Maio foi o mês com mais tiroteios desde que o Fogo Cruzado entrou no ar, em 2018 

Por: Katarina Scervino

Desde março de 2020, o estado de Pernambuco vem enfrentando uma série de mudanças no cotidiano de toda a população devido à pandemia do novo coronavírus, que teve o primeiro  caso confirmado no estado no dia 12 do referido  mês, em Recife. No dia 18, começaram as primeiras  suspensões de atividades, como a proibição de funcionamento de escolas, universidades e demais estabelecimentos de ensino

Durante a pandemia, houve uma média de 5 tiroteios por dia no Grande Recife. Foram 1.710 tiroteios/disparos de arma de fogo em 2020 – destes, 1.378 ocorreram no período de 18 de março (data da primeira suspensão de atividades) a 31 de dezembro.

Em comparação com o mesmo período de 2019 – quando houve 975 tiroteios – o período de pandemia representou um aumento de 41% nos registros. Em 2020, foram 1.569 pessoas baleadas: 968 mortas e 601 feridas. O aumento mais expressivo foi em relação aos feridos: em 2020, este número foi 87% maior que o ano anterior – quando houve 321 pessoas feridas. 

Lockdown

Gerlon Tavares, de 18 anos, Edinaldo de Oliveira, de 25, e um homem não identificado, foram mortos a tiros no dia 27 de maio, no bairro do Jiquiá, Recife. Eles estavam conversando na rua quando um carro se aproximou e os ocupantes efetuaram vários disparos contra eles. 

Entre os dias 16 e 31 de maio, a Região Metropolitana do Recife teve uma quarentena mais rígida, com permissão de circulação e funcionamento apenas para serviços considerados essenciais. Neste período, houve 83 tiroteios/disparos de arma de fogo na RMR, totalizando 54 mortos e 37 feridos. O número é 51% maior que o registrado no mesmo período de 2019, quando houve 55 tiroteios/disparos: com 41 mortos e 26 feridos.

Como mostram os dados, nem o lockdown foi capaz de conter a violência armada no Grande Recife, tendo em vista que maio também foi o mês com mais tiros registrados desde que o Fogo Cruzado começou a operar em Pernambuco, em 2018: foram 175 registros no total – com 108 mortos e 82 feridos. 

Residências

Se por um lado as medidas de isolamento social visaram proteger as pessoas da contaminação e avanço do coronavírus, tais medidas não foram capazes de protegê-las da violência armada, uma vez que muitas foram baleadas mesmo dentro de residências. Observou-se um aumento de 62% no número de pessoas baleadas em casa: 175 pessoas foram atingidas, destas, 142 morreram. Já no mesmo período de 2019, 108 pessoas foram vítimas da violência armada em casa – 91 morreram.

Em 24 de outubro, três homens foram baleados dentro de um apartamento na Rua da Bueira, em Enseada dos Corais, Cabo de Santo Agostinho. Moradores relataram ter ouvido mais de 40 disparos depois que o apartamento foi invadido. 2 deles morreram ainda no local e a terceira vítima foi socorrida e resistiu.

Feminicídio

No dia 4 de dezembro, uma mulher de 20 anos foi morta com um tiro na cabeça disparado pelo companheiro, durante uma discussão, no bairro da Torre, Recife. No momento do crime, ela amamentava o filho do casal e estava grávida de 3 meses. Segundo familiares, a vítima era alvo de ameaças e violência doméstica com frequência e seu companheiro teria antecedentes criminais e envolvimento com tráfico de drogas.

Uma vez que os casos de violência contra a mulher repetem um padrão em que o agressor é alguém próximo (como aponta o relatório publicado em novembro de 2018 pelo Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (Onudd)), o isolamento social mostrou novamente que a casa pode ser o lugar de menos segurança para as mulheres. Isto porque, durante a pandemia, 107 mulheres foram vítimas da violência armada no Grande Recife – sendo 51 mortas e 56 feridas.

Dentre os casos mapeados pelo Fogo Cruzado,  em 10 deles o feminicídio foi identificado como a principal motivação do crime – foram 9 mulheres mortas e 1 ferida nestas circunstâncias.

Bares

Em se tratando de pandemia, isolamento social e demais medidas adotadas para contenção do contágio pelo coronavírus, a quantidade de vítimas em bares também chamou atenção neste período. Houve um aumento significativo – de 62% – em relação ao mesmo período de 2019. Mesmo com medidas de isolamento, 47 pessoas foram baleadas dentro de bares no Grande Recife: 29 mortos e 18 feridos. No ano anterior, foram 29: 15 mortos e 14 feridos. 

Em 5 de setembro, uma briga entre o major da Polícia Militar José Dinamérico Barbosa da Silva Filho, de 49 anos, e o policial penal Ricardo de Queiroz Costa, de 40 anos, terminou em tiroteio com 3 pessoas mortas – incluindo 2 idosos – e 4 feridas. O caso aconteceu em um bar na Rua Professor José Brandão, no bairro de Boa Viagem, Recife.

Regiões

O município do Recife liderou o ranking de tiroteios/disparos de arma de fogo no período de 18 de março a 31 de dezembro, com 548 registros, seguido de Jaboatão dos Guararapes (228), Cabo de Santo Agostinho (131) e Olinda (128).

No ranking dos bairros mais afetados por tiroteios durante este período, Ponte dos Carvalhos, no Cabo de Santo Agostinho, ocupou o primeiro lugar com 28 tiroteios/disparos, seguido por Várzea (27), Cohab (25), e Coelhos (23), todos no Recife, e Muribeca (25), em Jaboatão dos Guararapes.

Deixe um Comentário





três + onze =