- Relatório anual do Instituto Fogo Cruzado traz dados atualizados da violência armada no país.
- Confrontos por território cresceram 15%, avançam sobre novas regiões e evidenciam ausência de coordenação federal e políticas eficazes contra o crime organizado.
- O número de mortos em chacinas policiais dispara 101% em 2025.
A política de segurança pública no Brasil permanece ancorada em estratégias ultrapassadas e comprovadamente ineficazes. É o que revelam os dados do relatório anual do Instituto Fogo Cruzado. O alto número de mortos em chacinas policiais e o crescimento dos tiroteios em disputas por territórios ajudam a entender o fracasso desta política. Enquanto governos e polícias insistem em estratégias de confronto isoladas, grupos armados continuam em expansão e disputando violentamente territórios em todas as regiões do país.
Os dados do relatório foram mapeados durante todo o ano de 2025, nas quatro regiões metropolitanas onde o Fogo Cruzado atua: Rio de Janeiro, Recife, Belém e Salvador. São informações de 57 municípios e o monitoramento simultâneo dessas áreas permite identificar padrões recorrentes no uso da força policial, bem como compreender a dimensão dos conflitos no cotidiano urbano.
Em 2025, foram registrados 5.846 tiroteios, que resultaram em 5.465 pessoas baleadas, sendo 3.781 mortas e 1.684 feridas. Do total de tiroteios mapeados, 33% aconteceram durante ações policiais – em 2024 essa proporção era de 29%. O dado evidencia que o Estado segue entre os principais motores da violência que deveria combater. Sem surpresa, esta estratégia não foi suficiente para conter a expansão de grupos armados: as disputas entre eles cresceram 15% em relação a 2024.
O relatório também aponta um crescimento significativo nos dados relacionados às chacinas policiais — episódios em que três ou mais civis são mortos durante uma ação policial. Foram 62 chacinas policiais em 2025, um crescimento de 24% em relação ao ano anterior. Já os mortos em chacinas policiais dispararam 101%: 346 em 2025, contra 172 em 2024.
Para Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, o aumento das chacinas policiais e disputas entre grupos armados são fundamentais para compreender o dilema da segurança pública no Brasil hoje. “São dados de uma mesma moeda: as facções e milícias não param de crescer. O Estado investe na mesma política há 30 anos, não desarticula esses grupos nem promove segurança — mesmo com a crescente letalidade policial. Não tem como esperar um resultado diferente quando insistimos na mesma estratégia que sabemos que não dá resultado. Pelo contrário, sabemos que isso contribui para o alto número de tiroteios, coloca a população na linha de tiro, interfere no funcionamento de escolas e unidades de saúde — e não muda absolutamente nada no tabuleiro do crime. Estes grupos estão dominando mais áreas, subjugando mais pessoas e ganhando cada vez mais dinheiro e mais poder — especialmente importante em anos eleitorais, como o que temos pela frente”, afirma.
As consequências do alto número de confrontos realmente se refletem nos dados. O número de vítimas de balas perdidas cresceu 11% em 2025 e o de crianças e adolescentes baleadas oscilou 1% para cima. Chama atenção que o total de tiroteios em 2025 caiu 14%, quando comparado com 2024. Ainda assim, o impacto para quem convive com a violência armada é muito alto. Apesar de melhor, os dados ainda são alarmantes.
Grande Rio: disputas territoriais batem recorde
Em 2025, a região metropolitana do Rio de Janeiro registrou o maior número de tiroteios motivados por disputas territoriais desde o início do monitoramento do Fogo Cruzado, em 2017. Foram 275 confrontos entre facções e milícias na região metropolitana, um crescimento de 26% em relação a 2024. Esses tiroteios resultaram em ao menos 180 pessoas baleadas e transformaram bairros inteiros em territórios submetidos à violência armada recorrente, com impactos diretos sobre a circulação da população e o funcionamento de serviços essenciais.
Apesar da redução expressiva no número de tiroteios no total, foi em 2025 a maior proporção de tiroteios durante ações policiais na série histórica, com 39%. Ao menos 1.104 unidades de ensino e 1.149 unidades de saúde tiveram a rotina interrompida ao longo do ano devido à violência armada.
Pernambuco: disputas se espalham e rompem padrão histórico do estado
Em Pernambuco, os dados de 2025 revelam uma mudança profunda no padrão da violência armada. O estado, que historicamente registrava poucos conflitos territoriais, contabilizou 46 tiroteios motivados por disputas entre grupos armados na região metropolitana do Recife, representando um aumento de 650% em relação a 2024. Sete municípios diferentes foram afetados, evidenciando que os confrontos deixaram de ser episódios pontuais e representam uma mudança de paradigma na violência local.
A violência contra os mais jovens segue preocupante na região, com um histórico dramático de 883 casos de jovens entre 0 e 17 anos baleados desde 2019. Em 2025 o número de crianças e adolescentes baleados atingiu o recorde da série histórica, com 148 baleados, resultando em 97 mortes.
Bahia: letalidade policial e disputas alimentam ciclo de violência
Na Bahia, onde a polícia lidera os índices nacionais de letalidade, a escalada da violência armada ocorre em um cenário de forte presença policial e conflitos territoriais entre grupos armados persistentes. Do total de tiroteios registrados no ano, 44% aconteceram em ações ou operações policiais. A polícia baiana esteve envolvida ainda em 95 mortes em contexto de chacina em 2025, representando um aumento de 73% em relação a 2024, quando foram registradas 55 mortes.
Pará: expansão das disputas na Amazônia urbana
No Pará, os registros de ataques armados sobre rodas – quando ocupantes de um carro abrem fogo contra alvos – evidenciam o avanço das disputas entre grupos armados em uma região estratégica para o tráfico de drogas e outras economias ilícitas. Em 2025, a região metropolitana de Belém registrou 43 episódios de violência armada relacionados a esses conflitos.
A violência policial se mostra ainda mais crítica na região. Dos 542 tiroteios mapeados na região metropolitana de Belém, 46% dos registros ocorreram durante ações policiais — o maior índice entre os quatro estados monitorados pelo Instituto Fogo Cruzado, superando o Rio de Janeiro (39%) e a Bahia (44%).
Estes dados conversam com nossa pesquisa “Floresta em Pó” — feita com outros parceiros — que mostra que o Brasil deixou de ocupar apenas o papel de corredor da cocaína produzida nos países andinos e passou a desempenhar uma função estratégica muito mais central na cadeia do tráfico internacional. O país se consolidou como um dos principais polos de refino da droga, agregando valor ao produto antes de sua exportação. Essa mudança reposiciona o Brasil na geopolítica do crime organizado, fortalecendo facções nacionais como atores globais do narcotráfico.
Belém ocupa uma posição estratégica nessa nova dinâmica do tráfico por funcionar como ponto de escoamento da cocaína que percorre a rota amazônica. Depois de entrar no país pela tríplice fronteira e seguir pelos rios Solimões e Amazonas, a droga chega ao estado do Pará e encontra na capital uma estrutura portuária integrada às rotas comerciais internacionais. Essa posição logística transforma a cidade em peça-chave da cadeia global do narcotráfico e amplia os impactos locais da presença das facções, que disputam o controle de corredores fluviais, áreas portuárias e territórios periféricos.
A falta de uma política nacional de segurança
No plano federal, o balanço de 2025 aponta para avanços limitados. A PEC da Segurança Pública, apresentada como eixo central da política nacional, segue paralisada no Congresso Nacional. Sem coordenação efetiva, os estados atuam isoladamente diante de organizações criminosas que operam em escala nacional.
“O crime é transnacional, mas a resposta segue fragmentada. Sem liderança federal, os estados repetem erros e os grupos armados se aproveitam da ausência de política pública para prosseguir sua marcha expansionista”, critica Cecília Olliveira. “A ausência de uma política nacional articulada e consistente para enfrentar o tráfico de drogas — que vá além de ações pontuais e repressivas — cria um ambiente propício para o avanço das facções criminosas, especialmente nas cidades que, com a mudança do Brasil no cenário internacional de tráfico, integram a rota de escoamento da cocaína. Sem coordenação entre União, estados e municípios, com fronteiras pouco monitoradas, inteligência fragmentada e baixa presença estatal em áreas estratégicas, o crime organizado ocupa vazios institucionais e consolida controle territorial”, reitera.
Apesar de medidas pontuais no controle de armas, o país não estruturou políticas capazes de enfrentar o enorme arsenal em circulação nem de fortalecer a investigação criminal. O relatório anual do Fogo Cruzado mostra que o resultado é a manutenção de um modelo de segurança centrado no confronto, incapaz de reduzir as disputas armadas.
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.