias, três dentro de presídios, duas em postos de gasolina, duas em lava jato, uma dentro de transporte público e uma dentro de uma unidade de ensino. 

O perfil da violência armada

Agentes de segurança

Ao menos 15 agentes de segurança foram baleados na região metropolitana do Recife em 2025. Entre as vítimas, oito foram atingidos quando estavam fora de serviço/de folga, outros quatro foram atingidos em serviço e três baleados eram aposentados/exonerados do cargo.

Trabalhadores informais

Ao menos 33 mototaxistas, 19 motoristas de aplicativo, seis vendedores ambulantes e cinco entregadores/motoboys foram baleados no Grande Recife em 2025. 

Balas perdidas

Ao menos 72 pessoas foram vítimas de balas perdidas na região metropolitana do Recife em 2025: oito morreram e 64 ficaram feridas. O número de vítimas de balas perdidas mapeadas em 2025 é 47% maior que o registrado em 2024, quando 49 pessoas foram vítimas de balas perdidas, das quais sete morreram e 42 ficaram feridas.

Motivos

Os principais motivos dos disparos de arma de fogo na região metropolitana foram: Homicídio/Tentativa de homicídio (1.312); Roubo/Tentativa de roubo (93); Ação/Operação policial (87); e Disputa (46).

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.

Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP).

O Estatuto do Idoso considera idosos com idade igual ou superior a 60 anos.

O Unicef considera crianças com idade inferior a 12 anos. 

O Unicef considera adolescentes com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos.

“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

O Instituto Fogo Cruzado considera Região Metropolitana do Recife como: Recife, Abreu e Lima, Araçoiaba, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Igarassu, Ilha de Itamaracá, Ipojuca, Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Moreno, Olinda, Paulista, São Lourenço da Mata e Goiana, que deixou de ser considerada região metropolitana em 2020, mas que para manter a fidelidade da série histórica nos comparativos, continuou a incluí-la.

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