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Tiroteios em disputas batem recorde no Grande Rio no semestre

Relatório do Instituto Fogo Cruzado traz panorama da violência armada na região metropolitana do Rio nos seis primeiros meses de 2025

  • Com 154 registros, o primeiro semestre bateu recorde na série histórica de tiroteios entre grupos armados. O crescimento é de 48% em relação a 2024;
  • Período também registrou recorde na proporção de tiroteios em ações policiais;
  • Vila Isabel, na Zona Norte, permanece entre os bairros mais afetados pela violência armada, assim como no ano de 2024 todo, quando foi considerado o bairro da região metropolitana do Rio com mais tiroteios, com 88 registros;
  • A cada quatro mulheres baleadas no semestre, uma foi atingida dentro de casa.

Os dados do relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado apontam um crescimento no número de tiroteios envolvendo disputas entre diferentes grupos armados  na região metropolitana do Rio. Houve aumento de 48% nos registros em comparação com os primeiros seis meses de 2024. Os recentes tiroteios ocorridos nas favelas do Catiri, na Zona Oeste da capital, no Morro dos Macacos, no Complexo do Fubá e no Morro do Juramento, na Zona Norte do Rio, contribuíram para que neste primeiro semestre, o número de tiroteios em disputas batesse recorde. 

  • Primeiro semestre 2017: 40 tiroteios e 38 baleados em disputas 
  • Primeiro semestre 2018: 42 tiroteios e 33 baleados em disputas
  • Primeiro semestre 2019: 48 tiroteios e 30 baleados em disputas
  • Primeiro semestre 2020: 13 tiroteios e 14 baleados em disputas
  • Primeiro semestre 2021: 63 tiroteios e 43 baleados em disputas
  • Primeiro semestre 2022: 56 tiroteios e 49 baleados em disputas
  • Primeiro semestre 2023: 98 tiroteios e 85 baleados em disputas
  • Primeiro semestre 2024: 104 tiroteios e 82 baleados em disputas
  • Primeiro semestre 2025: 154 tiroteios e 72 baleados em disputas

Somados, Catiri (8), Morro dos Macacos (57), Complexo do Fubá (54) e Morro do Juramento (54), concentraram mais da metade (57%) dos tiroteios ocorridos durante disputas no primeiro semestre (154).

  • Favela do Catiri: 16 tiroteios, sendo 8 (50%) em disputas entre grupos armados
  • Morro dos Macacos: 57 tiroteios, sendo 24 (42%) em disputas entre grupos armados
  • Complexo do Fubá: 54 tiroteios, sendo 22 (41%) em disputas entre grupos armados
  • Morro do Juramento: 54 tiroteios, sendo 34 (63%) em disputas entre grupos armados

“A situação de confrontos entre grupos armados no Rio vem piorando desde o ano passado e surpreende que o governo do estado não tenha nenhuma proposta para isso. Os conflitos no Morro dos Macacos e no Complexo do Fubá acontecem há meses. E a única resposta da política de segurança pública do Rio de Janeiro é ampliar o confronto como  estratégia de enfrentamento a violência armada. Quais os resultados disso? Como fica a população em meio ao fogo cruzado? É fundamental reconhecer que a segurança pública não pode ser construída exclusivamente através da força, mas requer estratégias integradas que abordem as causas estruturais da criminalidade e priorizem a proteção da vida da população”, avalia Carlos Nhanga, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Rio de Janeiro.

Os primeiros seis meses de 2025 apontam para uma tendência de queda nos índices de violência armada que já vem sendo observada nos últimos anos na região metropolitana do Rio de Janeiro. As operações policiais, por outro lado, contrastam com essa tendência. Os dados, que fazem parte do relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado, mostram que, assim como o número de tiroteios em disputas entre grupos armados bateu recorde, a proporção de tiroteios motivados por operações policiais também atingiu seu maior patamar neste primeiro semestre.

Com média de três registros por dia, o primeiro semestre de 2025 acumulou 1.233 tiroteios/disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro. O número indica uma queda de 8%, em comparação com o mesmo período de 2024, que acumulou 1.346 tiroteios. 

Entre os tiroteios mapeados de janeiro a junho deste ano, houve participação policial em 504 deles, o que representa 41% dos registros. Em 2024, nesse mesmo período, dos 1.346 tiroteios mapeados, 459 deles (34%) aconteceram nestas circunstâncias. 

  • Primeiro semestre 2017: 2.352 tiroteios – 35% em ações ou operações policiais (826)
  • Primeiro semestre 2018: 4.639 tiroteios – 22% em ações ou operações policiais (1.014)
  • Primeiro semestre 2019: 4.176 tiroteios – 26% em ações ou operações policiais (1.105)
  • Primeiro semestre 2020: 2.604 tiroteios – 28% em ações ou operações policiais (720)
  • Primeiro semestre 2021: 2.784 tiroteios – 28% em ações ou operações policiais (769)
  • Primeiro semestre 2022: 1.830 tiroteios – 32% em ações ou operações policiais (578)
  • Primeiro semestre 2023: 1.778 tiroteios – 38% em ações ou operações policiais (675)
  • Primeiro semestre 2024: 1.346 tiroteios – 34% em ações ou operações policiais (459)
  • Primeiro semestre 2025: 1.233 tiroteios – 41% em ações ou operações policiais (504)

“É sintomático que os tiroteios caiam, mas aumentem as disputas, aumente a proporção de tiros em ações policiais e com isso aumente também o número de baleados no Grande Rio. Isso mostra de maneira cristalina porque é preciso olhar a questão da segurança pública em toda sua complexidade. Muitas vezes um indicador pode evidenciar melhora na situação, mas por que as pessoas continuam se sentindo tão inseguras? Ora, porque o domínio territorial, que é o que caracteriza o Rio de Janeiro, ainda gera conflitos em abundância, assim como a própria política de segurança. Mais da metade das pessoas foram baleadas durante ações policiais, como é que alguém vai se sentir mais seguro assim?”, questiona Carlos Nhanga.

Neste primeiro semestre, o número de pessoas baleadas na região metropolitana do Rio voltou a crescer. Ao todo, 816 pessoas foram atingidas por disparos de arma de fogo: 406 morreram e 410 ficaram feridas. Houve aumento de 6% no número de mortos e de 14% no de feridos, em comparação com o mesmo período de 2024, quando foram registrados 744 baleados, sendo 383 mortos e 361 feridos.

Acompanhando a tendência dos anos anteriores, o primeiro semestre de 2025 também revelou que mais da metade das vítimas foram baleadas durante ações/operações policiais. Foram, ao menos, 424 pessoas atingidas nessas circunstâncias. O número representa 52% das vítimas de disparos de armas de fogo registradas no período. 

  • Primeiro semestre 2017: 1.314 baleados – 641 mortos e 673 feridos
  • 51% em ações ou operações policiais (668)
  • Primeiro semestre 2018: 1.432 baleados – 793 mortos e 639 feridos
  • 51% em ações ou operações policiais (737)
  • Primeiro semestre 2019: 1.513 baleados – 779 mortos e 734 feridos
  • 62% em ações ou operações policiais (942)
  • Primeiro semestre 2020: 1.042 baleados – 517 mortos e 525 feridos
  • 69% em ações ou operações policiais (716)
  • Primeiro semestre 2021: 1.138 baleados – 597 mortos e 541 feridos
  • 68% em ações ou operações policiais (771)
  • Primeiro semestre 2022: 952 baleados – 502 mortos e 450 feridos
  • 63% em ações ou operações policiais (603)
  • Primeiro semestre 2023: 1.109 baleados – 578 mortos e 531 feridos
  • 59% em ações ou operações policiais (657)
  • Primeiro semestre 2024: 744 baleados – 383 mortos e 361 feridos
  • 56% em ações ou operações policiais (414)
  • Primeiro semestre 2025: 816 baleados – 406 mortos e 410 feridos
  • 52% em ações ou operações policiais (424)

O mapa da violência armada

Regiões

Entre as seis regiões que compõem o Grande Rio, a Zona Norte concentrou 44% do total de tiroteios mapeados no ano. A Baixada Fluminense teve o maior número de mortos por arma de fogo, com 142 vítimas. A distribuição da violência armada no primeiro semestre de 2025 aconteceu da seguinte forma:

  • Zona Norte (Capital): 542 tiroteios, 112 mortos e 135 feridos
  • Baixada Fluminense: 245 tiroteios, 142 mortos e 84 feridos
  • Zona Oeste (Capital): 238 tiroteios, 90 mortos e 95 feridos
  • Leste Metropolitano: 143 tiroteios, 43 mortos e 75 feridos
  • Zona Sul (Capital): 35 tiroteios, 13 mortos e 15 feridos
  • Centro (Capital): 30 tiroteios, 6 mortos e 6 feridos

Municípios

O Rio de Janeiro concentrou 68,5% dos tiroteios, 54% dos mortos e 61% dos feridos mapeados neste primeiro semestre. Os municípios da região metropolitana do Rio mais afetados pela violência armada foram:

  • Rio de Janeiro: 845 tiroteios, 221 mortos e 251 feridos
  • São Gonçalo: 78 tiroteios, 20 mortos e 44 feridos
  • Duque de Caxias: 58 tiroteios, 41 mortos e 18 feridos
  • São João de Meriti: 52 tiroteios, 20 mortos e 22 feridos
  • Nova Iguaçu: 42 tiroteios, 29 mortos e 13 feridos
  • Niterói: 42 tiroteios, 15 mortos e 17 feridos

Bairros

Vila Isabel, que em 2024 foi considerado o bairro da região metropolitana do Rio com mais tiroteios, ocupa novamente a primeira posição entre os bairros mais afetados no primeiro semestre. Sozinho, o bairro acumulou 5% dos tiroteios mapeados entre janeiro e junho deste ano. Comparado com Cascadura, o segundo bairro mais afetado pelos tiroteios, Vila Isabel teve 27% mais registros no semestre:

  • Vila Isabel (Rio de Janeiro): 66 tiroteios, 6 mortos e 3 feridos
  • Cascadura (Rio de Janeiro): 52 tiroteios, 16 mortos e 6 feridos
  • Vicente de Carvalho (Rio de Janeiro): 51 tiroteios, 8 mortos e 9 feridos
  • Maré (Rio de Janeiro): 37 tiroteios, 9 mortos e 6 feridos
  • Bangu (Rio de Janeiro): 34 tiroteios, 16 mortos e 12 feridos

Com 28 vítimas, Bangu, na Zona Oeste da capital, foi o bairro da região metropolitana do Rio com o maior número de baleados no período. 

Locais

Ao menos 56 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de automóveis, outras 44 foram atingidas quando estavam dentro de bares e 40 foram baleadas quando estavam dentro de casa. Houve ainda 12 pessoas baleadas quando participavam de eventos, cinco atingidas dentro de transporte público, quatro dentro de barbearias e três atingidas dentro de  unidades de ensino.

Houve queda, em comparação com o primeiro semestre de 2024, que acumulou 47 pessoas baleadas dentro de automóveis, 21 pessoas baleadas em bares, 19 dentro de residências, 13 em eventos públicos, sete em transporte público e duas em barbearias.

O perfil da violência armada

Vítimas por faixa etária

Ao menos 10 crianças, entre 0 e 11 anos, foram baleadas no primeiro semestre na região metropolitana do Rio de Janeiro. Entre as vítimas, uma morreu e nove ficaram feridas. Entre as 10 crianças baleadas no semestre, sete foram vítimas de balas perdidas. Considerando as ações e operações policiais, quatro crianças foram atingidas nestas circunstâncias.

Em 2024, no primeiro semestre, 12 crianças foram baleadas, das quais duas morreram e 10 ficaram feridas. No período, das 12 crianças atingidas, uma foi baleada em ação policial e nove foram vítimas de balas perdidas.

Entre os adolescentes, 18 foram atingidos no semestre, sendo que sete morreram e 11 ficaram feridos. Entre as vítimas, mais da metade (10) foi atingida em meio a ações ou operações policiais. Houve ainda cinco adolescentes vítimas de balas perdidas.

O número de adolescentes, entre 12 e 17 anos, baleados no Grande Rio no primeiro semestre de 2025,  é igual ao registrado no mesmo período do ano passado. Dos 18 adolescentes atingidos por disparos de arma de fogo, 10 morreram e oito ficaram feridos. Sete das vítimas foram atingidas em ações ou operações policiais, e um adolescente foi vítima de bala perdida.

Houve ainda 20 idosos, com idade igual ou superior a 60 anos, baleados na região metropolitana do Rio no semestre: seis morreram e 14 ficaram feridos. Em 2024, no mesmo período, 21 idosos foram baleados, dos quais 12 morreram e nove ficaram feridos.

Cor/raça

Dos 816 baleados na região metropolitana do Rio no primeiro semestre, foi possível identificar racialmente 15% das vítimas. Entre as 125 pessoas com cor/raça identificada, os negros, com 70% das vítimas representaram a maioria dos atingidos (87). Pessoas  brancas respondem a 30%, com 38 das vítimas identificadas.

Gênero

Entre os 816 baleados, os homens (cis ou trans) são 90% dos atingidos no semestre. Ao todo, 734 homens foram baleados, dos quais 381 morreram e 353 ficaram feridos.  Entre as mulheres (cis ou trans), 60 foram baleadas, das quais 23 morreram e 37 ficaram feridas.

Entre as mulheres baleadas no semestre, 15 foram atingidas dentro de casa, o que mostra que, a cada quatro mulheres baleadas na região metropolitana do Rio no semestre, uma foi atingida nessa circunstância. Houve ainda 10 mulheres baleadas em feminicídios ou tentativas de feminicídio.

Ocupação

Agentes de segurança

Ao menos 66 agentes de segurança foram baleados na região metropolitana do Rio de Janeiro no primeiro semestre. Entre as vítimas, 23 morreram e 22 ficaram feridos. Dos 66 agentes de segurança baleados no semestre, 31 foram atingidos quando estavam fora de serviço, 28 foram atingidos em serviço (36%) e sete baleados eram aposentados/exonerados do cargo.

Os policiais militares foram os mais afetados pela violência armada. Dos 66 agentes de segurança, 46 pertenciam à categoria, o que representa 70% dos agentes baleados. 

Em 2024, no primeiro semestre, 46 agentes de segurança foram baleados, 19 morreram e 27 ficaram feridos. Entre as vítimas, 26 foram baleados quando estavam fora de serviço/ de folga, outros 19 foram atingidos em serviço, e uma vítima era aposentada/exonerada do cargo.

Trabalhadores informais

Ao menos nove entregadores/motoboys/mototaxistas, 14 motoristas de aplicativo e dois vendedores ambulantes foram baleados no Grande Rio neste primeiro semestre. Em 2024, sete entregadores/motoboys/mototaxistas, quatro motoristas de aplicativo e um vendedor ambulante foram baleados no Grande Rio.

Contexto

Chacinas

Houve 23 chacinas na região metropolitana do Rio no primeiro semestre do ano que deixaram 84 pessoas mortas. Entre as chacinas mapeadas no período, 74% delas (17) foram decorrentes de ações ou operações policiais, deixando 64 civis mortos – o que representa 76% dos mortos em chacinas.

O número de chacinas mapeadas no semestre é o mesmo registrado em 2024 neste período, que concentrou 23 chacinas com 77 mortos no total – sendo 15 delas (65%) em operações policiais que deixaram 52 mortos (68%). 

Balas perdidas

Ao menos 61 pessoas foram vítimas de balas perdidas na região metropolitana do Rio de Janeiro: 14 morreram e 47 ficaram feridas. Entre as 61 vítimas, 37 foram atingidas em ações ou operações policiais, representando 61% das vítimas de balas perdidas atingidas no período.

Em 2024, no primeiro semestre, 59 pessoas foram vítimas de balas perdidas (16 mortas e 43 feridas). Entre elas, 31 foram atingidas em meio a ações ou operações policiais, representando 53% das vítimas de balas perdidas no período.

Motivos

Dos 1.233 tiroteios mapeados no primeiro semestre na região metropolitana do Rio, foi possível identificar a motivação de 864 deles (70%). Os principais motivos mapeados foram: Ação/Operação policial (504); Disputa entre grupos armados (154); Homicídio/Tentativa de homicídio (124); e Roubo/Tentativa de roubo (112).

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.

Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.
“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).
Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP).
O Estatuto do Idoso considera idosos com idade igual ou superior a 60 anos.
Unicef considera crianças com idade inferior a 12 anos. 
Unicef considera adolescentes com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos.
O Instituto Fogo Cruzado considera a Região Metropolitana do Rio como: Rio de Janeiro (Capital), Baixada Fluminense (Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica) e Leste Metropolitano (Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu e Tanguá).

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