Por: Apollo Arantes e Katarina Scervino*

Toda criança já ouviu essa pergunta pelo menos uma vez. Ela estimula as ideias, provoca a  imaginação e permite pensar no amanhã. Mas infelizmente, não são todas as crianças que podem sonhar com uma vida sem intercorrências. Muitas têm histórias drasticamente atravessadas pela violência armada que deixa marcas para sempre – quando não as interrompe. E isso pode acabar com as inúmeras possibilidades de futuro delas.

Só entre janeiro e junho deste ano, quatro crianças foram baleadas no Grande Recife. Não, não é aceitável pensar que, numericamente, é um número baixo. É preciso perceber que são pessoas em formação que mal conheceram o mundo e que lhes foram tiradas as inúmeras possibilidades de vivê-lo. Crianças que tiveram seus direitos fundamentais como saúde, segurança e integridade violados. Estamos falando de famílias e amigos que perderam suas alegrias e amores para a violência armada na RM do Recife. 

Mas de quais crianças estamos falando? É fácil perceber que as mais pobres quando não são atingidas diretamente pela violência armada vivem um cotidiano de medo, insegurança, falta de amparo e morte.  Foi o que aconteceu com estas que foram baleadas mesmo na presença de seus responsáveis.

Em 26 de junho, Laura Emanuele, de 4 anos, foi atingida por tiros na comunidade Roda de Fogo, nos Torrões, em Recife, quando andava de bicicleta com o pai, Wilson Ivo da Silva, de 30 anos, que foi alvejado e morreu na hora. Laura Emanuele ficou em estado grave no hospital e a irmã, que também brincava com eles, nada sofreu fisicamente. Psicologicamente, fica o trauma. 

Em 7 de maio, uma criança de 4 anos estava com a família em um bingo no Alto do Sol Nascente, em Olinda, quando foi atingida de raspão por um tiro. Na mesma ocasião, uma mulher também ficou ferida e um homem foi morto a tiros.

No dia 6 de abril, outra criança de 4 anos foi baleada no bairro de Caetés, em Abreu e Lima. Os disparos mataram um homem e deixaram outras 2 pessoas feridas. 

Em 4 de janeiro, uma menina de 11 anos foi a primeira atingida por tiros de 2021, no Grande Recife. Ela voltava da casa do avô com o pai em uma moto, na zona rural de São Lourenço da Mata, quando aconteceu um assalto e as balas acertaram os dois de raspão.

Estes e outros casos apontam que não há políticas públicas eficientes na área da segurança que impeçam estes episódios violentos e isso coloca a vida das crianças brasileiras em vulnerabilidade. Elas deveriam garantir que toda criança tivesse direito à proteção, à vida e à saúde, como mostra o Art. 7º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

O décimo oitavo artigo do estatuto afirma ser “dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”. Quando falhamos no acolhimento de nossas crianças, podemos comprometer o futuro de uma sociedade inteira.

* Apollo Arantes e Katarina Scervino são pais e analistas do Instituto Fogo Cruzado

** Este artigo faz parte da série de conteúdos sobre a situação da violência armada na Região Metropolitana do Recife em 2021.1. Acesse o relatório completo em https://bit.ly/violenciaPE-21

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