Ao todo, cinco crianças foram baleadas no último mês de 2021, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado

A Região Metropolitana do Rio termina o ano da mesma forma que começou: com crianças vítimas da violência armada. Ao longo de dezembro, cinco crianças foram baleadas, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Todas, felizmente, sobreviveram. Quatro das vítimas foram atingidas em um período inferior a 10 dias, entre 19 e 26 de dezembro.

Entre as vítimas está Manuela Griffo, de 9 anos. A menina estava com a família estreando os patins novos que ganhou de Natal quando foi atingida no ombro esquerdo na Praça Narciso Luzes, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, no dia 26. Não havia operação da polícia e/ou perseguição no momento em que ela foi baleada.

Para Cecília Oliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, o Brasil não terá futuro enquanto a infância não for prioridade. “Manuela não é um caso isolado, não é exceção. Temos em média uma criança baleada por mês no Grande Rio. Isso é inadmissível.”, afirma. 

“Temos um problema atualmente: o acesso às armas foi ampliado e os mecanismos de controle e fiscalização foram enfraquecidos. A polícia não tem mecanismos para investigar desvios, contrabando e tráfico de armas. Ninguém sabe de onde veio esse tiro que atingiu Manuela. Que justiça podemos esperar para esta família?”.

Carro da linguiça”: ataques sob rodas assustam moradores

Ataques a tiros também foram motivo de preocupação em dezembro de 2021: 13 pessoas foram atingidas em dois casos em que ocupantes de veículos passaram atirando em direção a um grupo de pessoas. Entre as vítimas dos ataques também estava uma criança. Roberto, de 11 anos, foi atingido nas costas quando estava em um bar jogando sinuca com o pai, em Inhaúma, na Zona Norte do Rio, no dia 19. Ocupantes de uma motocicleta passaram atirando em direção ao local. Outras cinco pessoas que estavam no bar também foram baleadas..

Os dados de dezembro

Durante o mês de dezembro, houve 267 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Apesar de ainda elevado, número foi 13% menor que o registrado no último mês de 2020, quando houve 306 casos.

Entre os 267 tiroteios, 93 deles (35%) ocorreram com a presença de agentes de segurança, o que representa um aumento de 26% em comparação com dezembro de 2020, que acumulou 74 tiroteios onde havia agentes de segurança na cena.

Apesar da queda nos tiroteios, houve aumento de 59% no número de baleados na Região Metropolitana do Rio em dezembro: foram 154 vítimas (sendo 77 mortos e 77 feridos). No mesmo período de 2020,  97 pessoas foram baleadas (sendo 43 mortos e 54 feridos).

Comparado ao mês de novembro, que concentrou 262 tiroteios, com 147 baleados no total (sendo 79 mortos e 68 feridos), dezembro apresentou aumento de 2% nos tiroteios e queda de 3% nos mortos por arma de fogo. Em compensação, houve aumento de 13% no número de feridos.

No mês de dezembro, as datas mais afetadas pela violência armada foram: dia 3, com 21 tiroteios/disparos de arma de fogo; Dia 12, com sete mortos; e dia 19, com nove feridos.

A violência no mapa

Entre os municípios que fazem parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, os cinco mais afetados pela violência armada foram:

  • Rio de Janeiro: 133 tiroteios, 26 mortos e 30 feridos
  • São Gonçalo: 37 tiroteios, 9 mortos e 23 feridos
  • Duque de Caxias: 19 tiroteios, 2 mortos e 3 feridos
  • Nova Iguaçu: 16 tiroteios, 10 mortos e 4 feridos
  • Belford Roxo: 13 tiroteios, 1 morto e 4 feridos

Entre os bairros do Grande Rio, os cinco mais afetados foram:

  • Madureira (Rio de Janeiro): 15 tiroteios e 1 ferido
  • Olavo Bilac (Duque de Caxias): 9 tiroteios
  • Vila Kennedy (Rio de Janeiro): 6 tiroteios e 2 mortos
  • Guadalupe (Rio de Janeiro): 5 tiroteios e 3 mortos
  • Cordovil (Rio de Janeiro): 5 tiroteios e 1 morto e 1 ferido

A Zona Norte concentrou 33% dos tiroteios mapeados no mês. Foi a região do Grande Rio mais afetada pela violência armada no mês de dezembro.

  • Zona Norte: 88 tiroteios, 13 mortos e 21 feridos
  • Baixada Fluminense: 76 tiroteios, 29 mortos e 16 feridos
  • Leste Metropolitano: 58 tiroteios, 22 mortos e 31 feridos
  • Zona Oeste: 35 tiroteios, 11 mortos e 8 feridos
  • Centro: 8 tiroteios, 2 mortos e 1 ferido
  • Zona Sul: 2 tiroteio

Houve 20 tiroteios em áreas de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Ao todo, quatro pessoas foram baleadas nessas áreas: destas, três morreram e uma ficou ferida. As áreas de UPP mais afetadas pela violência armada em dezembro foram:

  • Andaraí: 5 tiroteios e 2 mortos
  • Complexo da Penha: 4 tiroteios e 1 ferido
  • Borel: 3 tiroteios e 1 morto
  • Complexo do Alemão: 2 tiroteios
  • São João: 2 tiroteios

Perfil da violência em dezembro

  • Em dezembro, houve duas chacinas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, deixando oito mortos no total. Em um caso foi identificada a presença de agentes de segurança. No mesmo período de 2020 não houve chacinas.
  • 14 agentes de segurança foram baleados: oito morreram (dois em serviço, quatro fora de serviço e dois eram aposentados/exonerados) e seis ficaram feridos (três em serviço, dois fora de serviço e um era aposentado/exonerado). Em dezembro de 2020, houve nove agentes de segurança baleados, sendo três mortos (um em serviço e dois fora de serviço) e seis feridos (três em serviço e três fora de serviço).Em comparação com o ano anterior, 2021 teve aumento de 56% no número de agentes baleados.
  • Sete pessoas foram vítimas de balas perdidas em dezembro de 2021, e todas sobreviveram. Quatro delas foram atingidas em casos com a presença de agentes de segurança. No mesmo período de 2020 também houve sete vítimas – quatro foram mortas e três ficaram feridas. Naquele ano, quatro das vítimas foram atingidas em situações com a presença de agentes de segurança.
  • Quatro adolescentes (com idade entre 12 anos e 17 anos), e cinco idosos (com idade a partir de 60 anos) foram baleados no Grande Rio no último mês de 2021: destes, três idosos morreram. No mesmo período de 2020, um adolescente e dois idosos foram baleados: todos sobreviveram.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação: chacinas – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP)

Presença de agentes: situações em que há presença de agentes de segurança durante o tiroteio/disparo. Exemplo: operação, ação, assalto a agentes etc.

“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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