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92% da população concorda que mulheres estão mais expostas à violência, aponta pesquisa

Levantamento do Instituto Update e do Instituto Fogo Cruzado mostra percepção de que mulheres enfrentam riscos específicos e uma população que cobra punição, mas desconfia da capacidade das respostas tradicionais para segurança pública; para 93%, tema será central nas eleições

A percepção de que as mulheres estão mais expostas à violência é praticamente consensual no Brasil. Segundo 92% das pessoas ouvidas em uma pesquisa nacional encomendada pelo Instituto Update e pelo Instituto Fogo Cruzado, elas estão sujeitas a riscos que os homens não correm. Além disso, 83% consideram alta ou muito alta a gravidade da violência contra a mulher em sua cidade. 

Embora homens e mulheres apresentem níveis semelhantes de insegurança geral, o levantamento identifica diferenças nos tipos de violência temidos e em experiências associadas. Elas relatam mais medo de violência doméstica (11 pontos percentuais a mais) e abuso sexual (6 pontos a mais), além de afirmarem em maior proporção ter sido vítimas de assédio (5 pontos a mais) e abuso físico ou psicológico (4 pontos a mais). 

A pesquisa “Mulheres, polícia e facções – O que está no centro do debate sobre segurança pública?” ouviu 2 mil pessoas em todas as regiões do país e contou com duas frentes qualitativas: uma realizada exclusivamente com mulheres, sobre os impactos da insegurança em seu cotidiano, e outra sobre segurança e violência armada, com grupos separados de homens e mulheres em diferentes capitais brasileiras.

Medo ‘encolhe’ vida de mulheres

Na etapa qualitativa dedicada à experiência feminina, ônibus, metrôs, trens, pontos de espera e corridas por aplicativo apareceram entre os espaços de maior insegurança – percepção corroborada pelo levantamento quantitativo, no qual 39% das mulheres dizem se sentir inseguras no transporte público, contra 26% dos homens. As participantes também relataram mudar trajetos, evitar determinados horários, deixar de frequentar lugares e, em alguns casos, recusar oportunidades de trabalho ou estudo quando o deslocamento exigia sair cedo, voltar tarde ou atravessar áreas consideradas perigosas.

Esses riscos interferem na circulação, no trabalho, no estudo, no lazer e na convivência, mantendo muitas mulheres em estado constante de alerta. Nos grupos, essa rotina foi associada a exaustão, ansiedade, estresse e, em alguns casos, à necessidade de acompanhamento psicológico e medicação.

“Quando uma mulher deixa de aceitar um trabalho, usar transporte público, frequentar lugares ou sair à noite por medo da violência, a insegurança passa a definir os limites da sua rotina. É nesse sentido que dizemos que o medo encolhe o mundo das mulheres. Segurança pública também trata da liberdade concreta de circular, trabalhar, estudar, cuidar e participar da vida pública”, afirma Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update.

População cobra punição, mas é cética quanto aos resultados

A pesquisa também mostra que a população recorre a respostas punitivas mesmo sem confiar plenamente em seus resultados. Penas mais duras aparecem em primeiro lugar entre as prioridades, mencionadas por 42% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, apenas 41% acreditam que a polícia de fato protege a população e 22% percebem melhora da segurança depois de operações policiais.

Isso não significa, contudo, que a população rejeite medidas preventivas. Quando prisão e investimentos em educação e políticas sociais são avaliados separadamente, os percentuais se aproximam: 49% consideram que prender pessoas ajuda consideravelmente ou totalmente a reduzir a violência, enquanto 45% dizem o mesmo sobre educação e políticas sociais. Os dados sugerem que a punição ocupa mais espaço no repertório imediato sobre segurança, embora outras respostas também encontrem apoio quando são apresentadas de forma concreta.

A etapa qualitativa sobre segurança e violência armada ajuda a explicar essa aparente incoerência. Participantes reconhecem que operações e confrontos pouco alteram a estrutura das organizações criminosas, mas associam a punição imediata a uma resposta possível diante da sensação de impunidade e da falta de confiança no sistema de Justiça. Os depoimentos sugerem que, diante da desconfiança nas instituições e da pouca visibilidade de outras alternativas, a punição continua sendo percebida como uma das poucas respostas disponíveis.

“Os dados mostram que o repertório da população sobre segurança pública ainda é muito restrito. As soluções apontadas pelos entrevistados giram em torno de alternativas individuais e penas mais duras. Só que essas penas não atuam na prevenção, tampouco reduzem o medo. Faltam ideias relacionadas a políticas públicas e esse é o caminho para um melhor debate sobre segurança no país”, afirma Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado. 

Mulheres se reconhecem como parte da solução

Na pesquisa, a população feminina também reconhece o valor de suas próprias perspectivas na construção de soluções. Entre as entrevistadas, 70% concordam total ou parcialmente que as mulheres têm melhores ideias para a segurança pública. O resultado indica que elas atribuem legitimidade às experiências e propostas formuladas por outras mulheres, percepção compartilhada por apenas 13% dos homens. 

Nos grupos de discussão, as entrevistadas associaram lideranças femininas a maior sensibilidade para enfrentar a violência contra mulheres e citaram nomes de diferentes campos políticos. Também surgiram propostas que ampliam a noção tradicional de segurança, como melhoria da iluminação e do transporte, cuidado com áreas abandonadas, educação, prevenção à violência de gênero e fortalecimento das redes comunitárias.

Carol Althaller ressalta que, embora as mulheres apareçam na pesquisa como as pessoas que mais precisam adaptar a própria vida ao medo, elas não podem ser tratadas simplesmente como vítimas. “Quando as mulheres falam sobre o tema, aparecem dimensões que muitas vezes ficam fora do centro do debate: o caminho até o trabalho, o ponto de ônibus, a rua sem iluminação, o cuidado com os filhos, o medo de voltar para casa, a rede de vizinhas, amigas e familiares. Isso não substitui outras respostas de segurança, mas mostra que proteger a população também passa por garantir condições reais de circulação, convivência e participação na cidade”, completa.

Segurança pública estará no centro das eleições

Para 93% dos entrevistados, a segurança pública será importante nas eleições de 2026. Como maioria do eleitorado, as mulheres terão peso relevante na disputa – e a pesquisa ajuda a identificar experiências e preocupações que podem entrar em sua avaliação de propostas e candidaturas.

“A candidatura que tentar fugir desse tema ou recorrer a velhas estratégias que não dialoguem com a crescente sensação de insegurança vai ter dificuldade de dialogar com o eleitorado. Este é um tema central para todos os recortes da pesquisa, em todo o país. É preciso debater, apontar caminhos, propor novas ideia”, afirma Maria Isabel Couto.

A etapa quantitativa da pesquisa foi conduzida pelo IDEIA – Instituto de Pesquisa e ouviu 2 mil pessoas com 16 anos ou mais, residentes em todas as regiões do Brasil, entre 24 e 31 de março de 2026. A amostragem foi feita por cotas proporcionais segundo sexo, faixa etária e distribuição regional, com referência na PNAD Contínua 2025 e no Censo Demográfico de 2022. A margem de erro máxima é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

A etapa qualitativa, realizada com apoio da Estratégia Latina, foi dividida em duas trilhas: uma sobre segurança e mulheres, formada exclusivamente por participantes do sexo feminino, e outra sobre segurança e violência armada, com grupos separados de homens e mulheres em diferentes capitais brasileiras.

Sobre o Instituto Update

O Instituto Update é uma organização liderada por mulheres que tem como objetivo impulsionar a participação política e fortalecer a qualidade das democracias, promovendo sistemas mais representativos, inclusivos e responsivos para todas as pessoas. Atuamos como uma plataforma regional de inovação política no Sul Global, conectando lideranças, fortalecendo redes e produzindo conhecimento para ampliar e garantir a participação política de mulheres diversas que lideram agendas democráticas.

Sobre o Instituto Fogo Cruzado

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.  Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém. Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

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