Dia da Baixada é pra comemorar, mas também para denunciar as falhas nas políticas de segurança pública

Neste 30 de abril, Dia da Baixada Fluminense, a região com 13 municípios* segue com alta letalidade em tiroteios onde há presença de agentes de segurança**. Somente em 2021, houve 442 tiroteios/disparos de arma de fogo que deixaram 219 pessoas baleadas: 118 delas morreram. Em 118 dos tiroteios houve presença de agentes de segurança*. 

Na Baixada, 3 a cada 4 tiroteios (75%) com a presença de agentes de segurança resultam em baleados. A região é tristemente conhecida como um lugar onde as ações e operações policiais resultam mais frequentemente em vítimas. Em seguida vêm o Leste Metropolitano (73% dos casos), a Zona Sul (62%), Zona Oeste (51%), Zona Norte (50%) e Centro (48%).

Mesmo com a ADPF 635 – ADPF das Favelas – que entrou em vigor em 5 de junho do ano passado suspendendo operações policiais não urgentes em favelas durante a pandemia, a Baixada não diminuiu os índices. Entre janeiro e abril de 2020, houve 118 tiroteios com presença de agentes registrados na Baixada Fluminense, em 75% dos casos (89 tiroteios) houve vítimas. Somente em 29 casos não houve vítimas. Apesar da ADPF, este ano houve aumento de 3% nos tiroteios com presença de agentes na comparação com dados de 2020, indicando um desrespeito à ADPF 635, que propõe que operações e ações policiais sejam planejadas e autorizadas pelo Ministério Público antes de realizadas.

Os números acima evidenciam não apenas uma política pública voltada para a lógica do confronto, como denotam o despreparo das forças de segurança para cumprir seu papel de preservar vidas – inclusive as próprias. Essa situação se reflete na trágica tendência de aumento de chacinas na região.

Em 2021, houve 9 chacinas*** na Baixada, 8 a mais que no mesmo período de 2019 – 5 delas decorrentes de ações policiais. Ao todo, 35 pessoas foram mortas. Estes casos representam 33% do total de chacinas e 34% do total de mortos em chacinas que ocorreram na Região metropolitana do Rio esse ano (29 casos com 112 mortes). 

Datas como 31 de março e 29 de junho, sozinhas, não significam nada, mas marcaram para sempre a Baixada Fluminense. Foi em 31 de março de 2005 que a região entrou para a história do Rio de Janeiro como a data da maior chacina registrada no estado. Há 16 anos 29 pessoas foram mortas por policiais armados à paisana que percorriam de carro Nova Iguaçu e Queimados e atiravam contra as pessoas que cruzavam o caminho. Anos depois, em 29 de junho de 2019, mais uma chacina. 13 pessoas foram baleadas durante ataque ao Bar Rei do Peixe, em Belford Roxo. 4 pessoas não resistiram. O alvo era Luiz Gustavo de Lima Nascimento, conhecido como Balrog, miliciano da região. O bar encerrou suas atividades 2 dias depois do crime.

Apesar de ser um dia de comemoração e conscientização, 30 de abril é também mais um dia para denunciar o descaso com a região e as falhas das políticas públicas em preservar a vida de moradores da Baixada, região que no passado já foi uma das áreas mais ricas do país, importante na produção cafeeira.

Somente no mês de abril, a Baixada Fluminense concentrou 23% dos tiroteios, 26% dos mortos e 19% dos feridos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

O mês em dados

Em abril, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 504 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Em 159 deles (32%) houve participação de agentes de segurança. Em 2020, no mês de abril, houve 503 registros. Este ano, no mesmo mês houve 1 tiroteio a mais do que abril do ano passado e houve também queda de 3% nos tiroteios com presença de agentes de segurança: foram 164 em abril de 2020.

Ao todo, 212 pessoas foram baleadas este mês no Grande Rio: 115 morreram e 97 ficaram feridas. Houve aumento de 19% no número de mortos e queda de 5% nos feridos em comparação com abril de 2020, que teve 199 baleados, sendo 97 mortos e 102 feridos.

Comparado ao mês anterior, abril teve queda de 17% nos tiroteios: foram 609 em março. Também houve queda de 13% no número de feridos, mas a quantidade de mortos aumentou 22%: foram 94 mortos em março e 115 mortos em abril.

Em abril, o dia 22 foi o mais violento para Região Metropolitana do Rio, com 28 tiroteios/disparos de arma de fogo. O dia 9 foi o mais letal, com 12 mortos e 9 feridos.

Locais afetados

Dos 21 municípios da Região Metropolitana do Rio mapeados pelo Fogo Cruzado, houve tiroteio/disparo de arma de fogo em 14 deles, sendo o Rio de Janeiro o mais afetado, concentrando 54% dos registros. Os municípios com mais tiroteios foram:

  • Rio de Janeiro: 271 tiroteios, 42 mortos e 36 feridos
  • São Gonçalo: 76 tiroteios, 26 mortos e 29 feridos
  • Belford Roxo: 31 tiroteios, 6 mortos e 4 feridos
  • Duque de Caxias: 28 tiroteios, 9 mortos e 7 feridos
  • Niterói: 26 tiroteios, 8 mortos e 9 feridos

Entre os bairros da região metropolitana do estado mais afetados pela violência armada em abril, estão:

  • Praça Seca: 31 tiroteios, 3 mortos e 2 feridos
  • Tijuca: 17 tiroteios e 1 morto
  • Complexo do Alemão: 17 tiroteios e 1 ferido
  • Olavo Bilac, em Duque de Caxias: 11 tiroteios e 6 mortos
  • Costa Barros: 11 tiroteios e 1 ferido

A Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, que até março ocupava sempre as primeiras posições no ranking, e por 3 anos seguidos foi o bairro mais afetado pela violência armada, ficou na oitava posição do ranking com 10 tiroteios/disparos.

Entre as regiões do Grande Rio, a Zona Norte concentrou 33% dos tiroteios, já o Leste Metropolitano – que abrange os municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu e Tanguá –, concentrou 37% dos mortos e 43% dos feridos: 

  • Zona Norte: 168 tiroteios, 27 mortos e 19 feridos
  • Leste Metropolitano: 117 tiroteios, 43 mortos e 42 feridos
  • Baixada Fluminense: 116 tiroteios, 30 mortos e 19 feridos
  • Zona Oeste: 76 tiroteios, 9 mortos e 10 feridos
  • Centro: 25 tiroteios, 6 mortos e 7 feridos
  • Zona Sul: 2 tiroteios

Do total de tiroteios ocorridos na região metropolitana, 73 deles foram em áreas com Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), dos quais 24 contaram com a participação de agentes de segurança. Ao todo, 3 pessoas foram mortas e 5 ficaram feridas nessas áreas. As unidades mais afetadas foram:

  • Complexo do Alemão: 17 tiroteios e 1 ferido
  • Borel: 11 tiroteios e 1 morto
  • Andaraí: 8 tiroteios e 1 ferido
  • Providência: 7 tiroteios, 1 morto e 1 ferido
  • Mangueira: 7 tiroteios e 1 ferido

As vítimas da violência armada

  • Em abril, houve 8 chacinas na Região Metropolitana do Rio que deixaram 31 mortos no total. Em 7 casos houve presença de agentes de segurança. No mesmo mês de 2020, houve 5 chacinas que deixaram 17 mortos. Em 4 delas havia agentes de segurança.
  • 16 agentes de segurança**** foram baleados no Grande Rio: 5 morreram (3 em serviço, 1 fora de serviço e 1 aposentado/exonerado) e 11 ficaram feridos (9 em serviço e 2 fora de serviço). A quantidade de agentes de segurança baleados este mês é 15% maior que a registrada no mesmo mês de 2020, que teve 13 baleados: sendo 5 mortos (2 em serviço e 3 fora de serviço) e 8 feridos (4 em serviço e 4 fora de serviço).
  • 14 pessoas foram vítimas de bala perdida*****: 3 morreram e 11 ficaram feridas. Houve aumento de 180% no número de vítimas em comparação com abril de 2020, quando 5 pessoas foram atingidas (todas sobreviveram). Entre as vítimas de bala perdida de abril deste ano estava a técnica de enfermagem Jéssica dos Santos Souza, de 25 anos, morta após ser atingida por uma bala perdida durante tiroteio dentro de um trem do ramal Japeri, na estação de Sampaio, no dia 4. O tiroteio ocorreu após uma tentativa de assalto.
  • 1 criança (com idade inferior a 12 anos) e 2 idosos (com idade a partir de 60 anos) foram baleados este mês: a criança não sobreviveu. A vítima era o pequeno Kaio Guilherme da Silva Baraúna, de 8 anos, atingido por bala perdida durante uma festa onde fazia aulas de reforço escolar, na Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste do Rio, no dia 17 de abril. Após uma semana internado, o menino teve morte confirmada. Kaio se tornou a 100ª criança baleada na Região Metropolitana do Rio nos quase 5 anos de atuação do Fogo Cruzado. No mesmo período de 2020, 1 criança e 7 adolescentes (com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos) foram baleados: destes, 2 adolescentes morreram.

Acumulado do ano

No período de janeiro até abril, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 1.920 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ao todo, 833 pessoas foram baleadas (421 morreram e 412 ficaram feridas). Em comparação com o mesmo período de 2020, quando houve 1.780 tiroteios que deixaram 778 baleados (sendo 374 mortos e 404 feridos), em 2021 houve aumento de 8% no número de tiroteios, 13% no número de mortos e 2% no de feridos.

* Região composta pelos municípios de Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica

** Presença de Agentes: Situações em que são percebidas a presença de agentes de segurança durante o tiroteio/disparo. Exemplo: Operação, Ação, Assalto a agentes etc.

*** Chacinas: Eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação: chacinas – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc (SSP de SP).

**** Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

***** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP)

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