Relatório anual do Instituto Fogo Cruzado destaca a participação policial nos tiroteios, os conflitos entre grupos armados e recordes históricos de tiros contra crianças e adolescentes
- No Grande Rio, mesmo com a queda no número de tiroteios, a violência contra crianças atingiu seu auge;
- 2024 também registrou recorde de violência contra crianças e adolescentes em Pernambuco;
- Na Bahia, ações policiais ainda são responsáveis por mais da metade das chacinas;
- Pará é o estado com o maior número de tiroteios envolvendo ações policiais.
O relatório anual do Instituto Fogo Cruzado expõe um cenário crítico da violência armada nas regiões metropolitanas de Rio de Janeiro, Recife, Belém e Salvador. A distribuição geográfica das áreas monitoradas pelo Fogo Cruzado, abrangendo as regiões Sudeste, Nordeste e Norte do país, possibilita identificar tanto padrões comuns quanto especificidades regionais no uso da força letal pelo Estado. Permite também compreender a dimensão dos conflitos entre grupos armados no cotidiano de grandes centros urbanos. Mais do que números isolados, o monitoramento simultâneo dessas quatro áreas revela tendências preocupantes. Em 2024, foram registrados 6.769 tiroteios, que resultaram em 5.936 pessoas baleadas, com 4.104 mortos e 1.832 feridos. Quase um terço do total de tiroteios monitorado (29%) ocorreram durante ações policiais.
Rio de Janeiro
Com uma média de sete tiroteios diários na região metropolitana, o Rio de Janeiro registrou 2.532 ocorrências de disparos de arma de fogo ao longo de 2024. Após atingir seu pico em 2018, com 9.633 registros, esse é o menor índice contabilizado pelo Instituto desde 2017, quando a série histórica começou. Apesar da redução expressiva da violência armada, foi em 2024 a maior proporção de tiroteios policiais já registrada pelo Fogo Cruzado. Ao menos 36% dos tiroteios estavam relacionados a operações policiais, afetando 1.968 unidades de ensino e 1.136 unidades de saúde.
O número de crianças baleadas também atingiu seu recorde no ano passado. Foram 26 jovens entre 0 e 11 anos baleados, o maior índice de toda série histórica do Instituto. Em 2018, quando a violência armada atingiu seu auge, 25 crianças foram baleadas.
Pernambuco
A violência armada na região metropolitana do Recife caiu de 1.827 tiroteios em 2023 para 1.748 em 2024. Apesar da redução de 4% nos casos de violência armada, o número de registros em 2024 é o segundo maior da série histórica do Instituto, iniciada em 2019. É nesse estado que a violência tem os índices mais preocupantes: 97% dos disparos ocorridos na região metropolitana resultaram em vítimas, o maior índice em todos os estados mapeados pelo Fogo Cruzado.
A violência contra os mais jovens é ainda mais alarmante, com um histórico dramático de 735 casos de jovens entre 0 e 17 anos baleados desde 2019. Em 2024 o número de crianças e adolescentes baleados atingiu o recorde, com 147 baleados, resultando em 101 mortes.
Bahia
O número de tiroteios em Salvador e região metropolitana se manteve estável, apresentando uma pequena redução de 0,4% em comparação com 2023. Foram 1.795 ocorrências envolvendo disparo de arma de fogo em 2024, contra 1.804 no ano anterior. Em média, a Bahia registrou cinco tiroteios diários em Salvador e região metropolitana, com 38% dos confrontos originados em ações policiais. No ano anterior, essa proporção era de 36,5%.
Destaca-se ainda o número de chacinas. Foram 27 registradas em 2024, resultando na morte de 92 civis. Em 2023, foram 48 chacinas com 190 mortos. Apesar da queda, a participação policial permaneceu acima da metade nos últimos dois anos. Em 2024, 59% das chacinas aconteceram em ações policiais, enquanto em 2023 essa taxa foi de 69%, o que mostra que a polícia ainda é responsável por mais da metade das chacinas ocorridas em Salvador e região metropolitana.
Pará
No Pará, a violência policial se mostra mais crítica. Dos 694 tiroteios registrados na região metropolitana de Belém no primeiro ano de monitoramento do Instituto, 42% dos registros ocorreram durante ações policiais — o maior índice entre os quatro estados monitorados pelo Instituto Fogo Cruzado, superando o Rio de Janeiro (36%) e a Bahia (38%).
A violência no estado parece ter um alvo certo. Dos 686 baleados em 2024, 96 vítimas foram atingidas em ataques armados sobre rodas e somente duas pessoas ficaram feridas por balas perdidas.
O contexto nacional de armamento civil agrava ainda mais o quadro de violência. Entre 2017 e 2023, houve um aumento de 227% no número de armas registradas, chegando a aproximadamente 4,8 milhões de armas em posse da população civil. Junte-se a esse número o dado de pessoas que morreram em confrontos com agentes de segurança: entre 2015 e 2024, foram 51 mil pessoas.
Para Cecília Olliveira, diretora Executiva, os dados evidenciam uma realidade preocupante: “A violência armada segue como um grande desafio Os impactos são devastadores, especialmente para crianças, adolescentes e comunidades vulneráveis. A flexibilização do acesso a armas de fogo, sem o acompanhamento dos mecanismos de fiscalização, combinada com uma política de segurança pública centrada no confronto, tem contribuído para a manutenção deste ciclo de violência, algo que não é novidade, mas que vem aparecendo a cada novo relatório anual”.
A diretora do Fogo Cruzado ressalta ainda a urgência de políticas públicas coordenadas e baseadas em evidências. “Há oito anos apresentamos números que traduzem a dor de famílias e o medo do cidadão. Há oito anos vemos mais do mesmo nas políticas públicas de segurança. É preciso pensar em estratégias com metas claras, planejadas a partir dos dados produzidos pelo poder público e sociedade civil, com atenção especial para a fiscalização, o controle de armas e à reformulação das estratégias de enfrentamento, que precisam ser calcadas em evidências e inteligência. A violência é hoje a maior preocupação do brasileiro, superando saúde e educação”, conclui.
Em relação às políticas públicas de segurança, o relatório traz um panorama sobre a Proposta de Emenda à Constituição, que ficou conhecida como PEC da Segurança Pública e recentes decretos do governo federal focados no controle do uso da força pelas polícias e na regulação do armamento civil.
Terine Coelho, gerente de pesquisa do Instituto Fogo Cruzado, destaca que apesar dos pontos positivos, as medidas ainda são tímidas. “A PEC prevê o fortalecimento de uma coordenação nacional através do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), mas o foco excessivo em medidas ostensivas em detrimento do investimento em investigação e inteligência, fundamentais para o esclarecimento de casos de violência, é problemático, para dizer o mínimo”, afirma. A pesquisadora destaca que a PEC não trata da regulação do uso da força, que foi tratado em um decreto à parte. “O decreto menciona o tema, mas ainda carece de critérios claros para avaliar a adesão dos estados e seus parâmetros de implementação. Vale também ressaltar que o foco exclusivo em mortes é insuficiente para uma prevenção efetiva da violência policial. Como demonstra a experiência do Fogo Cruzado, é fundamental monitorar todo uso da força, não apenas os casos com vítimas fatais. Afinal, precisamos considerar que, em 2024, nas quatro regiões metropolitanas que monitoramos, das 1.775 pessoas baleadas durante ações policiais, 40% sobreviveu. Isso sem contar o impacto mais difuso, mas também gravíssimo, de ações policiais que perpetuam a violência armada, sobre serviços básicos essenciais, como o funcionamento de escolas e postos de saúde, ou o fluxo de transportes públicos”, conclui.
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.