Grande Rio enfrenta explosão de mortes por armas de fogo no primeiro semestre deste ano

  • 50% dos disparos de arma de fogo deixaram mortos e/ou feridos no Leste Metropolitano
  • Chacinas na Baixada Fluminense aumentaram seis vezes e o número de mortos civis cresceu oito vezes
  • O número de agentes de segurança baleados já é 27% maior que o registrado no mesmo semestre de 2020

Junto com a explosão de casos da pior crise sanitária do Brasil, no primeiro semestre de 2021, a população na Região Metropolitana do Rio de Janeiro teve que enfrentar um aumento desordenado da violência armada que registrou uma média de 15 tiroteios por dia. É o que mostra o relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta segunda-feira, 12 de julho de 2021. 

Após dois anos de índices inimagináveis da criminalidade no Estado, 2020 se consolidou como uma espécie de trégua, extremamente necessária para centrar esforços no combate à pandemia do coronavírus. A ADPF 635, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal, em vigor desde junho do ano passado proibindo operações policiais não essenciais em favelas e periferias neste período foi ignorada.

Dados do relatório disponibilizado pelo Instituto Fogo Cruzado apontam que ações de rotina e operações policiais aumentaram significativamente neste ano (7%), inclusive com crescimento do número de mortes por armas de fogo nessas ações (19%). 

Exemplo disso foi a chacina do Jacarezinho, que chocou o mundo como a maior em operações policiais da história do Rio e terminou com  28 pessoas mortas. As ações policiais de alta letalidade mantiveram a rotina e só nesse semestre, cresceram 67% se comparadas ao mesmo período de 2020.

“Outra tendência importante que ajuda a caracterizar o comportamento atual das polícias do estado do Rio de Janeiro como desrespeito às decisões no âmbito da ADPF, são as ações policiais que resultam em 3 ou mais mortos civis, classificadas pelo Fogo Cruzado como chacinas. Todas essas chacinas são casos que escancaram a tendência de recrudescimento da violência policial na região metropolitana do Rio e colocam em xeque a capacidade das instituições que deveriam exercer o controle sobre o uso da força. Na ausência de respostas efetivas, a tendência clara é de escalada de mortes”, comenta Maria Isabel Couto, diretora de programas do Instituto Fogo Cruzado.

Em 2021, o Leste Fluminense, apesar de estar em terceiro lugar no ranking de tiroteios (594), atrás da Zona Norte (871) e da Baixada Fluminense (630), liderou a lista de disparos feitos na presença de agentes, assim como no número de mortos e também no de feridos no Grande Rio. Nesses últimos seis meses,  a região, que foi palco do maior número de tiroteios envolvendo policiais do Grande Rio (34% do total), acumulou o mais alto risco de morte para a sua população. Metade dos casos de tiros de arma de fogo deixaram mortos e/ou feridos.

Chacinas na Baixada

Se o Leste foi a região mais letal deste ano, a Baixada Fluminense foi a que concentrou o maior número de chacinas, quando há três ou mais pessoas mortas por arma de fogo no mesmo caso. Segundo dados do Instituto Fogo Cruzado, das 37 chacinas que aconteceram no Grande Rio nestes seis meses, 32% delas foram na Baixada. A chacina do Jacarezinho, ocorrida em 6 de maio durante operação policial, chamou a atenção pelo elevado número de vítimas. Casos como este foram comuns, em média dois por mês, deixando 49 vítimas neste semestre.

Ainda de acordo com o levantamento, as chacinas aumentaram seis vezes e o número de mortes subiu mais de oito vezes na região. Enquanto a Zona Sul da capital registrou queda total desse tipo de crime e na Zona Oeste caiu 20% nesse período em comparação aos mesmo período de 2020.

Vida em risco 

O policial civil, André Frias, foi morto a tiros durante a operação policial no Jacarezinho. Além dele, o Instituto Fogo Cruzado registrou 94 agentes de segurança baleados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, 38 morreram e 56 ficaram feridos. O número de baleados já é 27% maior que o registrado no mesmo semestre de 2020. Cerca de 44% dos agentes foram atingidos quando estavam em serviço, o que indica que as operações policiais são um risco para toda a comunidade.

Maria Isabel Couto, explica ainda que o saldo do primeiro semestre de 2021 é de tragédias e recordes emblemáticos. “Esse cenário é resultado de escolhas políticas falidas, que oferecem violência policial ou abandono como resposta à insegurança crônica que afeta o Rio de Janeiro. Enquanto nossos governantes não passarem a de fato cuidar da sua população, oferecendo condições dignas de vida, oportunidades e atuando com inteligência, infelizmente mortes como as de Kethlen Romeu e Thiago Freitas de Souza continuarão sendo rotineiras”. 

Kathlen Romeu, de 24 anos, grávida de 14 semanas, foi atingida com um tiro de fuzil no tórax, na comunidade do Lins, quando visitava a avó. Já o fotógrafo, Thiago Freitas de Souza, 32 anos, foi alvejado em Niterói após pedir silêncio para que o seu bebê pudesse dormir.

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