Major da reserva da PM e especialista em Segurança Pública, Luiz Alexandre Souza da Costa avalia que melhor treinamento e preparo dos agentes são fundamentais para diminuir a letalidade dos policiais

Nem a farda, nem o porte de armas, nem a identificação profissional livram policiais da violência armada na Região Metropolitana do Rio. Ao longo de 2021, 181 agentes públicos de segurança foram baleados, reagindo ou não, de folga ou em serviço, segundo os dados do Relatório Anual do Instituto Fogo Cruzado. Por que quem detém o monopólio de força muitas vezes é vítima também?

Para Luiz Alexandre Souza da Costa, major da reserva da Polícia Militar do Rio e pesquisador do Laboratório de Estudos de Política de Defesa e Segurança Pública (UERJ), há muitas explicações para esses números, mas todas começam por um pensamento central: um policial não pode portar arma de fogo se ele não tiver completamente preparado e atento. E é papel das instituições investir em treinamento e capacitação.

“É preciso conscientizar o policial de que, se ele não se sentir em condições de estar em alerta, não deve usar a arma de fogo. O que é muito difícil quando você tem um presidente da República que incentiva o uso de arma de fogo a qualquer pessoa. Se o governo incentiva qualquer civil a ter arma de fogo, o policial vai se sentir super preparado para portá-la”, explica o major.

Luiz Alexandre afirma ainda que mortes de policiais podem estar relacionadas a diversos fatores: policiais envolvidos com crimes, que morrem durante brigas, ou que são reconhecidos. Por isso, ter respostas para acabar de vez com a vitimização dos agentes pode ser difícil, porém não impossível. “O que o Estado pode fazer é ter um treinamento intenso, sobre a conscientização do uso das armas”, completa.

Policial militar por décadas, Luiz Alexandre afirma que as instituições não obrigam seus agentes a circularem armados em momentos de folga, mas reconhece que a existência de um “currículo oculto” estimula o heroísmo por parte dos policiais. É o que Luiz Alexandre chama de ‘sentimento de Rambo’ – um estímulo informal para que o policial exerça sua profissão 24 horas por dia. 

“Muitas vezes toda a rua sabe que o policial exerce essa função, e ele faz questão disso. A consequência é que, qualquer problema com o vizinho, vão bater na casa dele. Esse sentimento de ‘Rambo’ acaba entrando no imaginário do sujeito desde que ele adentra nas academias de polícia”. 

Em 2021, 55 agentes de segurança foram baleados em tentativas de homicídios – 44 morreram. O número de mortos foi 63% maior do que o do ano anterior. Nos dados de roubos/tentativas, outro crescimento: 54 baleados, 20% a mais que em 2020.

Mesmo em situações em que o policial não é a vítima, o comportamento de ‘fazer justiça com as próprias mãos’ só causa prejuízo e as consequências se estendem inclusive para a própria família. “Não vale a pena para o policial ser um justiceiro. Primeiro, porque ele não é. Segundo, porque as consequências não serão sofridas pelo governador, pelo comandante do batalhão, ou pelo delegado de polícia. As consequências serão vividas pelo próprio policial, que apertou o gatilho, e pela sua família. Ele ficará preso, será condenado, e seus familiares é quem sofrerão todas as dores disso”, alerta o policial da reserva.

Mortes em tiroteios 

A vontade de fazer justiça com as próprias mãos também está presente durante o serviço, nas ações e operações policiais. Nesses casos, a consequência é a letalidade durante embates: se um agente é morto, a tropa pode ser estimulada a vingá-lo. 

Em maio do ano passado, uma operação da Polícia Civil no Jacarezinho escalou depois da morte do policial André Frias, logo nos primeiros movimentos das equipes dentro da favela. Horas depois, veio o saldo: 27 mortos. Em novembro, no Complexo do Salgueiro, um policial militar foi morto no sábado; 24 horas depois, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) entrou na favela e deixou nove mortos. Em 2021, 76 policiais foram baleados em ações/operações, e 22 morreram – um aumento de 57% em relação a 2020.

O sentimento de Rambo vive há anos nos corredores de batalhões e delegacias. No caso do Jacarezinho, dois policiais civis viraram réus por homicídio e fraude processual na morte de um dos civis. Não é sempre que os processos avançam: a chacina da Nova Brasília, que deixou 13 pessoas mortas em 1994, só foi julgada em 2021, 27 anos depois. E os policiais foram absolvidos

“Quando há a morte de um policial, já é possível perceber que a operação foi mal planejada. A partir da minha experiência de planejamento em operações, não tenho dúvidas em afirmar”, diz Luiz Alexandre. “Depois da morte de um soldado, o sentimento de coleguismo é muito maior do que o sentimento de patriotismo. Em uma guerra, por exemplo, um garoto de 18 anos é jogado em outro país por uma discussão política. Muitas vezes esse garoto nem acredita naquele sentimento nacionalista. Mas o que é gerado é um sentimento de coleguismo grande: o sujeito do meu lado é alguém que pode salvar minha vida e eu posso salvar a dele. E quando vejo um colega sendo morto, um espírito de vingança surge”, explica.

O major da reserva enfatiza que a melhor estratégia é encerrar a operação. “Se no começo da operação eu já tive um policial morto, é porque ela já foi um fracasso. Se ela foi mal planejada e fracassou, a tendência é que isso decorra para chacinas e vinganças armadas. As autoridades têm que ter consciência de que não se pode alimentar esse sentimento de vingança”.

A ADPF 635, em vigor desde agosto de 2020, restringe operações policiais para casos de extrema necessidade – operações não planejadas e não comunicadas ao MP não devem acontecer – em teoria. Na prática, a medida determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é reiteradamente desrespeitada. Para Alexandre, a lógica do embate a todo custo tem como consequência a morte de muitos civis, e também de muitos policiais. 

“Nos últimos dez anos, nos Estados Unidos, a taxa de policiais mortos por 100 mil habitantes é de 0,54. No Rio de Janeiro, essa taxa é de 1,46 – três vezes maior. Quanto maior é a política de segurança pública voltada para o confronto, maior será o número de policiais mortos em serviço. Quanto mais a polícia mata, mais ela morre”.

Deixe um Comentário





3 × dois =