Os dados do Relatório Mensal do Fogo Cruzado trazem uma boa notícia para os moradores do Grande Rio: este foi o mês de janeiro com o menor número de tiroteios na Região Metropolitana do Rio desde 2017, início da série histórica. Dos fogos do Réveillon até o dia 31, houve 227 tiroteios. Um outro dado pode ajudar a explicar o contexto de queda: além de ter tido menos disparos de maneira geral, este também foi o mês de janeiro com o menor número de tiroteios durante ações e operações policiais (72).

A notícia vem em boa hora, mas não quer dizer que a violência armada deu trégua. Os tiroteios em janeiro deixaram 121 baleados, o que significa que, em média, 4 pessoas foram baleadas por dia no Grande Rio. Na Baixada Fluminense, o clima anda especialmente tenso: os municípios locais concentraram 34% dos tiroteios de toda a Região Metropolitana, e quase metade de todos os mortos (41%) foram na Baixada. Logo na primeira semana do ano, Kevin Lucas dos Santos, de 6 anos, morreu com um tiro durante uma ação policial em Queimados – outra criança e uma adolescente também foram baleadas. Uma semana depois, na Favela Beira-Mar, em Duque de Caxias, uma operação policial deixou três mortos.

Dos cinco bairros da Região Metropolitana mais afetados pela violência armada em janeiro de 2022, três são da Baixada Fluminense. O líder do ranking é Olavo Bilac, em Duque de Caxias, com 12 tiroteios. A lista inclui ainda o bairro Vila Centenário (6), também em Caxias, onde moradores fizeram um protesto contra os constantes tiroteios e abusos policiais, e o bairro Gláucia, em Belford Roxo.

Na capital fluminense, janeiro ficou marcado pelo início do Cidade Integrada, ação de intervenção nas favelas criada pelo governo do estado. O plano de ação, que prevê obras estruturais de responsabilidade da prefeitura nas localidades do Jacarezinho e da Muzema, não começou com tratores, mas blindados da polícia, numa ocupação com mais de 1 mil agentes de segurança no Jacarezinho. Os moradores ficaram com medo, e não demorou para que denúncias de invasões, torturas e ameaças começassem a circular.

A ação, iniciada sem o conhecimento da população ou da imprensa, foi implantada no dia 19 de janeiro em áreas que não estão nem entre os 40 bairros com mais tiroteios no Grande Rio. Na capital, Brás de Pina (12), Cascadura (6), Maré (5), Tijuca (5) e Cordovil (4), por exemplo, foram os locais com mais tiroteios no mês.

As cenas da entrada dos policiais no Jacarezinho e na Muzema fizeram a população fluminense lembrar a instalação das UPPs, projeto de segurança pública da década anterior, que naufragou. Neste mês, houve 17 tiroteios em áreas onde ainda há UPPs, 5 deles durante ações e operações policiais.

Em janeiro deste ano, houve uma redução de 44% no número de tiroteios durante ações e operações policiais na Região Metropolitana, em relação a janeiro do ano passado. Porém, se há tiros, há vítimas: o número de pessoas atingidas por balas perdidas durante ações e operações policiais mais que dobrou – foram 3 em janeiro de 2021, e 8 em janeiro de 2022.

Os números seriam menores se as polícias do Rio de Janeiro cumprissem à risca o que determina a ADPF 365, a ADPF das Favelas, que só permite operações em casos de excepcionalidade durante a pandemia . Também teríamos índices melhores se houvesse um plano de segurança estadual, que previsse, por exemplo, investimento em inteligência e investigação, não apenas em operações policiais descoordenadas.

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