Relatório do Instituto Fogo Cruzado traz panorama da violência armada na região metropolitana de Belém no primeiro semestre de 2026
- As ações policiais foram responsáveis por 45% dos tiroteios ocorridos no semestre;
- Em seis meses Grande Belém tem a mesma quantidade de baleados em residências que o ano de 2025 todo, com 59 atingidos. Ações policiais foram responsáveis por 76% das vítimas.
O novo relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta quarta-feira (29), mostra que, entre janeiro e junho, a violência armada na região metropolitana de Belém segue profundamente marcada por ações e operações policiais. Mesmo com a queda geral observada nos últimos anos, o número de tiroteios ocorridos por ações de agentes de segurança do estado ainda representam a maior parte dos registros. Durante o primeiro semestre de 2026, 234 tiroteios foram mapeados na região metropolitana, em 106 deles houve a participação dos agentes, o que representa 45% dos registros.
Houve uma queda de 20% na quantidade de tiroteios mapeados em comparação com os primeiros seis meses de 2025, quando 293 casos envolvendo disparos de armas de fogo foram mapeados.
Para Eryck Batalha, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Pará, os dados reforçam um padrão persistente no estado: a política de confronto direto como eixo central da segurança pública, com resultados limitados na redução da violência. “O Pará vive uma contradição profunda. Enquanto o governo projeta, de um lado, uma imagem internacional de defesa de direitos e sustentabilidade e, de outro, comunica êxitos de um Programa de Segurança Pública baseado em prevenção, os dados mostram que o Estado segue sendo um dos principais motores da violência armada dentro de seus próprios territórios”, afirma Eryck Batalha.
Em maio, durante a operação “Game Over 2.0” do 24º BPM na Passagem Benjamin, três homens foram mortos a tiros em Cabanagem, Belém, incluindo o vigilante da Usina da Paz do bairro, Haroldo Junior, e o proprietário do imóvel, Rhingo Miguel.
Nessa tendência de diminuição, inclusive, o número de baleados também caiu 15% de um semestre para o outro. Em 2026 foram mapeadas 233 vítimas, nos primeiros seis meses, com 201 mortas e 32 feridas. Entre as vítimas, 108 foram baleadas em meio a ações e operações policiais. Entre janeiro e junho de 2025, foram mapeados 274 baleados entre os municípios que compõem a região metropolitana de Belém, 222 deles morreram e 52 ficaram feridos.
As chacinas, casos em que três ou mais civis são mortos a tiros em uma mesma circunstância, seguem no mesmo patamar dos primeiros semestres de 2024 e 2025, com quatro casos em todos os períodos. Ao todo, 12 pessoas foram mortas nesses casos.
Os registros de “ataque armado sobre rodas”, conhecidos como “carro preto” ou “carro prata”, que fazem parte da dinâmica de disputa por controle armado de territórios, também são essenciais para entender a dinâmica da violência na região. No total foram registrados 16 casos no semestre, com 19 baleados no total. Houve ainda oito casos envolvendo sequestro/cárcere privado. Isso indica uma mudança no vetor de violências que a região tem vivido, alertando para a necessidade de atenção por parte da inteligência do Estado.
A violência armada invadiu o ambiente doméstico, atingindo um recorde histórico em comparação com os primeiros seis meses dos anos anteriores. Entre as pessoas baleadas na região metropolitana de Belém no primeiro semestre, 59 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa. O número de atingidos dentro de casa no semestre é 90% maior que o acumulado somente no primeiro semestre do ano passado (31) e igual ao registrado entre janeiro e dezembro de 2025 (59). As ações e operações policiais foram responsáveis por 76% dos baleados dentro desses espaços, com 45 atingidos. Cabe destacar ainda que, entre os 108 baleados em ações policiais no primeiro semestre, 41% estavam dentro de residências.
Para Eryck Batalha, o aumento das vítimas dentro de residências evidencia a necessidade de rever a forma como as operações policiais são conduzidas. “O crescimento da violência armada dentro de residências revela uma crise que vai além da segurança pública. Ela expõe a ausência de governança territorial em áreas onde o Estado chega apenas de forma reativa e armada”.
O mapa da violência armada
Municípios
Entre os municípios que fazem parte da região metropolitana de Belém, os mais impactados pela violência armada no primeiro semestre de 2026 são:
- Belém: 124 tiroteios, 100 mortos e 25 feridos
- Ananindeua: 43 tiroteios, 38 mortos e 2 feridos
- Castanhal: 25 tiroteios, 24 mortos e 2 feridos
- Barcarena: 12 tiroteios, 13 mortos e 1 feridos
- Marituba: 11 tiroteios e 9 mortos
- Santa izabel do Pará: 11 tiroteios, 8 mortos e 1 ferido
Bairros
Considerando os bairros da região metropolitana, os cinco mais afetados no primeiro semestre são:
- Curuçambá (Ananindeua): 10 tiroteios e 8 mortos
- Cabanagem (Belém): 8 tiroteios e 11 mortos
- Jurunas (Belém): 8 tiroteios, 6 mortos e 3 feridos
- Tapanã (Belém): 8 tiroteios e 7 mortos
- Marco (Belém): 8 tiroteios, 5 mortos e 1 ferido
Locais
Ao menos 10 pessoas foram baleadas dentro de bares, seis quando estavam em automóveis, quatro em lava-jato, duas em barbearias e uma em postos de gasolina.
O perfil da violência armada
Ocupação
Ao menos nove entregadores/motoboys/mototaxistas e três motoristas de aplicativo foram baleados no primeiro semestre na região metropolitana de Belém. Houve ainda três agentes de segurança baleados no período.
Vítimas por faixa etária
Apesar dos adultos entre 18 e 59 anos serem a maioria entre os atingidos pela violência armada, com 225 vítimas no total, três idosos (com idade a partir de 60 anos) e cinco adolescentes (entre 12 e 17 anos) também foram baleados ao longo do semestre.
Motivos
Dos 234 tiroteios registrados no primeiro semestre, foi possível identificar a motivação de 225 deles. Os principais motivos dos disparos de arma de fogo na região metropolitana foram: Ação/Operação policial (106); Homicídio/Tentativa de homicídio (87); Roubo/Tentativa de roubo (31); Sequestro/Cárcere privado (8); e Briga (8).
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que utiliza tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado obtém e disponibiliza informações sobre tiroteios, verificados em tempo real, que são o único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto ou dos relatórios produzidos mensalmente.
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