Mais da metade dos baleados estava em serviço, segundo Instituto Fogo Cruzado

O mês de outubro foi marcado pelo aumento de 90% no número de agentes de segurança* baleados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em comparação com o mesmo período do ano passado. O Instituto Fogo Cruzado registrou ao todo 19 atingidos, nove deles morreram, enquanto no mesmo período de 2020, houve 10 vítimas: quatro morreram e seis ficaram feridas. 53% (10) dos agentes baleados em outubro estavam em serviço.

A diretora de programas do Instituto Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto, aponta para a necessidade de políticas públicas que revertam essa estatística e elaborem um plano de segurança pública que proteja a todos. “É preciso considerar a revisão de protocolos de engajamento das polícias, com o objetivo de preservar a vida dos cidadãos, inclusive dos policiais”. 

Além disso, a queda no número de mortes por Covid-19 e o iminente controle desta crise sanitária não pode significar o fim da ADPF 635, que restringe operações policiais não urgentes no Rio de Janeiro durante a pandemia, relembra Maria Isabel. O momento reforça ainda mais a necessidade de um plano de segurança pública capaz de preservar a vida dos policiais conforme determinação do STF. “Agora que a pandemia está sob controle, precisamos ter um novo planejamento e não manter velhas ações. Mesmo com a restrição das ações policiais, os dados do ISP mostram que a apreensão de drogas, por exemplo – uma das maiores justificativas para operações policiais – não caiu significativamente”, explica Maria Isabel Couto.

O número de agentes baleados vem aumentando, tanto que no mês passado a Região Metropolitana do Rio atingiu a triste marca de 100 policiais militares baleados este ano. “A categoria é a mais afetada pela violência armada dentre os agentes de segurança e é urgente a investigação dos casos de policiais atingidos, inclusive fora de serviço, para que os responsáveis sejam punidos, as famílias tenham respostas e a situação seja contornada”, reitera Maria Isabel.

Outubro em dados

Durante o mês de outubro, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 338 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Uma queda de 20% em comparação com o mesmo período de 2020, que concentrou 420 registros.

Entre os 338 tiroteios mapeados no mês, houve presença de agentes de segurança** em 138 deles, o que equivale a 41% dos casos. O número de tiroteios nestas situações aumentou 9%, se comparado a outubro do ano passado, quando houve 127 tiroteios com participação dos agentes. 

Ao todo, 173 pessoas foram baleadas no Grande Rio neste mês que passou: destas, 83 morreram e 90 ficaram feridas. Uma queda de 33% entre os mortos e aumento de 3% entre os feridos em comparação com outubro de 2020, quando, dos 211 baleados, 124 morreram e 87 ficaram feridos.

Em comparação com setembro, que teve 286 tiroteios com 131 pessoas baleadas (sendo 61 mortas e 70 feridas), outubro apresentou aumento de 18% nos tiroteios, de 36% nos mortos e de 29% nos feridos.

Entre as datas mais afetadas pela violência armada durante o mês de outubro, o dia 8 concentrou o maior número de tiroteios, com 24 registros. O dia 31 do mês teve o maior número de mortos, com sete vítimas, e no dia 16, com sete registros, houve o maior número de feridos.

Os locais da violência

Entre os municípios que compõem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, os cinco mais afetados pela violência armada foram:

  • Rio de Janeiro: 162 tiroteios, 35 mortos e 35 feridos 
  • Duque de Caxias: 45 tiroteios, 3 mortos e 5 feridos 
  • São Gonçalo: 42 tiroteios, 13 mortos e 23 feridos 
  • Niterói: 23 tiroteios, 4 mortos e 12 feridos 
  • Belford Roxo: 20 tiroteios, 6 mortos e 3 ferido 

Entre os bairros que fazem parte do Grande Rio, os cinco mais afetados foram:

  • Olavo Bilac – Duque de Caxias: 15 tiroteios 
  • Praça Seca: 9 tiroteios 
  • Vicente de Carvalho: 8 tiroteios
  • Santa Rosa – Niterói: 7 tiroteios e 1 morto e 1 ferido
  • Bangu: 7 tiroteios e 1 morto

A Baixada Fluminense e a Zona Norte do Rio foram as regiões do Grande Rio mais afetadas por tiroteios em outubro. O Leste Metropolitano, porém, concentrou o maior número de baleados.

  • Baixada Fluminense: 103 tiroteios, 29 mortos e 16 feridos 
  • Zona Norte: 98 tiroteios, 10 mortos e 24 feridos 
  • Leste Metropolitano: 73 tiroteios, 19 mortos e 39 feridos 
  • Zona Oeste: 50 tiroteios, 20 mortos e 6 feridos 
  • Centro: 13 tiroteios, 5 mortos e 5 feridos 
  • Zona Sul: 1 tiroteio

Em outubro, houve 30 tiroteios/disparos de arma de fogo em áreas de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Ao todo, 10 pessoas foram baleadas nestas localidades. As áreas mais afetadas foram:

  • Complexo da Penha: 12 tiroteios e 1 ferido 
  • Andaraí: 4 tiroteios
  • Formiga: 3 tiroteios e 1 ferido 
  • Turano: 2 tiroteios e 1 morto 
  • Barreira do Vasco/Tuiutí: 2 tiroteios e 2 feridos 

As vítimas da violência no Grande Rio em outubro

  • Cinco chacinas*** deixaram 16 mortos no total. Em duas havia presença de agentes de segurança. Houve queda de 55% nas chacinas e de 67% nos mortos nestas circunstâncias. Em comparação a outubro de 2020, foram 11 casos que deixaram 49 mortos. Em nove destes registros teve presença de agentes.
  • Sete pessoas foram vítimas de balas perdidas****: destas, uma morreu e seis ficaram feridas. O número de vítimas foi 46% menor que o registrado em outubro de 2020, quando 13 pessoas foram atingidas, quatro mortas e nove feridas. Entre as vítimas, a atendente de supermercado Scheila Maria, atingida por uma bala perdida no ponto de ônibus. Na ocasião, uma perseguição policial durante tentativa de roubo de carga terminou em tiros na Avenida Brasil, na Altura de Vigário Geral, Zona Norte do Rio. Scheila foi a 100ª vítima de bala perdida mapeada pelo Instituto Fogo Cruzado este ano.
  • Quatro crianças (com idade inferior a 12 anos), três adolescentes (com idade entre 12 anos e 17 anos) e um idoso foram baleados, destes, uma criança, um adolescente e um idoso morreram. Em outubro de 2020, cinco adolescentes e cinco idosos foram baleados: destes, dois adolescentes e quatro idosos morreram.

Acumulado do ano

Entre janeiro e outubro de 2021, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 4.122 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, dos quais em 1.305 houve presença de agentes de segurança. Ao todo, 1.793 pessoas foram baleadas: destas, 924 morreram e 869 ficaram feridas. Comparado ao mesmo período de 2020, que concentrou 3.978 tiroteios/disparos de arma de fogo, deixando 1.562 baleados no total (sendo 789 mortos e 773 feridos), houve aumento de 4% nos tiroteios, de 17% nos motos e de 12% nos feridos.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e mapeia informações sobre tiroteios, checadas em tempo real. Elas ficam disponíveis no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

* Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

** Presença de agentes: situações em que há presença de agentes de segurança durante o tiroteio/disparo. Exemplo: operação, ação, assalto a agentes etc.

*** Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação: chacinas – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP)

**** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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