Houve outras duas chacinas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, aponta monitoramento do Instituto Fogo Cruzado

Última atualização feita em 03/12/2021

A chacina no Salgueiro que ocorreu nos dias 20 e 21 de novembro e terminou em pelo menos nove mortos não foi a única do mês. Houve mais duas chacinas, casos em que três ou mais civis foram mortos a tiros em uma mesma situação no Grande Rio, totalizando 17 mortos, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Duas das três chacinas ocorreram durante ações/operações policiais.

“O que aconteceu nesse final de semana no Complexo do Salgueiro não é uma exceção”, indica Maria Isabel Couto, diretora de programas do Instituto Fogo Cruzado. Para ela, esses números expressam a urgência da retomada do julgamento dos embargos da ADPF das Favelas, que definirá limites a serem impostos nas ações policiais a fim de evitar alta letalidade decorrente de falta de planejamento. “É imprescindível que os ministros do STF se posicionem e estabeleçam mudanças nos padrões de atuação das polícias, adotando a vida como prioridade máxima”, completa Maria Isabel Couto. 

A operação policial no Salgueiro, desencadeada após a morte do policial militar Leandro Rumbelsperger da Silva durante um patrulhamento na região, no dia 20, foi uma das 60 chacinas ocorridas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro durante ações ou operações policiais desde que a ADPF 635 entrou em vigência no dia 5 de junho de 2020, restringindo operações policiais não urgentes e não planejadas nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia. Desde então, 254 pessoas foram mortas nessas intervenções, número é 18% abaixo em relação ao período de um ano e cinco meses antes da decisão do STF.

O mês em dados

Em novembro, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 262 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Comparado ao mesmo período de 2020, que teve 301 registros, houve queda de 13% nos tiroteios.

A participação de agentes de segurança nestes tiroteios se manteve estável: foram 99 em novembro e 99 no mesmo período de 2020.

Apesar da queda nos tiroteios, o número de baleados aumentou 8%. Ao menos 146 pessoas foram baleadas neste mês que passou: 79 mortas e 67 feridas. Em novembro de 2020 foram 135 vítimas: 64 mortas e 71 feridas.

Em comparação com outubro, quando houve 338 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio, deixando 173 baleados – sendo 83 mortos e 90 feridos -, novembro teve queda de 22% nos tiroteios, de 5% nos mortos e de 26% nos feridos.

Do dia 1º ao dia 30, houve tiroteios/disparos de arma de fogo e vítimas em todos os dias do mês. Entre as datas mais afetadas pela violência armada, os dias 3 e 24 concentraram o maior número de tiroteios, com 16 registros cada; o dia 21 concentrou o maior número de mortos, com oito vítimas; e o dia 3 teve o maior número de feridos, com sete vítimas.

O mapa da violência

Entre os municípios que compõem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, os cinco mais afetados pela violência armada foram:

  • Rio de Janeiro: 125 tiroteios, 28 mortos e 24 feridos
  • São Gonçalo: 39 tiroteios, 18 mortos e 16 feridos
  • Niterói: 24 tiroteios, 7 mortos e 8 feridos 
  • Belford Roxo: 18 tiroteios, 4 mortos e 2 ferido 
  • Duque de Caxias: 15 tiroteios, 3 mortos e 7 feridos 

Entre os bairros da Região Metropolitana do Estado, os cinco mais afetados foram:

  • Brás de Pina: 10 tiroteios, 1 morto e 2 feridos
  • Vila Kennedy: 10 tiroteios e 1 morto
  • Bangu: 7 tiroteios e 1 morto
  • Praça Seca: 6 tiroteios e 1 morto 
  • Engenhoca – Niterói: 5 tiroteios, 3 mortos e 1 ferido

A Zona Norte foi a região do Grande Rio com o maior número de tiroteios em novembro, concentrando 30% do total acumulado.

  • Zona Norte: 78 tiroteios, 19 mortos e 20 feridos 
  • Leste Metropolitano: 72 tiroteios, 26 mortos e 27 feridos 
  • Baixada Fluminense: 65 tiroteios, 25 mortos e 16 feridos 
  • Zona Oeste: 35 tiroteios, 5 mortos e 2 feridos 
  • Centro: 11 tiroteios, 3 mortos e 2 feridos 
  • Zona Sul: 1 tiroteio e 1 morto

Houve 18 tiroteios/disparos de arma de fogo em áreas de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Ao todo, duas pessoas foram baleadas nestas localidades. As áreas mais afetadas foram:

  • Complexo de Manguinhos: 4 tiroteios e 1 ferido 
  • Complexo da Penha: 4 tiroteios 
  • Turano: 2 tiroteios e 1 morto 
  • Borel: 2 tiroteios

O retrato da violência em novembro

  • Oito agentes de segurança* foram baleados na Região Metropolitana do Rio: destes, quatro morreram (um em serviço, dois fora de serviço e um era aposentado/exonerado) e quatro ficaram feridos (todos fora de serviço). Em comparação com novembro de 2020 – quando houve 12 agentes baleados, sendo três mortos (um em serviço e dois fora de serviço) e nove feridos (cinco em serviço e quatro fora de serviço) -, houve queda de 33% no número de agentes baleados.
  • Ao todo, oito pessoas foram vítimas de balas perdidas** na Região Metropolitana do Rio: sete sobreviveram. Entre os oito baleados em novembro, seis foram atingidos em situações com a presença de agentes de segurança. O número de baleados em novembro é igual ao mapeado no mesmo período de 2020, quando, dos oito baleados, cinco sobreviveram. Entre as vítimas deste mês que passou, estava Carmelita Francisca de Oliveira, de 71 anos, atingida por uma bala perdida durante operação policial ocorrida no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no dia 21, e que culminou na morte de ao menos nove civis.
  • Uma criança (com idade inferior a 12 anos), quatro adolescentes (com idade entre 12 anos e 17 anos) e quatro idosos (com idade a partir de 60 anos) foram baleados na Região Metropolitana do Rio: destes, três adolescentes e um idoso morreram. Em novembro de 2020, houve seis adolescentes baleados: quatro deles morreram.

Acumulado do ano

Entre janeiro e novembro, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 4.386 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, dos quais, 1.408 deles contaram com a participação de agentes de segurança. Ao todo, 1.943 pessoas foram baleadas (1.006 mortas e 937 feridas). Em comparação com o mesmo período de 2020, quando houve 4.279 tiroteios (sendo 853 deles com a participação de agentes de segurança) e 1.617 baleados (sendo 844 mortos e 773 feridos), houve aumento de 2% nos tiroteios, de 19% nos mortos e de 21% nos feridos. Os tiroteios com presença de agentes de segurança tiveram o maior aumento, foram 65% de registros a mais.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

— 

* Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

Deixe um Comentário





8 − 1 =