Houve mais de 8 mil tiroteios no Grande Rio desde 2020, segundo Instituto Fogo Cruzado

Ficar em casa, usar máscaras e evitar aglomerações foram algumas das medidas impostas por autoridades sanitárias ao redor do mundo para conter os avanços da covid-19. Mas no Rio de Janeiro, a prevenção do vírus dividiu as manchetes dos jornais com a violência armada, especialmente em casos de interrupção de entrega de cestas básicas. A ADPF 635 – também chamada de ADPF das Favelas -, decretada em 5 de junho de 2020, foi uma medida do Supremo Tribunal Federal  para reduzir a letalidade policial, restringindo operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro até o fim da pandemia.

A Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia da Covid-19 no dia 11 de março. E desde então, movimentos sociais, igrejas e voluntários do Rio de Janeiro passaram a buscar formas de ajudar a população. Mas a violência armada atingiu também as ações humanitárias. Nestes dois anos de pandemia, houve oito casos de interrupções de distribuição de cestas básicas por conta de tiroteios em operações policiais na Região Metropolitana do Rio. Ao todo, sete voluntários foram baleados. Cinco deles não resistiram e morreram.

Desde que a pandemia começou, houve 8.865 tiroteios na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. 2.410 (27%) destes tiroteios ocorreram durante ações/operações policiais. Nos dois anos anteriores à pandemia (11/03/2018 a 10/03/2020), houve 16.372 tiroteios, sendo 4.112 deles (25%) em ações/operações policiais. Tais números mostram que não somente os tiroteios caíram 46% durante a pandemia, mas os tiroteios em ações policiais também reduziram 41%. Apesar da queda, a porcentagem de tiroteios em ações policiais (27% e 25%, respectivamente) se manteve praticamente estável. Esse resultado poderia ter sido ainda mais positivo se a ADPF 635 tivesse sido respeitada. Vidas perdidas durante operações, como a de Kathlen Romeu, grávida de 14 semanas, Thiago Conceição, de 16 anos, morto no Complexo da Penha, ou  Fabrício Alves de Souza, de 26 anos, atingido por um tiro no Complexo da Pedreira, poderiam ter sido poupadas se a medida imposta pelo STF não tivesse sido sistematicamente afrontada pelo governo do Rio. 

Para Maria Isabel Couto, diretora de programas do Instituto Fogo Cruzado, segue sendo urgente a criação de um plano de atuação das polícias em operações. No início de fevereiro, dentro do escopo da ADPF 635, o Supremo Tribunal Federal (STF) deu um prazo de 90 dias para que o governo do Rio apresentasse um plano de redução da letalidade policial. “A criação de um protocolo de atuação mais seguro é fundamental não só para os moradores de favelas, que sempre estão na linha do tiro, como também para os próprios policiais. Segurança pública é feita também com inteligência”, afirma Maria Isabel. 

Nos últimos dois anos, 3.723 pessoas foram baleadas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, destas 1.910 morreram e outras 1.813 ficaram feridas. Houve uma queda de 35% entre os mortos e de 33% entre os feridos comparado ao período pré-pandemia, quando 5.615 pessoas foram baleadas, sendo 2.928 mortas e 2.687 feridas. O número de baleados durante as operações policiais na pandemia também caíram, indo de 3.477 (1.600 mortos e 1.877 feridos) para 2.390 (1.077 mortos e 1.313 feridos).

Foi durante a pandemia que aconteceu a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. No dia 6 de maio de 2021, uma operação no Jacarezinho deixou 28 mortos, entre eles, um policial civil. Ao todo, 105 chacinas causaram 433 mortes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro desde que foi decretada a pandemia. 78 dessas chacinas foram em ações/operações, deixando 334 mortos. Os números mostram queda de 27% nos casos em comparação com os dois anos anteriores à pandemia, quando houve 143 chacinas com 546 mortos no total. Em 109 delas em ações/operações, resultando em 419 mortes.

Saúde na linha do tiro

2.465  unidades de saúde como hospitais, clínicas da família e UPAs foram afetadas por tiroteios nesses dois anos de pandemia da Covid-19. Desde o começo de março de 2020, houve 2.945 tiroteios no entorno de unidades de saúde da Região Metropolitana do Rio. 

Referência para o tratamento de pacientes com covid, o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, na Zona Norte, teve queda de energia após um tiro atingir a linha que abastece a unidade, em maio de 2020. Na UPA da Rocinha, na Zona Sul do Rio, computadores da unidade foram atingidos por tiros durante ação policial em junho de 2020.

Nos dois anos anteriores à pandemia, houve 5.326 tiroteios no entorno de unidades de saúde. Ao todo 3.071 unidades foram afetadas.

Tiros dentro de casa

A recomendação dos profissionais de saúde era para as pessoas evitarem a circulação e a casa tornou-se o local de proteção contra o vírus. No entanto, para muitas pessoas escapar do vírus não significou ficar longe da violência armada. 92 pessoas foram baleadas na Região Metropolitana do Rio quando estavam dentro de casa ao longo da pandemia – 57 morreram e 35 ficaram feridas. Em média, três pessoas foram baleadas dentro de casa por mês. No período pré-pandemia, 164 pessoas foram vítimas de balas perdidas, sendo 122 mortas e 42 feridas.

Crianças e adolescentes vítimas de tiros

80 adolescentes entre 12 e 17 anos foram baleados no Grande Rio nos últimos dois anos. 29 deles morreram e outros 51 ficaram feridos. Entre as vítimas está João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, morto durante operação da Polícia Civil e da Polícia Federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, em maio de 2020. Nos dois anos antes da pandemia, 176 adolescentes foram baleados – sendo 95 mortos e 81 feridos.

Outras 31 crianças (menores de 12 anos) foram baleadas durante a pandemia: 12 morreram e 19 ficaram feridas. No período pré-pandemia foram 53 vítimas: 10 mortas e 43 feridas.

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