Atualizado em 23/11/2021

Ao menos nove civis foram mortos, sendo oito corpos encontrados por moradores em um manguezal após operação da Polícia Militar no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, neste domingo (21). “As mães estão entrando dentro do mangue. Com o mangue acima do joelho para poder tentar puxar os corpos”, relatou um dos moradores da região. No final de semana, um PM morreu e uma idosa ficou ferida em operação da Polícia Militar na área.

Somente em São Gonçalo, o Instituto Fogo Cruzado mapeou, desde julho de 2016, 48 chacinas, com 168 mortos no total. 37 delas, ocorridas durante ações e operações policiais, que resultaram em 129 mortos. No Complexo do Salgueiro, houve 12 chacinas em pouco mais de cinco anos: metade delas (6), somente este ano.

“O que aconteceu nesse final de semana no Complexo do Salgueiro é uma tragédia, mas não uma exceção”, pontua Maria Isabel Couto, diretora de programas do Instituto Fogo Cruzado. Só este ano, o Fogo Cruzado registrou cinco ações/operações policiais naquela região que resultaram em 3 ou mais mortos (22 no total). “Estamos falando de tragédias que se repetem a cada dois meses”, completa.

Em 2021, houve 59 chacinas* na Região Metropolitana do Rio que terminaram com 246 mortos no total, segundo mapeamento feito pelo Instituto Fogo Cruzado. 3 em cada 4 chacinas (44) ocorreram em ações e operações policiais, resultando em 188 mortos ao todo.

“Esses números expressam a urgência de que seja retomado o julgamento dos embargos da ADPF das Favelas. Na medida que o fim da pandemia se aproxima, trazendo esperança para a população, fica muito claro que não basta restringir a atuação policial”, comenta Maria Isabel Couto sobre a necessidade em retomar o julgamento da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que vem sendo sistematicamente desrespeitada pelo estado do Rio de Janeiro. 

Desde que a ADPF 635 – medida que restringe operações policiais não urgentes e não planejadas em favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia – entrou em vigor, em 5 de junho de 2020, houve 59 chacinas em ações e operações policiais na Região Metropolitana do Rio, resultando em 250 mortos no total. Quatro delas estão entre as 10 operações policiais com o maior registro de mortos, desde que o Fogo Cruzado começou a atuar em 2016, incluindo a chacina do Jacarezinho, que terminou com 27 civis e um policial mortos, em 6 de maio deste ano.

“É imprescindível que os ministros do STF se posicionem exigindo a mudança nos padrões de atuação das polícias, adotando a vida como prioridade máxima. Isso só vai acontecer se houver de fato a formulação de uma política de segurança condizente com esses parâmetros e se a mesma for aberta ao controle da sociedade civil. É nessa direção que o STF precisa se posicionar”, conclui Maria Isabel Couto.

Idosa baleada

Na mesma ação ocorrida no último domingo, a idosa Carmelita Francisca de Oliveira, de 71 anos, foi baleada. Com ela, já são 25 idosos baleados na Região Metropolitana do Rio em 2021, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado: nove deles morreram.

“Dizem que o caveirão quando passou, falou: ‘valeu, muito obrigado‘”, após ação que contou com o apoio do BOPE.

Policial Militar baleado

Operação policial aconteceu um dia após o policial militar Leandro Rumbelsperger da Silva ser morto a tiros durante patrulhamento na região, no dia 20. Leandro foi o 166º agente de segurança baleado na Região Metropolitana do Rio este ano, segundo o Instituto Fogo Cruzado: 74 deles morreram. Entre os 166 agentes baleados, 130 eram policiais militares: 52 morreram.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e mapeia informações sobre tiroteios, checadas em tempo real. Elas ficam disponíveis no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

* Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação: chacinas – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc (SSP de SP).

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