ALERTAS DAS ÚLTIMAS 24H |
Pará, Relatórios

Os dados dos primeiros 100 dias de Fogo Cruzado no Pará

  • Belém registrou 48% dos tiroteios da região metropolitana.
  • Barcarena teve letalidade de 100% nos casos de tiroteios.
  • Em 100 dias, 50 pessoas morreram em ações e operações policiais, representando 44% das mortes mapeadas.

O Instituto Fogo Cruzado lança nesta quarta-feira (13), em Belém, o relatório “100 Dias de Fogo Cruzado em Belém do Pará”, que apresenta dados alarmantes da violência armada na região metropolitana de Belém (RMB). Os dados registrados vão de 4 de novembro de 2023 a 11 de fevereiro de 2024, e comprovam a importância da produção cidadã de dados sobre a violência armada. Ao todo, no período analisado, foram contabilizados 147 tiroteios, que resultaram em 152 baleados. Destas vítimas, 114 morreram. 

Nestes 100 primeiros dias de acompanhamento, a capital do estado, Belém do Pará, registrou quase metade dos tiroteios de toda a região metropolitana, 48% dos baleados com uma letalidade de 77%. Mas, apesar de menos registros, é importante olhar o cenário de outras cidades. Ananindeua teve uma letalidade de 90%, além de ter mais baleados do que tiros. Castanhal ficou com letalidade de 52% e Barcarena teve 100% de letalidade, uma vez que todos os tiroteios resultaram em, pelo menos, uma morte.

Os homicídios são o mais grave problema da violência armada da região metropolitana de Belém e correspondem a 45% dos tiroteios; as ações policiais 42% e a violência patrimonial aparece na terceira colocação com 17% dos casos. “Entender quando, como e onde essas dinâmicas de violência ocorrem é crucial para desenvolver estratégias de redução da violência armada. As informações levantadas nestes 100 dias são os primeiros passos para construirmos um amplo banco de dados abertos, pautado pela transparência e colaboração. Esperamos que a presença do Instituto Fogo Cruzado no Pará colabore com a construção de políticas públicas eficazes para os paraenses”, afirma Cecília Olliveira, Diretora Executiva do Fogo Cruzado.

As ações policiais e suas dinâmicas chamaram a atenção no relatório. Foram exatamente 62 ações policiais. Igualmente, 62 pessoas foram baleadas nessas circunstâncias (representando 42% do total de baleados), destas, oito em cada 10 pessoas morreram, totalizando 50 mortos. A região metropolitana de Belém, inclusive, ficou à frente da Bahia no que diz respeito à violência armada em ações policiais, perdendo apenas para o Rio de Janeiro. “Percebemos que esse padrão coloca a RMB em uma situação semelhante à realidade do Rio de Janeiro e da Bahia, onde a ação das polícias também aparece como um dos motores da violência armada, resultando em um grande número de vítimas. Essas ocorrências comumente direcionam suas ações para a população preta e pobre”, analisa Dandara Rudsan, articuladora e porta-voz do Fogo Cruzado no Pará.

Outra violência que chamou a atenção nesses 100 dias foram os ataques armados sobre rodas. 21 ocorrências foram registradas. O Instituto Fogo Cruzado utiliza esse indicador para situações em que pessoas em veículos motorizados (carros, motos, entre outros), passam atirando na direção de pessoas paradas em algum local, sem sequer descer do veículo. Nesse período foram registrados 18 mortos e oito feridos nessas situações. “Essa é uma dinâmica típica de disputas entre grupos criminosos e da atuação de grupos de extermínio. É um dado para o qual estamos olhando para entender se ele segue uma tendência ou representa um padrão na RMB. Outro destaque nestes 100 dias foi também a ocorrência de duas chacinas em um curto espaço de tempo”, lembra o Coordenador regional do Fogo Cruzado no Pará, Eryck Batalha.

A primeira chacina registrada na região metropolitana de Belém ocorreu no dia 7 de janeiro de 2023 no bairro de Águas Lindas, em Ananindeua. Durante a ação policial, três pessoas morreram. Um dos mortos teria envolvimento com a tentativa de assalto que deixou um policial militar ferido no dia anterior, no centro de Belém.

A segunda chacina ocorreu apenas três dias depois, em 11 de janeiro de 2023, sob circunstâncias parecidas. Após a morte do policial Rafael dos Santos Meireles, foram feitas operações policiais na RMB. Dois homens morreram no bairro da Terra Firme como resultado das ações policiais, e um foi morto no Murinim, distrito de Benevides, ambas as ocorrências relacionadas ao atentado contra o agente.

Perfil das vítimas

O perfil das vítimas de violência armada neste período não destoa do que pesquisas e outros relatórios já apontam há anos. Os homens correspondem a 91% do total de baleados e 95% do total de mortos. As vítimas são em sua maioria adultos, 95% do total de baleados. As informações sobre gênero e faixa etária, em geral, não são difíceis de encontrar, mas dados sobre raça são mais escassos. Do total de vítimas, 23,6% não tinham informação de raça. Mas quando há, são as pessoas negras que aparecem como principal alvo, representado por 56% das pessoas mortas a tiros — quase três pessoas negras assassinadas a cada pessoa branca.

O relatório aponta ainda que as balas também não têm endereço certo. Ao menos 19 pessoas foram baleadas dentro de casa e quatro em locais de lazer como bares e festas. Quanto ao papel da polícia, os próprios agentes do estado, responsáveis pela segurança dos cidadãos, tornam-se alvos da violência armada. Em 100 dias, 12 agentes de segurança foram baleados, 6 deles não resistiram. Dentre os agentes mortos, apenas dois foram baleados em serviço.

Distribuição dos casos na região

O levantamento aponta ainda que dos 82 bairros, em todas as oito cidades que compõem a região metropolitana de Belém, ao menos 62% registraram uma ação policial que resultou em disparos de arma de fogo, nos primeiros 100 dias de atuação do Instituto Fogo Cruzado. 

“É importante dizer que não pudemos identificar, nesses primeiros meses de atuação, nenhum padrão espacial de concentração da violência. O bairro do Guamá aparece como o líder de episódios de violência armada com apenas 6% dos registros identificados, mas isso não torna o bairro o mais violento da região. Vale ressaltar que a violência armada em todos os níveis deve ser observada com atenção, porque ela geralmente reflete uma ausência de diversas políticas públicas no território”, afirma o Coordenador regional do Fogo Cruzado no Pará, Eryck Batalha.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Belém e de Salvador.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no maior banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

LEIA TAMBÉM:

LEIA TAMBÉM:

Relatórios, Rio de Janeiro
Pernambuco, Relatórios
Bahia, Relatórios