Segundo Instituto Fogo Cruzado, outubro e setembro foram os meses com mais tiroteios desde 2018 

O medo se espalhou na última semana de outubro por Cabo de Santo Agostinho, depois que uma mensagem de Whatsapp foi amplamente compartilhada. A notícia era ameaçadora e dizia que, em algumas áreas da cidade, como a Praia de Gaibu, havia um toque de recolher durante a noite. A tensão sentida pelos moradores não é sem fundamento: em outubro, a cidade esteve mais uma vez entre as mais violentas do Grande Recife, com 23 tiroteios, de acordo com relatório mensal do Instituto Fogo Cruzado.

Pelo segundo mês consecutivo, o município aparece atrás apenas de Recife, que liderou a lista, com 54 tiroteios. Os meses de setembro e outubro foram de muita violência na região e este foi o período com mais tiroteios no Cabo de Santo Agostinho desde 2018, com 29 e 23 registros respectivamente. 

“Essa onda de violência vem transformando situações simples, como caminhar pelas vias, estudar, ir à escola, ter acesso à cultura ou ao lazer como motivos de grande preocupação”, explica Edna Jatobá, representante do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco.

Houve 127 mortos a tiros no Cabo de Santo Agostinho em 2021 e o município já acumula 163 tiroteios no ano – uma média mensal 14% superior a de todo o ano passado e o dobro de 2019. A média de mortes, no entanto, ficou similar a 2020: 12, respectivamente por mês.

Outubro em dados

O Instituto Fogo Cruzado mapeou 132 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Recife em outubro. O número é relativamente superior ao registrado no mesmo período de 2020, quando houve 122 tiroteios.

Ao todo, 92 pessoas morreram e 43 ficaram feridas entre as 135 baleadas. Um número muito alto, mas ainda menor que outubro de 2020, que terminou com 149 vítimas de arma de fogo, sendo 106 mortas e 43 feridas. Uma redução de 9% entre os baleados de um ano para o outro.

Entre as datas mais afetadas pela violência armada neste mês que passou, o dia 17, concentrou o maior número de tiroteios/disparos de arma de fogo, com 10 registros, superando a média diária de tiroteios, que foi de 4. O maior número de mortos foi dia 24, com 10 vítimas. O dia 27 concentrou o número mais elevado de feridos, com 5 atingidos.

Em outubro, dos 132 tiroteios ocorridos na Região Metropolitana do Estado, 66% deles (87 registros) resultaram em mortos; 30% (39 registros) tiveram feridos; e somente em 8% deles (10 registros) não houve vítimas.

Os locais da violência

Entre os municípios que fazem parte da Região Metropolitana do Recife, os cinco mais afetados foram:

  • Recife: 54 tiroteios, 34 mortos e 19 feridos
  • Cabo de Santo Agostinho: 23 tiroteios, 15 mortos e 10 feridos
  • Jaboatão dos Guararapes: 18 tiroteios, 20 mortos e 1 ferido
  • Olinda: 10 tiroteios, 6 mortos e 4 feridos
  • Paulista: 8 tiroteios e 5 mortos

Entre os bairros, os cinco mais afetados foram:

  • Comportas – Jaboatão dos Guararapes: 4 tiroteios e 5 mortos
  • Praia do Gaibu – Cabo de Santo Agostinho: 4 tiroteios, 3 mortos e 1 ferido
  • Dois Unidos – Recife: 4 tiroteios, 2 mortos e 2 feridos
  • Ponte dos Carvalhos – Cabo de Santo Agostinho: 3 tiroteios, 2 mortos e 2 feridos
  • Cohab – Recife: 3 tiroteios e 3 mortos

As vítimas da violência em outubro

  • Dos 92 mortos por arma de fogo na Região Metropolitana do Recife em outubro, 93% (86) eram homens e 7% (6) eram mulheres. Entre os 43 feridos, 91% (39) eram homens e 9% (4) eram mulheres.
  • Em outubro, houve 5 casos de homicídios múltiplos*, resultando em 10 mortos no total (oito homens e duas mulheres). Uma queda de 55% nos casos em comparação ao mesmo período do ano passado, quando foram 11 casos que resultaram em 25 mortos (22 homens e três mulheres).
  • 14 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa: 10 morreram (oito homens e duas mulheres) e quatro ficaram feridas (três homens e uma mulher). Houve queda de 44% no número de baleados em comparação a outubro de 2020, quando 25 pessoas foram atingidas, 23 morreram (20 homens e 3 mulheres) e duas ficaram feridas (todos homens).
  • Ao todo, 11 adolescentes e um idoso foram baleados no Grande Recife em outubro. Destes, nove adolescentes morreram. No mesmo mês de 2020, foram quatro adolescentes e três idosos baleados: destes, dois adolescentes morreram.
  • Quatro pessoas foram vítimas de balas perdidas**: todas sobreviveram. O número de vítimas foi 43% menor que o registrado em outubro de 2020, quando sete foram atingidas (uma morta e seis feridas).
  • Em outubro, um motorista de aplicativo foi baleado no Grande Recife, mas não sobreviveu. No mesmo período de 2020 não foram registrados motoristas baleados.
  • Um vendedor ambulante foi morto a tiros no Grande Recife. Em outubro de 2020 não houve vítimas de disparos de arma de fogo.
  • Em outubro, tiros dentro de presídio deixaram um ferido no Grande Recife. No mesmo período de 2020, também houve um baleado e morto.
  • Cinco pessoas foram mortas a tiros quando estavam dentro de bares. No mesmo período de 2020, houve 10 baleados (oito mortos e dois feridos).
  • Não houve agentes de segurança*** baleados no Grande Recife em outubro. No mesmo período de 2020 um agente foi baleado, mas não sobreviveu.
  • Um mototaxista foi morto a tiros no Grande Recife. Em outubro de 2020 não houve mototaxistas vítimas da violência armada.

Acumulado do ano

Entre janeiro e outubro de 2021, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 1.418 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Recife. Ao todo, 1.539 pessoas foram baleadas: 1.044 morreram e 495 ficaram feridas. Houve queda de 1% no número de tiroteios e disparos e de 20% no número de feridos. Porém aumentou 6% os mortos em comparação ao mesmo período de 2020, que concentrou 1.439 tiroteios/disparos com 1.604 baleados (986 mortos e 618 feridos).

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e mapeia informações sobre tiroteios, checadas em tempo real. Elas estão disponíveis no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

* Homicídios múltiplos: eventos onde há 2 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc (SSP de SP). 

** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

*** Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

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