Pesquisa do GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado registra 4 milhões de moradores sob controle ou influência de grupos armados e revela padrões distintos de expansão por colonização e conquista.
A Região Metropolitana do Rio de Janeiro abriga hoje uma cidade inteira que não aparece nos mapas turísticos, mas que organiza, na prática, a vida de milhões de pessoas. São cerca de 4 milhões de moradores vivendo sob controle ou influência de grupos armados em 2024, o equivalente a 34,9% da população e 18,1% de toda a superfície urbanizada habitada. Em dezoito anos, entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%, enquanto a população nessa condição aumentou 59,4%. O que os números mostram, porém, vai além da cartografia da violência: o novo Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro explicita como o poder das facções e milícias se entranha na estrutura urbana, reforçando desigualdades de renda e raça e responde a cada falha, recuo ou colapso do Estado.
Produzido desde 2018 pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado (IFC), o estudo chega à versão 2025 com a sua atualização mais ambiciosa. A base é uma coleção massiva de denúncias anônimas do Disque Denúncia, geocodificadas, classificadas por algoritmos, validadas com levantamento em imprensa e literatura especializada e projetadas em um shapefile refinado até a escala censitária. Ao reduzir o grau de arbitrariedade na classificação dos registros e estabelecer um sistema de validação externa, os pesquisadores sustentam que não se trata apenas de um retrato pontual da violência, mas de uma verdadeira “série histórica” da expansão do controle armado na metrópole — com marcos, ciclos, retrações e avanços que dialogam diretamente com conjunturas políticas, econômicas e institucionais.
Do ponto de vista conceitual, o relatório rompe com a visão homogênea da atuação dos grupos armados e passa a distinguir duas categorias centrais: controle e influência. Controle é a situação na qual o grupo armado reúne simultaneamente três condições: extrai recursos econômicos de mercados legais ou ilegais no território; dita normas de conduta e padrões de comportamento dos moradores; e sustenta esse arranjo por meio do uso — efetivo ou potencial — da força. Influência, por sua vez, é uma espécie de controle insuficiente ou intermitente: as mesmas condições aparecem de forma parcial, irregular no tempo ou com menor densidade, mas ainda assim produzem impacto real na vida das pessoas. A diferença se revela decisiva para refinar a leitura da cidade: se o controle marca as áreas onde o domínio é consolidado e contínuo, a influência indica frentes de expansão, zonas de disputa e territórios em que o poder armado se infiltra pelas frestas da atuação estatal.
Em 2024, 14% da superfície urbanizada da RMRJ e 29,7% da população se encontravam sob controle direto de grupos armados, enquanto outros 4,1% do território e 5,3% dos moradores viviam sob influência. O crescimento acumulado na série é expressivo: a área dominada por grupos armados quase dobrou (alta de 98,4% no controle e de 420,1% na influência), enquanto a população sob controle ou influência saltou 59,4% — com especial destaque para a expansão da influência populacional, que cresceu mais de três vezes desde 2007.
Após anos de expansão desenfreada sobre novas áreas, as milícias do Rio de Janeiro entram em retração e o crime organizado muda de estratégia: sai de cena a “colonização” de territórios vazios e entra a “conquista” violenta de áreas já ocupadas. O resultado é um recorde de quase 4 milhões de pessoas vivendo sob o julgo de grupos armados, sendo 3,4 milhões em áreas efetivamente controladas, com o Comando Vermelho consolidando sua hegemonia sobre a população e as Milícias mantendo a maior extensão territorial, apesar da crise.
“Através das categorias de controle e influência e colonização e conquista conseguimos identificar padrões muito mais precisos, definidos e robustos de atuação de cada grupo armado e em diferentes circunscrições geográficas. Isto significa que podemos levantar hipóteses melhores sobre a expansão de cada grupo, no tempo e no espaço, também de como isso foi feito em cada momento e em cada lugar. Temos uma ferramenta analítica que pode ajudar muito o debate público”, diz Daniel Hirata, coordenador do GENI/UFF.
A Grande Expansão
A trajetória dessa expansão não é linear, e o relatório identifica principalmente dois períodos distintos de oscilações da atuação dos grupos armados. O primeiro é o que os autores classificam como “a grande expansão”, entre 2016 e 2020. Nesse intervalo, a área sob controle ou influência cresceu 31,6%, com acréscimo de 105,36 km², enquanto a população dominada aumentou 18,6% entre 2016 e 2019, incorporando cerca de 664 mil moradores. O período coincide com a falência fiscal do Estado do Rio de Janeiro, o desmonte das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o abandono do sistema de metas da Secretaria de Segurança e a intervenção federal de 2018, que, em vez de reduzir o domínio armado, conviveu com sua aceleração.
A partir de 2020, a série passa a registrar o que os pesquisadores chamam de “gradual retração”. Em termos relativos, o recuo é modesto: 7,1% de redução da superfície sob controle ou influência entre 2020 e 2024, e 5,5% de diminuição da população dominada desde 2019. Mas o movimento é inédito na série de 18 anos e está diretamente associado a um ator específico: as milícias. As operações do Ministério Público do Estado, em conjunto com outros órgãos — a exemplo da Operação Intocáveis —, a prisão e posterior morte de lideranças centrais, como Wellington da Silva Braga, o Ecko, e as disputas sucessórias internas desorganizaram redes de controle e abriram brechas para a retomada de territórios por facções como o Comando Vermelho. Ainda assim, a retração se dá a partir de um patamar historicamente elevado: a RMRJ continua, em 2024, muito mais dominada do que em qualquer momento do início da série.
Se o olhar se desloca do conjunto para os grupos específicos, o desenho fica ainda mais nítido. Em termos de extensão territorial — somando controle e influência —, as milícias são, em 2024, o grupo com maior participação: 49,4% de toda a área sob domínio armado, o equivalente a 201 km². Mas quando o critério é apenas o controle consolidado, é o Comando Vermelho (CV) que ocupa o primeiro lugar, com 47,5% dos territórios controlados, ou 150 km². Entre 2007 e 2024, as milícias foram o grupo que mais ampliou sua presença territorial: a área sob seu controle cresceu 315%, e, quando se considera também a influência, o salto chega a 501%. O CV, por sua vez, avançou de maneira constante, com aumento de 46,4% da área controlada e de 45,1% na soma entre controle e influência.
Na dimensão populacional, o quadro se inverte parcialmente. Em 2024, o Comando Vermelho lidera o domínio sobre pessoas: 47,2% da população sob controle armado — aproximadamente 1,607 milhão de habitantes — e 44,7% da população sob controle ou influência. As milícias, ainda assim, foram o grupo que mais cresceu também nesse campo: o número de pessoas sob seu controle aumentou 106,6% no período, e a população sob controle/influência miliciana cresceu 167,1%. O Terceiro Comando Puro (TCP) surge como terceira força em expansão, sobretudo a partir de 2018, enquanto o Amigos dos Amigos (ADA) é o único grupo com retração consistente, perdendo cerca de metade dos territórios e da população que dominava no auge da sua atuação.
Mais do que somar números, o relatório propõe uma leitura qualitativa das diferentes estratégias em jogo. De um lado, as milícias, que se apoiam em um modelo de negócios centrado na exploração de mercados urbanos formais e informais — transporte, imóveis, serviços, comércio local — e na construção de redes de cooptação com atores estatais e políticos. Trata-se de um padrão de atuação que tende a se espraiar por meio da influência, ocupando áreas de urbanização recente, zonas de expansão da cidade e fronteiras imobiliárias, onde o grupo armado se posiciona como intermediário obrigatório da oferta de serviços, da regularização fundiária e da infraestrutura básica. De outro lado, as facções, que dependem de um controle bélico mais ostensivo, com presença permanente de homens armados, vigilância intensa e imposição de normas e proibições cotidianas como condição para a extração de recursos, sobretudo a partir de mercados ilícitos, mas também da economia popular.
Colonização X Conquista
Essa diferença aparece com clareza quando os pesquisadores incorporam a dicotomia “colonização” e “conquista” à análise da expansão territorial. Colonização é o avanço sobre áreas que não estavam anteriormente sob domínio de nenhum grupo armado; conquista é o movimento de substituir um grupo que já controlava aquele território. Ao cruzar esses processos com a densidade demográfica, o estudo mostra que as áreas menos densas, com ocupação mais recente e urbanização incompleta, são predominantemente alvo de colonização — processo típico da expansão miliciana. Já as regiões densamente povoadas, com mercado local consolidado e serviços urbanos já instalados, são no geral palco de conquistas — dinâmica mais associada às facções. Em outras palavras, as milícias crescem em zonas onde a cidade ainda está sendo “inventada”, ocupando vazios urbanos, loteamentos irregulares e novas frentes de expansão; facções avançam onde a cidade já está consolidada, reposicionando-se em territórios de alta densidade e maior circulação econômica.
O mapa da Região Metropolitana reflete essas lógicas de forma desigual. O Leste Fluminense é o território da hegemonia quase absoluta do Comando Vermelho: em 2024, o grupo responde por mais de 98% da área sob controle e influência na região, que concentra praticamente metade de toda a extensão territorial dominada pelo CV na RMRJ. A Baixada Fluminense, por sua vez, se converteu, especialmente nos últimos seis anos, em área de disputa acirrada: o CV se mantém como principal força, mas as milícias cresceram 1.608% em controle territorial e mais de 1.200% em população dominada desde 2007, ao mesmo tempo em que o TCP ampliou significativamente sua presença, muitas vezes ocupando espaços deixados pelo ADA em retração.
Na capital, o quadro é mais complexo e expressivo da “cidade partida” que organiza o imaginário sobre o Rio de Janeiro. Em 2024, 31,6% da superfície urbanizada do município e 42,4% da população estavam sob controle ou influência de grupos armados, com 22,5% da área e 36,3% dos moradores submetidos a controle efetivo. A hegemonia miliciana se concentra sobretudo na Zona Oeste, região que responde por 65% do território urbanizado da cidade e 49% de seus habitantes. Nessa zona, quase 90% da área dominada e cerca de 80% da população submetida a grupos armados estão sob o comando de milícias. A partir de 2020, porém, o relatório identifica um recuo gradual: entre 2020 e 2024, as milícias perderam parte do território e da população que controlavam na Zona Oeste, abrindo espaço para avanços do CV, do TCP e de pequenos remanescentes do ADA.
No Centro e na Zona Sul, o vetor dominante é o Comando Vermelho, em boa medida a partir da conquista de áreas historicamente associadas ao ADA. A perda da Rocinha e do Vidigal, na Zona Sul, por exemplo, aparece na série como ponto de inflexão para o declínio dos Amigos dos Amigos e a recomposição do mapa sob liderança do CV. Já na Zona Norte, a história é de disputa e crescente complexidade: por muitos anos, milícias e CV alternaram posições na hegemonia territorial, com leve vantagem do CV em termos populacionais. Nos últimos anos, o TCP entra na equação com força, tornando a região um dos espaços mais disputados da cidade.
Para Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, a nova relação entre colonização e conquista é um dos dados que mais chama atenção na nova atualização do Mapa. “Essa é uma virada de chave na segurança pública do Rio. Durante quase duas décadas, a principal forma de os grupos armados crescerem foi a ‘colonização’: uma expansão silenciosa para áreas ainda não dominadas, muitas vezes liderada por milícias em áreas menos densas. A atualização do Mapa mostra o aumento das disputas que resultam em ‘conquista’: para crescer, um grupo precisa tomar a área do outro na base da força. O custo social dessa mudança de ‘colonizar’ para ‘conquistar’ é cobrado diretamente na rotina e na segurança de quem vive nessas áreas mais povoadas. A população passa a conviver com mais tiroteios, mais insegurança e mais medo”, afirma.
Desigualdades
A distribuição territorial do domínio armado, entretanto, não pode ser compreendida sem levar em conta quem são as pessoas que vivem nesses espaços. Quando o relatório cruzou controle armado com dados do Censo Demográfico de 2022, o resultado confirmou uma intuição antiga das periferias, agora com números precisos. Nas áreas sob controle de grupos armados na RMRJ, a renda média per capita é de R$ 1.267 na capital e R$ 1.121 na metrópole como um todo; nas áreas não dominadas, esses valores sobem para R$ 3.521 e R$ 1.658, respectivamente. Em outras palavras, moradores de áreas livres na cidade do Rio ganham, em média, quase três vezes mais do que aqueles que vivem em áreas controladas; na escala metropolitana, a diferença se aproxima de 50%.
No recorte racial, a desigualdade é igualmente contundente. As áreas sob controle de grupos armados na RMRJ têm composição média de 69,1% de pessoas não brancas (pretas, pardas e indígenas), contra 55,2% nas áreas não controladas. Na Baixada, a diferença é menor, mas ainda presente: 72,9% de não brancos nas áreas controladas, ante 68% nas demais. Já na Zona Sul e no Centro, regiões historicamente marcadas pela concentração de renda e pela segregação racial, a discrepância salta aos olhos: 68,3% de não brancos nas áreas dominadas, contra apenas 25,9% nas áreas livres. Em favelas e conjuntos populares — territórios que historicamente condensam a desigualdade urbana do Rio —, a diferença se mantém mesmo quando se separam favelas de “asfalto”. Trata-se, concluem os pesquisadores, de um fenômeno profundamente imbricado com a desigualdade estrutural da cidade, e não de um problema de “criminalidade difusa” espalhada aleatoriamente pelo mapa.
Ao final, o Mapa 2025 sustenta uma leitura que desloca o tema da segurança pública do campo exclusivo da repressão policial para um debate mais amplo sobre modelo de cidade, políticas de Estado e justiça social. A trajetória das milícias, por exemplo, mostra como um modelo de atuação ancorado em mercados urbanos, redes político-institucionais e controle territorial difuso é ao mesmo tempo capaz de produzir ganhos econômicos rápidos e vulneráveis a choques quando essas redes são atingidas. A expansão quase ininterrupta do Comando Vermelho, por outro lado, revela que estratégias baseadas apenas em operações policiais de alto impacto têm pouca capacidade de alterar o desenho estrutural do domínio armado, especialmente quando não são acompanhadas de políticas de redução de desigualdades, regulação dos mercados urbanos e fortalecimento institucional contínuo.
A combinação entre controle e influência, colonização e conquista, avanço miliciano e estabilidade faccional compõem um quadro em que a cidade formal e o “Estado armado” se entrelaçam e se retroalimentam. No limite, o que o Mapa Histórico dos Grupos Armados mostra é que a violência no Rio de Janeiro não é um ruído externo ao funcionamento da metrópole, mas um dos seus modos de organização. Enfrentá-la, portanto, exige mais do que planos emergenciais ou operações espetaculares: demanda políticas públicas capazes de intervir, ao mesmo tempo, sobre o território, a renda, o racismo estrutural, a regulação econômica e as próprias instituições encarregadas de garantir direitos — e não de aprofundar, pela omissão ou pela conivência, as desigualdades que sustentam o mapa do domínio armado.
Sobre o GENI/UFF
O Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF) é um grupo de pesquisa registrado no diretório de grupos de pesquisa do CNPq e especializado em temas associados às diferentes formas de violências e os conflitos sociais. O GENI-UFF se beneficia de estar sediado na Universidade Federal Fluminense, cuja centralidade na formação de recursos humanos é reconhecida em nível nacional e internacional. Neste espaço tão rico de formação e pesquisa na área, o GENI/UFF vem desenvolvendo projetos de pesquisa que envolvem discentes e docentes provenientes dessa rede institucional da UFF. Também é fundamental para o GENI-UFF a participação em redes interinstitucionais com outros grupos de pesquisa sediados em diferentes universidades brasileiras.
Sobre o Instituto Fogo Cruzado
O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.