Por: Dália Celeste

Ser criança é ter a pureza nos pensamentos, a alegria e os mais lindos sorrisos. É o momento de sonhar, se preocupar apenas com os joelhos ralados. Recebendo muito amor, carinho e afeto. As famílias sonham com o futuro de seus filhos, em vê-los crescer, brincar, realizar seus objetivos na vida, ter uma infância e adolescência com vivacidade. Porém, 2020 foi um ano onde muitos sonhos foram roubados pela violência armada. Crianças e adolescentes tiveram suas vidas e futuros ceifados de forma triste e dolorosa.

O ano de 2020, marcado pela pandemia do novo coronavírus e o isolamento para conter o avanço do contágio, não foi o suficiente para reduzir a violência armada que afeta nossas vidas e não poupa sequer as crianças e adolescentes. Em 2020, 11 crianças* e 93 adolescentes** foram baleados na Região Metropolitana do Recife – destes, 2 crianças e 57 adolescentes morreram. Comparado ao mesmo período de 2019, o número de crianças baleadas (10) aumentou 10% e o de adolescentes baleados (109) diminuiu 15%.

No Grande Recife, assim como em outras regiões, crianças e adolescentes são vítimas da violência armada até mesmo quando não são o alvo. Dentre as crianças e adolescentes baleados, 64% das crianças (7) e 8% dos adolescentes (7) foram vítimas de bala perdida.

Ainda em janeiro foi vitimada a 1° das 7 crianças vítimas de bala perdida no Grande Recife ao longo de 2020. Uma menina que não teve seu nome revelado foi morta a tiros no dia 26 daquele mês, após ser atingida por uma bala perdida no bairro da Charnequinha, no Cabo de Santo Agostinho. Das 7 crianças vítimas, 2 morreram e 5 ficaram feridas. Entre as feridas, está uma menina de 7 anos, vítima de bala perdida no dia 19 de fevereiro após sair de um culto no bairro do barro, em Recife. A menina estava com a mãe em frente a uma igreja, quando quatro homens em um carro preto chegaram atirando. Uma bala perdida atingiu a perna da criança, que foi socorrida por familiares. Nessa violência o alvo dos atiradores foi morto com, pelo menos, seis tiros.

Thifany Vitoria, presente

Um dos casos que marcou o ano de 2020, foi o da pequena Thifany Vitoria do Nascimento Gomes, nascida em 05/02/2012, com apenas 8 anos, foi morta com um tiro na cabeça, vítima de bala perdida no dia 17 de agosto, dentro de um estabelecimento comercial na rua sucupira, Distrito de São Lourenço, na cidade de Goiana. Um homem encapuzado entrou em um estabelecimento comercial e começou a efetuar disparos de arma de fogo contra outro alvo, e um dos disparos veio a atingir a criança Thifany Vitoria.

Assim como em outros estados, a violência armada assusta a população no Grande Recife, e mesmo com Estatuto da Criança e do Adolescente que garante a efetivação dos direitos referentes à vida e proteção, não foi o suficiente para garantir a segurança das crianças e adolescentes em 2020. No dia 9 de agosto, uma criança de 11 anos foi ferida durante uma chacina que deixou 5 mortos e 12 feridos na Praça Rurópolis, em Ipojuca. Homens que ocupavam dois carros efetuaram vários disparos de arma de fogo em direção das vítimas que estavam no local. 

As vítimas mais novas de bala perdida no ano de 2020, foi a pequena Ana Gabriela de Lima, de 2 anos, ferida nas costas por bala perdida, no dia 10 de maio na Rua Jardim Tocandira, em Santa Rita, Igarassu. E uma criança de 3 anos que foi atingida por um tiro quando passava com sua mãe na rua 22, na Charneca, no Cabo de Santo Agostinho. Homens atiraram contra um alvo que estava em um bar local, atingindo a criança no braço.

Bala perdida com alvo nos adolescentes

A violência armada contra os adolescentes vítimas de bala perdida foi um fenômeno grave em 2020. Na tarde do dia 12 de fevereiro um ataque a um carro-forte deixou um adolescente ferido por bala perdida durante uma tentativa de assalto. O carro-forte estava em frente à casa lotérica na Rua Leandro Barreto, em Jardim São Paulo, Recife. Quando homens tentaram efetuar um assalto, houve troca de tiros com um segurança do local. E segundo moradores da área, mais de 20 disparos foram ouvidos, esses que também atingiram o adolescente que não teve seu nome divulgado.

Mesmo nos momentos que eram para ser de diversão e alegria para os adolescentes, alguns deles não tiveram esse divertimento garantido. No dia 22 de fevereiro, um adolescente de 13 anos foi atingido por bala perdida durante uma briga em um desfile de bloco de carnaval que aconteceu no bairro da Cohab, no Cabo de Santo Agostinho. Além dele, outro adolescente de 13 anos, foi ferido por bala perdida no dia 15 de setembro enquanto brincava na praça do Morro da Conceição, no Recife. Testemunhas contaram que homens armados passaram atirando no local, um dos disparos feriu uma das pernas do estudante que foi levado para a UPA de Nova Descoberta e, depois, transferido para o Hospital da Restauração. 

Dos 93 adolescentes baleados em 2020, 7 foram vítimas de bala perdida no grande Recife: destes, 1 morreu e 6 ficaram feridos. Em 2019 o número de crianças e adolescentes vítimas foi menor: 5 crianças e 1 adolescente foram vítimas de bala perdida na RMR – destes, 1 criança morreu. Infância, adolescência e sonhos se perdem na bala perdida, fruto da violência armada no ano de 2020, no Grande Recife.

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* Com idade inferior a 12 anos
** Com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos

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