Vítimas mais jovens tinham 3 anos de idade

Por: Mayara Mangifeste

O ano de 2020 não foi para amadores. Muita gente disse isso em algum momento durante o quase interminável ano. Neste tempo, 22 crianças* foram baleadas na Região Metropolitana do Rio – 8 delas não resistiram e morreram. Mesmo alarmante, o número de crianças baleadas de 2020 foi 8% menor que o registrado em 2019, quando 24 crianças foram baleadas. Já no número de mortos, houve aumento: foram 7 em 2019, contra 8 em 2020.

“Ninguém espera que isso vá acontecer com um filho”

Poderia ser mais um dia normal na vida de Adrelany Pacheco de Lima, de 3 anos de idade. Mas no dia 2 de abril de 2020, quando ela voltava para casa com a mãe, Adrelany foi atingida por uma bala perdida**. As duas estavam na Rua Carvalho de Araújo, no bairro Raul Veiga, em São Gonçalo, quando ficaram no meio de um tiroteio durante uma operação policial. A menina foi socorrida e sobreviveu, mas com apenas 3 anos de idade, Adrelany entrou em um “ranking” que nunca deveria ter entrado: ela é uma das vítimas mais jovens baleadas em 2020. 

Uma menina, com 3 anos de idade, atingida por bala perdida enquanto brincava no portão de casa. Parece a mesma história, mas não é. Era noite de 14 de setembro e a criança brincava na porta de casa, em Santa Cruz da Serra, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A menina, que não teve o nome revelado, foi atingida no tórax e levada para o Hospital Adão Pereira Nunes, também em Caxias, onde foi socorrida e sobreviveu.

“Ela teve duas fraturas na coluna e tem um pouquinho de sangue no pulmão que devem drenar, mas ela está estável e fora de risco (…) Na hora que ela levou um tiro foi uma correria, eu ainda tentei proteger a minha filha, abracei ela, mas ela se feriu. Ninguém espera que isso vá acontecer com um filho. Mãe nenhuma espera”, contou a mãe da menina, que também não quis se identificar. 

João Pedro e mais 39 adolescentes foram baleados em 2020

João Pedro Mattos Pinto tinha 14 anos e cumpria a quarentena para se proteger do coronavírus quando foi morto, dentro de casa. Ele brincava com os primos quando começou uma operação conjunta das polícias civil e federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. 

João Pedro (Foto: Arquivo pessoal)
João Pedro (Foto: Arquivo pessoal)

Após ser baleado, João foi levado pelos policiais. A família ficou sem notícias de João até o dia seguinte, quando foi informada a morte.

“Ele nem estava saindo de casa por conta dessa pandemia. Aí, o primo passou na casa dele e foi lá buscá-lo para brincar. Eles estavam no quintal da casa. Ele se assustou com o policial, e o policial atirou na barriga dele. Até agora não sabemos de nada. Se ele morreu no local, a caminho do hospital”, disse Georgia Matos de Assis, 41, tia de João Pedro, à época, ao UOL.

Imagens mostram a parede de um dos cômodos da casa atingida por uma série de disparos. Em outro cômodo, o sangue no chão. A casa de João foi atingida por 72 tiros.

Com João Pedro, o Grande Rio teve 40 adolescentes*** baleados em 2020. 18 deles morreram. Comparado com o ano anterior, quando 89 adolescentes estiveram na linha de tiro, o ano de 2020 teve uma queda de 55%. Já em relação aos adolescentes que não resistiram, houve uma queda ainda mais significativa: 66% – já que o ano de 2019 encerrou com 53 adolescentes mortos a tiros.

Sem operações na pandemia

A morte de João Pedro foi um fator importante para que o STF determinasse a suspensão de operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia. O ministro Edson Fachin disse que “muito embora os atos narrados devam ser investigados cabalmente, nada justifica que uma criança de 14 anos de idade seja alvejada mais de 70 vezes. O fato é indicativo, por si só, de que, mantido o atual quadro normativo, nada será feito para diminuir a letalidade policial, um estado de coisas que em nada respeita a Constituição”. O ministro se refere aos 70 tiros que foram contados na casa.

A decisão de suspender as operações durante a pandemia foi tomada depois da morte de João Pedro, com base em uma ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental), feita por entidades como Educafro, Justiça Global, Redes da Maré, Conectas Direitos Humanos e muitas outras, com as quais o Fogo Cruzado se juntou.

* Com idade inferior a 12 anos (Unicef)

** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

*** Com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos (Unicef)

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