Por Cecília Olliveira* - Publicado originalmente no Fonte Segura, em 27/01/2022

É preciso ir direto ao ponto: o número de mortes por armas de fogo está aumentando ano após ano na Região Metropolitana do Recife. Nem mesmo a pandemia, que esvaziou as ruas, foi capaz de conter esse crescimento. Aliás, a violência armada no Grande Recife tem um perfil bem particular: os crimes são cometidos fora e dentro de casa. É difícil escapar. No Relatório Anual do Instituto Fogo Cruzado de 2021, impressiona a quantidade de casos de pessoas baleadas nas próprias residências: foram 192 mortos e 55 feridos, 17% a mais do que em 2020, primeiro ano da pandemia, quando ficar em casa, ironicamente, era a estratégia para ficar mais seguro.

E os tiros disparados no Grande Recife têm alvo certo. Os casos de balas perdidas são raros se comparados aos baleados em crimes com vítimas diretas, como assaltos e tentativas de assassinato. Para se ter ideia, 28 pessoas foram atingidas por balas perdidas em 2021; por roubos/tentativas e por homicídios/tentativas, este número é assustador: 1.760 baleados. É por isso que apesar de o número de tiroteios ter se mantido estável entre 2020 e 2021 (cresceu somente 1%), o número de mortos aumentou (7%).

É importante perceber que no município de Paulista os disparos de armas de fogo vêm aumentando desde 2019. Paulista integrou, até abril de 2021, o projeto ‘Em Frente, Brasil’, da Força Nacional – programa tocado pelo Ministério da Justiça na cidade previa um reforço federal na segurança pública. Nossos dados mostram que não parece ter havido qualquer legado. O número de tiroteios durante ações/operações policiais subiu de 2, em 2020, para 13, em 2021.

O Cabo de Santo Agostinho, que ocupa a posição de segundo município com mais homicídios no Brasil, também sofreu com a violência armada, com direito a avisos de toque de recolher comandado por grupos armados. É no município que fica o bairro com o maior número de tiroteios em toda a Região Metropolitana do Recife. O distrito de Ponte dos Carvalhos foi o local com o maior número de baleados (47) em 2021.

Enquanto o Grande Recife alcança índices de violência armada maiores até do que os do período antes da pandemia, o poder estadual não leva o contexto com a seriedade necessária. E se o analisa, não se movimenta. Enquanto isso, lá em Brasília, o governo federal parece ter como política pública justamente o aumento da violência. Há aumento na circulação de armas, mas os mecanismos de fiscalização não acompanham esse movimento. O Recife é a prova de que, sem controle sobre as armas, não há limites para o crime. Até dentro do presídio ocorreram tiroteios – foram 4 no complexo prisional do Curado, que deixaram 4 mortos e outros 4 feridos. Como essas armas chegam lá? Pelas mãos de quem, que contam com quais olhos fechados?

Não há planejamento sério de combate à violência em um país onde policiais roubam armas da própria instituição e as revendem para o tráfico de drogas. Não é um filme de máfia. Aconteceu em Pernambuco. No ano passado, a polícia do estado descobriu uma verdadeira ‘Black Friday de armas‘: policiais desviavam armas, munições e acessórios, amparados pela falta de fiscalização. Pelo menos 326 armas de fogo foram desviadas, e depois vendidas por até R$ 6,5 mil. As submetralhadoras rendiam ainda mais e chegavam a custar R$ 22 mil. As armas iam para as mãos de traficantes, e depois eram disparadas contra a própria polícia que a forneceu. 

Com tantas armas e munições circulando por aí, quem sai todo dia de manhã para batalhar pelo pão de cada dia não tem certeza da volta. O relatório do Fogo Cruzado mostra que aumentou a violência armada contra trabalhadores informais, especialmente motoristas de aplicativo (43%), mototaxistas (18%) e vendedores ambulantes (40%). Além de serem vítimas da violência, muitos deles não têm qualquer auxílio das empresas para quem prestam serviço. Quem deveria garantir a segurança não o faz; quem deveria dar suporte, também não.

Há muito trabalho a ser feito no Brasil e em Pernambuco. Antes de tudo, precisamos entender em que maré estamos remando: há mais de uma década o Brasil não registrava tantas armas de fogo nas mãos da população comum. E isso não significa necessariamente mais segurança, já que a fiscalização e investimentos em investigação de desvios, roubos e furtos não foram feitos na mesma medida. É fundamental que se invista em ações de inteligência para corrigir problemas como os da Polícia Civil do Pernambuco, onde faltam policiais e as delegacias até fecham mais cedo por falta de efetivo. Sem delegados e menos mecanismos de controle, menos crimes são solucionados, e assim a violência nos engole ano após ano, como vimos nos dados do relatório. A solução não virá da brisa que sopra no litoral. É preciso descruzar os braços e parar de tratar a segurança pública com negacionismo. Este ano não pode ser como o que passou.

*Cecília Olliveira é diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, jornalista investigativa dedicada à cobertura do tráfico de drogas e de armas e à violência. Cecília foi a única finalista latino-americana do Prêmio Repórteres Sem Fronteiras para a Imprensa de 2020, que celebra vozes intrépidas e corajosas na mídia global.

Publicado originalmente no Fonte Segura, em 27/01/2022

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