Mesmo com isolamento social, violência armada cresceu 

Por: Paula Napolião

Era setembro, quando uma briga entre um major da polícia militar e um agente penitenciário em um bar em Boa Viagem terminou com 3 mortos e 4 feridos. O major José Dinamérico Barbosa da Silva Filho (49 anos) e o policial penal Ricardo de Queiroz Costa (40 anos), envolvidos na discussão, trocaram tiros e ficaram feridos. Já dentre as demais vítimas estavam no bar e foram atingidas por balas perdidas; 1 morreu no local e outras 2 chegaram a ser socorridas, mas não resistiram. Ekel de Castro Pires (62 anos), Cláudio Bezerra Bandeira de Melo Sobrinho (57 anos) e George Mauro de Carvalho Vasconcelos (70 anos) foram as vítimas fatais. Eva Valéria do Nascimento (55 anos) e Eduardo Bernardo Gomes Insfran (55 anos) ficaram feridos e foram socorridos ao hospital. O PM e o policial penal viraram réus e respondem por três homicídios qualificados e três tentativas de homicídio. O caso chocou Recife.

Em 2020, 57 pessoas foram vítimas de balas perdidas na região metropolitana – 8 delas morreram. Isso representa um aumento de 90% em relação à 2019, quando houve 30 vítimas – 5 delas morreram.

As vítimas de bala perdida se concentraram em Recife (24), Cabo de Santo Agostinho (6), Olinda (5), Paulista (5) e Jaboatão dos Guararapes (5). Em relação ao local do ocorrido, 8 pessoas foram atingidas por balas perdidas quando estavam em bares – um aumento de 300% em relação a 2019 (2).

Chama atenção ainda, o fato de que dentre as vítimas de balas perdidas, 7 eram crianças e 7 adolescentes. No carnaval, uma criança de 6 anos e dois homens foram baleados durante o bloco Foice e Folia, em Vila Reinaldo, São Lourenço da Mata. As vítimas, que não foram identificadas, foram socorridas ao hospital. Ainda durante a festa, um homem foi morto a tiros e três pessoas foram baleadas – dentre elas, um adolescente – em um desfile de um bloco de carnaval, no bairro da Cohab, no Cabo de Santo Agostinho. O estado de saúde das vítimas, que também não foram identificadas, não foi divulgado. 

Perigo em casa

Além de fazerem vítimas nas ruas, as balas perdidas também invadiram casas no Grande Recife. O motorista de transporte escolar Sidclei Mendonça dos Santos, de 33 anos, estava em casa no Engenho Sebastião, no Cabo de Santo Agostinho, quando teve sua residência invadida e foi surpreendido por tiros. Sidclei morreu na hora e um servente de pedreiro que estava no local, identificado apenas como Marcone, foi atingido por uma bala perdida. Ele foi socorrido ao hospital. 

O caso de Sidclei somou-se a uma triste estatística que cresceu de maneira significativa em 2020: a violência armada dentro de casa. 212 pessoas (172 mortos e 40 feridos) foram baleadas dentro de casa ano passado – um aumento de 47% em relação a 2019, quando 144 foram baleadas – 119 delas morreram. Mesmo antes de o ano terminar, o Grande Recife já registrava a marca de mais de 200 baleados em casa. Dentre os 212 atingidos em casa, 5 foram vítimas de balas perdidas.  

Os baleados em tiroteios dentro de casa se concentraram principalmente em 3 municípios: Recife (57), Jaboatão dos Guararapes (41) e Cabo de Santo Agostinho (31). Em 2019, Recife (37) e Jaboatão dos Guararapes (34) também estavam em primeiro e segundo no ranking, respectivamente. Já Cabo de Santo Agostinho teve apenas 8 registros de baleados em 2019 – um aumento de mais de o triplo (288%) nos baleados por tiros em residências em comparação com 2020.

Violência aumentou durante pandemia

O ano de 2020 foi marcado por uma série de mudanças na rotina da população devido ao isolamento social adotado para conter o avanço do novo coronavírus. Isso poderia ocasionar a diminuição da violência armada, o que, no entanto, não ocorreu. Em comparação a 2019, a incidência de tiroteios/disparos de arma de fogo aumentou 33% no Grande Recife em 2020. O número de baleados seguiu a mesma tendência: em 2019 foram 1.389 baleados e em 2020, 1.912 – uma alta de 38%.

A média de tiros por dia se manteve estável em ambos os anos: foram, em média, 4 tiroteios/disparos de arma de fogo por dia em 2019 e 5 em 2020. Já o número de registros sem vítimas diminuiu: em 2019, em 8% das notificações do Fogo Cruzado não havia vítimas. Já em 2020, os tiros foram mais certeiros: essa porcentagem caiu para 5%. Outro dado bastante expressivo é que os meses com maior incidência de violência armada foram justamente aqueles nos quais a quarentena ainda estava em sua fase mais restritiva: maio foi o mês com mais tiros (175) e feridos (82), e julho o mês com mais mortos (115).

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