Primeiros seis meses de 2025 são marcados por 18 tiroteios em disputas, recorde da série histórica do Instituto Fogo Cruzado, e pelo aumento no número de vítimas de balas perdidas
- Tiroteios em disputas explodem de um caso para 18 no primeiro semestre;
- Semestre também teve recorde de vítimas de balas perdidas e de baleados em eventos públicos;
- Com 10 vítimas, primeiro semestre foi o mais violento para crianças na região metropolitana do Recife, comparado com o primeiro semestre dos anos anteriores.
Os dados do primeiro semestre de 2025 mostram que o número de tiroteios motivados por disputas entre grupos armados bateu recorde em comparação com o primeiro semestre dos anos anteriores da série histórica do Instituto Fogo Cruzado. Pernambuco, que em análises anteriores sempre chamou atenção pelo elevado número de tiroteios com vítimas, evidenciando uma dinâmica de violência focada em acertos de contas, trouxe, neste semestre, o destaque para um indicador que reforça o padrão dos conflitos entre grupos armados.
- Primeiro semestre 2019: sem tiroteios em disputas entre grupos armados
- Primeiro semestre 2020: 4 tiroteios e 2 mortos em disputas entre grupos armados
- Primeiro semestre 2021: 2 tiroteios, 2 mortos e 1 ferido em disputas entre grupos armados
- Primeiro semestre 2022: sem tiroteios em disputas entre grupos armados
- Primeiro semestre 2023: 3 tiroteios, 1 morto e 5 feridos em disputas entre grupos armados
- Primeiro semestre 2024: 1 tiroteio sem vítimas em disputas entre grupos armados
- Primeiro semestre 2025: 18 tiroteios, 16 morto e 11 feridos em disputas entre grupos armados
Dos 18 tiroteios ocorridos em disputas neste primeiro semestre, seis se deram no Recife. Mas houve tiroteios também em Olinda (4), Paulista (4), Cabo de Santo Agostinho (2), Goiana (1) e Moreno (1).
Este primeiro semestre mostrou que a violência armada afeta toda população. O número de vítimas de balas perdidas, que também está em alta, bateu recorde no semestre.
- Primeiro semestre 2019: 13 vítimas de balas perdidas — 10 mortas e 3 feridas
- Primeiro semestre 2020: 26 vítimas de balas perdidas — 24 mortas e 2 feridas
- Primeiro semestre 2021: 17 vítimas de balas perdidas — 16 mortas e 1 ferida
- Primeiro semestre 2022: 32 vítimas de balas perdidas — 29 mortas e 3 feridas
- Primeiro semestre 2023: 26 vítimas de balas perdidas — 24 mortas e 2 feridas
- Primeiro semestre 2024: 38 vítimas de balas perdidas — 32 mortas e 6 feridas
- Primeiro semestre 2025: 39 vítimas de balas perdidas — 35 mortas e 4 feridas
Das 39 vítimas de balas perdidas registradas no semestre, 31 foram atingidas como vítimas colaterais de homicídios ou tentativas de homicídio.
Olinda concentrou a maioria das vítimas, com 17 atingidas. Em seguida, Cabo de Santo Agostinho (8), Recife (8), Paulista (2), Abreu e Lima (1), Goiana (1), Jaboatão dos Guararapes (1) e São Lourenço da Mata (1) também registraram vítimas de balas perdidas no semestre.
Chama atenção ainda o número recorde de crianças baleadas no semestre em comparação com o mesmo período dos anos anteriores da série histórica.
- Primeiro semestre 2019: 6 crianças baleadas — 0 mortas e 6 feridas
- Primeiro semestre 2020: 4 crianças baleadas — 1 morta e 3 feridas
- Primeiro semestre 2021: 4 crianças baleadas — 0 mortas e 4 feridas
- Primeiro semestre 2022: 6 crianças baleadas — 2 mortas e 4 feridas
- Primeiro semestre 2023: 3 crianças baleadas — 1 morta e 2 feridas
- Primeiro semestre 2024: 5 crianças baleadas — 2 mortas e 3 feridas
- Primeiro semestre 2025: 10 crianças baleadas — 2 mortas e 8 feridas
Os seis primeiros meses de 2025 registraram uma queda no número geral de tiroteios e vítimas. No entanto, alguns indicadores apresentaram aumentos significativos. Entre eles, destaca-se o número de ocorrências em que a “disputa” aparece como motivação, evidenciando o uso crescente da violência por grupos armados na tentativa de expandir seu controle territorial. A ausência de ações efetivas para conter esse tipo de crime se reflete em outro dado alarmante: o aumento no número de crianças baleadas. Pelo menos duas foram atingidas em situações relacionadas a disputas. Assim como as crianças, os adolescentes também vêm enfrentando uma escalada da violência desde 2022.
“A carência de programas e políticas públicas voltadas à proteção da infância e da adolescência expõe os mais jovens à linha de frente da violência e os dados evidenciam isso mais uma vez. Vale destacar que o Plano Estadual de Segurança Pública, Juntos Pela Segurança, reconhece crianças e adolescentes como público prioritário. No entanto, até o momento, nenhuma medida concreta de prevenção à violência voltada para essa faixa etária foi implementada. Sem políticas públicas baseadas em evidências, integradas e comprometidas em enfrentar estruturalmente as dinâmicas locais da violência, dificilmente alcançaremos uma real sensação de segurança. O governo do estado pode celebrar a queda em algumas estatísticas, mas fica claro que indicadores isolados não são suficientes para dar conta de uma realidade tão complexa, sobretudo quando dobra o número de crianças baleadas de um ano para o outro”, avalia Ana Maria Franca, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco.
Primeiro semestre em dados
Nos primeiros seis meses de 2025, 736 tiroteios/disparos de arma de fogo foram mapeados na região metropolitana do Recife. O número indica uma queda de 25% em comparação com o primeiro semestre de 2024, quando 983 tiroteios/disparos de arma de fogo foram mapeados.
Em 96% dos tiroteios registrados no Grande Recife no semestre houve vítimas. Ao todo, 849 pessoas foram baleadas no período: 631 morreram e 218 ficaram feridas. O número de mortos diminuiu 19%, e o de feridos, 33%, em comparação com o primeiro semestre de 2024, que acumulou 1.102 baleados, dos quais 777 morreram e 325 ficaram feridos.
O mapa da violência armada
Municípios
Recife concentrou 37% dos tiroteios, 37% dos mortos e 30% dos feridos mapeados no primeiro semestre de 2025. Os municípios da região metropolitana do Recife mais afetados pela violência armada foram:
- Recife: 270 tiroteios, 231 mortos e 66 feridos
- Jaboatão dos Guararapes: 106 tiroteios, 90 mortos e 26 feridos
- Cabo de Santo Agostinho: 82 tiroteios, 70 mortos e 28 feridos
- Olinda: 62 tiroteios, 49 mortos e 33 feridos
- Paulista: 45 tiroteios, 37 mortos e 15 feridos
Bairros
Os bairros mais afetados pela violência armada no primeiro semestre de 2025 foram:
- Dois Unidos (Recife): 17 tiroteios, 5 mortos e 14 feridos
- Goiana (Goiana): 17 tiroteios, 10 mortos e 12 feridos
- Iputinga (Recife): 16 tiroteios, 3 mortos e 12 feridos
- Piedade (Jaboatão dos Guararapes): 13 tiroteios, 4 mortos e 11 feridos
- Brejo da Guabiraba (Recife): 12 tiroteios, 1 morto e 13 feridos
Goiana, que deixou de fazer parte da região metropolitana do Recife em 2020, segue nos relatórios do Instituto Fogo Cruzado para manter a fidelidade da série histórica nos comparativos com períodos anteriores.
Locais
Ao menos 113 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa. O número de vítimas é 7% menor que o registrado em 2024, no primeiro semestre, quando 122 pessoas foram baleadas em residências. Apesar disso, registramos, em média, quatro pessoas baleadas dentro de casa por semana.
Outras 22 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de automóveis. Também houve 22 pessoas atingidas dentro de bares e nove dentro de barbearias.
Outro dado que chama atenção é o elevado número de pessoas baleadas em eventos públicos, que também atingiu um recorde no semestre. Veja:
- Primeiro semestre 2019: 20 baleados em eventos públicos – 9 mortos e 11 feridos
- Primeiro semestre 2020: 3 baleados em eventos públicos – todos feridos
- Primeiro semestre 2021: sem baleados em eventos públicos
- Primeiro semestre 2022: 4 baleados em eventos públicos – 1 morto e 3 feridos
- Primeiro semestre 2023: 5 baleados em eventos públicos – 2 mortos e 3 feridos
- Primeiro semestre 2024: sem baleados em eventos públicos
- Primeiro semestre 2025: 34 baleados em eventos públicos – 9 mortos e 25 feridos
Entre as vítimas atingidas em eventos públicos estavam uma criança e seis adolescentes.
O perfil da violência armada
Faixa etária
Entre os adolescentes de 12 a 17 anos, houve 66 baleados no primeiro semestre: 46 morreram e 20 ficaram feridos. No mesmo período de 2024, 78 adolescentes foram baleados, dos quais 55 morreram e 23 ficaram feridos.
Houve ainda 16 idosos baleados no semestre, onde 13 morreram e três ficaram feridos. Em 2024, no mesmo período, 14 idosos, com idade igual ou superior a 60 anos, foram baleados, dos quais 10 morreram e quatro ficaram feridos.
Cor/raça
Dos 849 baleados na região metropolitana do Recife no primeiro semestre, foi possível identificar a cor/raça de 57% deles. Com 457 baleados, os negros foram a maioria dos afetados pela violência armada; 25 vítimas eram brancas.
Gênero
Com 605 mortos e 176 feridos, os homens (cis ou trans) foram a maioria dos atingidos no primeiro semestre. Entre as mulheres (cis, trans ou travestis), 25 morreram e 36 ficaram feridas.
Entre as 61 mulheres baleadas neste primeiro semestre, 14 foram atingidas dentro de casa, representando 23% das mulheres baleadas no período.
Houve 10 casos de feminicídio ou tentativa de feminicídio, atingindo 11 mulheres no total.
Ocupação
Agentes de segurança
Seis agentes de segurança foram baleados na região metropolitana do Recife no primeiro semestre, entre as vítimas, três agentes morreram e três ficaram feridos. Quatro dos agentes foram baleados quando estavam de folga/fora de serviço e dois agentes eram aposentados ou exonerados do cargo.
Em 2024, no primeiro semestre, 14 agentes de segurança foram baleados, 10 morreram e quatro ficaram feridos.
Trabalhadores informais
Ao menos 16 entregadores/motoboys/mototaxistas, nove motoristas de aplicativo e três vendedores ambulantes foram baleados no Grande Recife no primeiro semestre. Em 2024, nesse mesmo período, 13 entregadores/motoboys/mototaxistas, 10 motoristas de aplicativo e dois vendedores ambulantes foram baleados no Grande Recife.
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.