Ao todo, duas crianças e 11 adolescentes foram baleados, segundo relatório mensal do Instituto Fogo Cruzado

A violência armada muda para sempre a vida de quem é atingido por ela. Em abril, crianças e adolescentes foram vítimas constantes dos tiros na Região Metropolitana do Recife. A morte da pequena Heloysa Gabrielle, de seis anos, já havia causado comoção em março: ela brincava no terraço quando foi atingida por um tiro no peito. Já em abril, duas crianças foram baleadas no Grande Recife, de acordo com o relatório mensal lançado hoje (4) pelo Instituto Fogo Cruzado. Felizmente, todas sobreviveram. Entre os adolescentes, 11 foram baleados: seis morreram.

O impacto da violência armada mexe com toda a estrutura familiar. Os pais sofrem quando os jovens são as vítimas. Os jovens sofrem quando as vítimas são as mães. E é especialmente chocante quando as crianças presenciam homicídios. Oito mulheres foram mortas neste mês que passou: a grávida Kariny Tavares Vicente da Silva, de 22 anos, foi morta a tiros quando estava na frente da filha de 3 anos no dia 13; outra mulher foi atingida na frente dos dois filhos, no dia 12.

Para Romero Silva,  parceiro do Fogo Cruzado em Pernambuco, a presença da violência na realidade de crianças e adolescentes abala o desenvolvimento deles como cidadãos. 

“A violência constante e a proximidade com a morte é parte do cotidiano de jovens nas grandes periferias urbanas, e isso repercute em como esses jovens se relacionam e apontam suas perspectivas de futuro”, afirma o psicólogo. A exposição de crianças em episódios violentos, como assassinatos dos próprios pais gera impactos diretos em sua formação “A primeira infância é a fase de desenvolvimento da personalidade de cada pessoa. Certamente teremos implicações psicológicas graves nessas crianças, expostas tão cedo a tamanha violência. É importante não tratar essas situações violentas como causalidades, mas fazer o enfrentamento com  políticas públicas de segurança, de forma séria e responsável por salvar vidas”, analisa Romero.

O problema visto em Pernambuco é, infelizmente, de alcance nacional. Um estudo produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que 1.300 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2021. A partir destes números, pesquisadores concluíram que o feminicídio deixou cerca de 2.300 órfãos no Brasil.

O mês em dados

Ao longo do mês de abril, houve 172 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Recife, segundo relatório mensal do Instituto Fogo Cruzado. Em comparação com o mesmo mês de 2021, que concentrou 152 registros, houve aumento de 13% nos tiroteios.

Ao todo, 202 pessoas foram baleadas em abril deste ano, quantidade superior à registrada em abril de 2021, quando foram 161 vítimas. Apesar da estabilidade no geral, o número de mortos em abril teve aumento de 15%: de 123 em abril de 2021, para 141 em abril deste ano. Já o número de feridos subiu 61%, indo de 38 para 61 vítimas.

Em comparação com março, que concentrou 155 tiroteios, 125 mortos e 42 feridos, abril apresentou aumento de 11% nos tiroteios e de 13% nos mortos, e de 45% no número de feridos.

As datas mais afetadas pela violência armada em abril foram o dia 10, com 12 tiroteios e 14 mortos, e os dias 11 e 14, com cinco feridos. O dia 10 de abril, inclusive, mostra que a violência armada alcança toda a Região Metropolitana do Recife: no mesmo dia, um adolescente de 17 anos foi morto em Olinda; um homem foi morto a tiros dentro de uma igreja evangélica no Cabo; um casal de 54 e 56 anos foi morto a tiros em Jaboatão; 2 homens foram mortos a tiros no Recife.

Dos 172 tiroteios registrados em abril no Grande Recife, 98% deles terminaram com vítimas (mortos e/ou feridos).

O mapa da violência

Entre os municípios que fazem parte da Região Metropolitana do Recife, os cinco mais afetados pela violência armada foram:

  • Recife: 64 tiroteios, 54 mortos e 23 feridos
  • Jaboatão dos Guararapes: 35 tiroteios, 31 mortos e 14 feridos
  • Cabo de Santo Agostinho: 23 tiroteios, 19 mortos e 3 feridos
  • Camaragibe: 15 tiroteios, 10 mortos e 6 feridos
  • Paulista: 9 tiroteios, 4 mortos e 7 feridos

Os cinco bairros mais afetados pela violência armada em abril foram:

  • Ponte dos Carvalhos (Cabo de Santo Agostinho): 9 tiroteios, 7 mortos e 2 feridos
  • Cajueiro Seco (Jaboatão dos Guararapes): 7 tiroteios, 3 mortos e 3 feridos
  • Cohab (Recife): 5 tiroteios, 6 mortos e 2 feridos
  • Afogados (Recife): 5 tiroteios, 4 mortos e 1 ferido
  • Barra da Jangada (Jaboatão dos Guararapes): 4 tiroteios, 6 mortos e 3 feridos

Perfil da violência armada

  • Entre os 141 mortos no Grande Recife em abril, 94% (133) eram homens e 6% (8) eram mulheres. Entre os 61 feridos, 95% (57) eram homens e 7% (4) eram mulheres.
  • 10 casos de homicídios múltiplos ocorreram no Grande Recife em abril, deixando 22 mortos no total: 18 homens e quatro mulheres. Em abril de 2021 foram oito casos que deixaram 16 mortos: 13 homens e três mulheres.
  • 31 pessoas foram baleadas quando estavam em casa: 25 morreram (21 homens e quatro mulheres) e seis ficaram feridas (cinco homens e uma mulher). Em abril de 2021 foram 30 vítimas dentro de casa: 24 mortos (21 homens e três mulheres) e seis feridos (todos homens).
  • Houve seis casos de roubos ou tentativas de roubo que terminaram em tiros no Grande Recife. Ao todo, oito pessoas foram baleadas nestes casos: três mortos e cinco feridos. Em abril de 2021 foram 15 casos de roubos e tentativas que deixaram 13 baleados no total (sete mortos e seis feridos).
  • Três idosos (com idade a partir de 60 anos) foram baleados no Grande Recife em abril: dois deles morreram. Em abril de 2021 foram três baleados: todos morreram.
  • Sete pessoas foram vítimas de balas perdidas: todas sobreviveram. Em abril de 2021 não houve vítimas.
  • Três motoristas de aplicativo foram mortos a tiros. Em abril de 2021 foram dois baleados: um sobreviveu.
  • Um vendedor ambulante foi morto a tiros no Grande Recife em abril deste ano. No mesmo período de 2021 dois vendedores ambulantes foram mortos a tiros.
  • Não houve baleados dentro de presídios em abril deste ano. Em abril de 2021 foram três baleados no Grande Recife quando estavam dentro de presídios: todos sobreviveram.
  • Uma pessoa foi morta a tiros quando estava dentro de um bar no Grande Recife em abril. Em abril de 2021 foram dois mortos nestes espaços.
  • Não houve agentes de segurança baleados no Grande Recife em abril. No mesmo período de 2021, um agente foi morto a tiros.

Acumulado do ano

Entre janeiro e abril de 2022, houve 647 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Recife, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Ao todo, 745 pessoas foram baleadas: 502 morreram e 243 ficaram feridas. Em comparação com o mesmo período de 2021, que concentrou 580 tiroteios que deixaram 621 baleados (422 mortos e 199 feridos). Entre janeiro e abril deste ano houve aumento de 12% nos tiroteios, de 19% nos mortos e de 22% nos feridos.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

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 O Unicef considera crianças com idade inferior a 12 anos. 

O Unicef considera adolescentes com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos.

Homicídios múltiplos: eventos onde há 2 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc (SSP de SP). 

O Estatuto do Idoso considera idosos com idade igual ou superior a 60 anos.

“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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