11 agentes foram baleados ao longo do mês, segundo o Instituto Fogo Cruzado

Igor Lima de Barros, cabo da Polícia Militar, foi morto durante uma ação policial em Duque de Caxias, no dia 3. Nilson de Souza Maia, policial civil, foi morto dentro do carro em Del Castilho, no dia 22. Ao todo, 11 agentes de segurança foram baleados no mês: cinco deles morreram e seis ficaram feridos, segundo dados do relatório mensal do Instituto Fogo Cruzado

Em média, quase três agentes foram baleados por semana. Apesar de um número ainda alto, houve queda de 45% em comparação com março de 2021, quando 20 agentes de segurança foram baleados – metade deles morreu. Somente entre os dias 19 e 23, seis agentes de segurança foram vítimas de arma de fogo.

Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, avalia que é fundamental dar mais transparência ao número de agentes de segurança que são vítimas de arma de fogo quando estão fora do posto de trabalho e prever em um plano de segurança estruturado a proteção destes agentes públicos.

“O Estado não produz informações sobre agentes públicos de segurança feridos ou mortos fora de serviço. Eles levantam uma pequena parte da informação, que é sobre policiais que foram mortos ou feridos trabalhando. Nós do Fogo Cruzado contamos, e por isso hoje a sociedade pode saber desse número absurdo. O fato de haver todos esses agentes de segurança vitimizados só evidencia que não há um planejamento adequado que priorize a vida e não apenas durante o trabalho”, avalia.

Entre os cinco agentes de segurança mortos no mês, um estava em serviço e outros quatro estavam de folga. Dos seis agentes que ficaram feridos, três estavam em serviço, um estava de folga e outros dois eram aposentados/exonerados.

Neste mesmo mês, a Região Metropolitana do Rio superou a marca de 1.500 agentes de segurança baleados em quase seis anos. Atualmente, são 1.501 agentes de segurança baleados no Grande Rio desde que o Fogo Cruzado passou a operar no Rio de Janeiro, em 5 de julho de 2016.

Moradores da Grande Tijuca em alerta

Matérias sobre crimes cometidos na Tijuca e bairros vizinhos tomaram as manchetes nos últimos dias. No dia 25, Carlos Alexandre Resende, de 40 anos,  esperava a esposa voltar de viagem quando foi morto durante um assalto na Tijuca. Alessandra Moraes, sua companheira, estava por perto acompanhando os desdobramentos da situação quando descobriu que a vítima era o marido. O caso teve grande repercussão. 

Em março, houve 21 tiroteios/disparos de arma de fogo na Grande Tijuca – região que abrange os bairros da Tijuca, Vila Isabel, Alto da Boa Vista, Andaraí, Grajaú, Maracanã e Praça da Bandeira. Ao todo, 12 pessoas foram baleadas: oito morreram e quatro ficaram feridas. Veja o ranking dos bairros:

  • Tijuca: 7 tiroteios e 5 mortos e 2 feridos
  • Vila Isabel: 5 tiroteios e 1 ferido
  • Grajaú: 4 tiroteios
  • Andaraí: 2 tiroteios e 1 ferido
  • Maracanã: 1 tiroteio e 2 mortos
  • Praça da Bandeira: 1 tiroteio e 1 ferido
  • Alto da Boa Vista: 1 tiroteio

Apesar da gravidade dos crimes, houve queda de 36% no número de tiroteios em comparação com março do ano anterior, quando houve 33 tiroteios na região. Apesar disso, o número de baleados em março de 2021 foi relativamente menor: cinco vítimas – , todas morreram.

Cecília Olliveira avalia que a falta de continuidade dos programas de segurança pública fizeram a sensação de insegurança aumentar entre os moradores da Tijuca. 

“Houve ali diversas Unidades de Polícia Pacificadora. Mas como muitos programas são feitos como política de governo e não de Estado, elas não geram a mudança esperada. E a população paga o preço, muitas vezes, com a vida”. Para ela, “os índices chamam a atenção porque mostram diferentes perfis de violência armada acontecendo em uma mesma região. É uma prova de que a segurança pública não tem planejamento e por isso não está funcionando”, avalia.

O mês em dados

Durante o mês de março, houve 357 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Uma queda de 41% em comparação com o mesmo período de 2021, quando houve 606 registros.

Dos 357 tiroteios ocorridos no mês, 120 deles (34%), foram durante ações ou operações policiais, o que representa uma queda de 27% em relação a março de 2021, com 164 tiroteios nestas ocasiões.

Ao todo, 208 pessoas foram baleadas na Grande Rio: 101 morreram e 107 ficaram feridas. Houve aumento de 5% entre os mortos e queda de 4% entre os feridos em comparação com março de 2021, quando 208 pessoas foram baleadas, sendo 96 mortas e 112 feridas.

Em comparação com fevereiro, que concentrou 281 tiroteios, fazendo 162 vítimas (sendo 92 mortas e 70 feridas), em março houve aumento de 27% nos tiroteios,  de 10% nos mortos e 53% no número de feridos. 

Entre as datas mais afetadas pela violência armada durante o mês de março, o dia 22, com 24 registros, teve o maior número de tiroteios. O dia 14, com 11 registros, teve o maior número de mortos, e o dia 23, com nove registros, o maior número de feridos.

O mapa da violência

Dos 21 municípios que fazem parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, os mais afetados foram:

  • Rio de Janeiro: 210 tiroteios, 46 mortos e 54 feridos
  • São Gonçalo: 38 tiroteios, 12 mortos e 20 feridos
  • Duque de Caxias: 33 tiroteios, 8 mortos e 13 feridos
  • Belford Roxo: 23 tiroteios, 3 mortos e 5 feridos
  • Nova Iguaçu: 14 tiroteios, 9 mortos e 5 feridos

Entre os bairros do Grande Rio onde a violência armada esteve mais presente, estão:

  • Jardim Catarina (São Gonçalo): 11 tiroteios e 3 feridos
  • Vila Kennedy (Rio de Janeiro): 8 tiroteios e ferido
  • Guadalupe (Rio de Janeiro): 7 tiroteios, 6 mortos e 5 feridos
  • Tijuca (Rio de Janeiro): 7 tiroteios e 5 mortos e 2 feridos
  • Maré (Rio de Janeiro): 6 tiroteios e 1 morto e 3 feridos

A Zona Norte da capital, onde está localizada a Grande Tijuca, concentrou 38% dos tiroteios registrados na região metropolitana em março (357). Veja o ranking:

  • Zona Norte: 137 tiroteios, 33 mortos e 33 feridos
  • Baixada Fluminense: 99 tiroteios, 35 mortos e 30 feridos
  • Leste Metropolitano: 48 tiroteios, 20 mortos e 23 feridos
  • Zona Oeste: 49 tiroteios, 11 mortos e 12 feridos
  • Centro: 16 tiroteios, 1 morto e 4 feridos
  • Zona Sul: 9 tiroteios, 1 mortos e 5 feridos

Houve 30 tiroteios/disparos de arma de fogo em áreas de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Ao todo, 14 pessoas foram baleadas: sete morreram e sete ficaram feridas. As áreas de UPP afetadas pela violência armada em março foram:

  • Prazeres: 6 tiroteios e 2 feridos
  • Complexo do Alemão: 3 tiroteios e 1 morto
  • Complexo da Penha: 3 tiroteios
  • Turano: 2 tiroteios e 1 morto
  • Tabajaras: 2 tiroteios e 2 feridos
  • Andaraí: 2 tiroteios
  • Jacarezinho: 2 tiroteios
  • Barreira do Vasco/Tuiuti: 2 tiroteios
  • São João: 2 tiroteios
  • Formiga: 1 tiroteio e 3 mortos 
  • Chapéu-Mangueira/Babilônia: 1 tiroteio, 1 morto e 2 feridos
  • Borel: 1 tiroteio, 1 morto e 1 ferido

Cerro Corá, Complexo de Manguinhos e Macacos tiveram 1 tiroteio cada, mas sem vítimas.

As vítimas da violência

  • Em março houve cinco chacinas no Grande Rio, fazendo 19 mortos no total. Quatro delas ocorreram durante ação/operação policial. No mesmo período de 2021, foram seis chacinas que resultaram em 21 mortes. Cinco delas ocorreram em ações/operações policiais. 
  • Houve 33 casos de roubos ou tentativas de roubo que terminaram em tiros no Grande Rio. Ao todo, 25 pessoas foram baleadas nestes casos: 10 morreram e 15 ficaram feridas. Em março de 2021 houve 37 casos de roubos e tentativas que deixaram 40 baleados no total (10 mortos e 30 feridos).
  • 10 pessoas foram vítimas de bala perdida no Grande Rio em março: duas delas morreram. Entre as seis vítimas, seis foram atingidas durante ações ou operações policiais. Em março de 2021, 14 pessoas foram vítimas de balas perdidas: quatro morreram. Entre as 14 vítimas, 11 foram atingidas durante ações ou operações policiais.
  • Cinco adolescentes (com idade entre 12 e 17 anos) e três idosos (com idade a partir de 60 anos) foram baleados no Grande Rio: destes, um adolescente e dois idosos morreram. Em março de 2021, houve duas crianças (com idade inferior a 12 anos), cinco adolescentes e um idoso baleados no Grande Rio: destes, uma criança e dois adolescentes morreram.

Acumulado do ano

Entre janeiro e março, houve 865 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado: 277 deles ocorreram durante ações ou operações policiais. Ao todo, 485 pessoas foram baleadas: 252 morreram e 233 ficaram feridas. Em comparação com o mesmo período de 2021, que concentrou 1.410 tiroteios (sendo 415 em ações ou operações policiais) e 621 baleados (sendo 308 mortos e 313 feridos), houve queda de 39% nos tiroteios, 33% nos tiroteios em ações/operações, queda de 18% nos mortos e de 26% nos feridos.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação: chacinas – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP).

“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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