Policiais militares são as maiores vítimas, segundo Instituto Fogo Cruzado

Quando o Instituto Fogo Cruzado passou a operar no Grande Rio, em 5 de julho de 2016, havia poucos dados sobre o perfil da violência armada. Naquele dia, o sargento da Polícia Militar Alexandre Moreira de Araújo, de 44 anos, foi a primeira vítima de disparo de arma de fogo mapeada pelo Instituto. Desde então, 1.501 agentes de segurança foram baleados: 555 deles morreram e 946 ficaram feridos na Região Metropolitana do Rio. Na teoria, é como se em média 22 agentes fossem baleados por mês.

A marca dos 1.500 agentes vítimas foi superada no mesmo dia em que o Governo do Estado divulgou o plano de redução da letalidade policial, uma determinação feita pelo STF em fevereiro deste ano, no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro. 

Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, acredita que um plano de segurança pública focado na preservação da vida e na inteligência, construído em parceria com a sociedade civil, pesquisadores e dados, poderia diminuir a vitimização desses agentes. O plano de redução proposto pelo governo ainda não é o ideal: ele não propõe metas, não detalha orçamento,não tem cronograma definido e não representa um plano completo para a segurança pública no Rio de Janeiro. 

“Apesar da solução apresentada, o plano apresentado nesta quarta-feira (23) ainda não é um plano de segurança pública, e não estabelece detalhes sobre cronograma, metas e verbas necessárias para passar a valer. O fato de haver todos esses agentes de segurança vítimas só evidenciam a urgência de pôr em prática ações que priorizem a vida”, afirma.

Em quase seis anos, não houve um planejamento detalhado para poupar a vida dos agentes de segurança, que estão expostos à violência armada todos os dias, durante o expediente e fora dele.

Os policiais militares, categoria que mais sofre com a violência armada, representam 84% dos agentes baleados. Ao todo, das 1.501 vítimas, 1.254 pertenciam à categoria: 431 PMs foram mortos e 823 ficaram feridos desde julho de 2016. 85 dos baleados eram policiais civis, 69 pertenciam às forças armadas, 30 eram bombeiros militares, 28 eram policiais penais (agentes penitenciários), 17 policiais federais, 11 guardas municipais e sete pertenciam ao Segurança Presente.

O alto número de PMs baleados em relação ao restante confirmam que eles são a categoria que mais mata, mais morre e mais tem chances de sofrer transtornos psicológicos graves – PMs têm quatro vezes mais chance de cometerem suicídio, segundo o livro “Por que policiais se matam?” (2016), que reúne resultados de uma pesquisa realizada entre 2010 e 2012 entre militares da corporação. Os números mostram a falta de apoio psicológico, a ausência de treinamentos que ajude a lidar com a exaustão das operações policiais, além do grande número de tiroteios no Rio de Janeiro.

Entre as medidas do plano apresentado pelo Governo do Estado está o acompanhamento psicológico dos agentes de segurança. Essa iniciativa, no entanto, não é inédita, mas precisa ser reforçada com urgência: até 2019, a polícia militar do Rio de Janeiro tinha em média um psicólogo para 577 agentes na ativa.

Para Cecília Olliveira, sem o devido treinamento e apoio dentro das corporações, “a instituição prioriza o embate ao invés de adotar uma tática adequada que mude o foco do acúmulo de mortes”. A diretora executiva do Fogo Cruzado lembra ainda que não há, por parte do governo, um banco de dados sobre policiais vítimas de tiros fora do horário de trabalho. 

“O Estado não produz informações sobre agentes públicos de segurança feridos ou mortos fora de serviço. Eles levantam uma pequena parte, que é a parte dos policiais que foram mortos trabalhando. Quando uma profissão é considerada de risco e de alta responsabilidade, como a de policiais, não se pode ignorar o que acontece quando o profissional está de folga”, explica.

Dos 1.501 agentes de segurança baleados em quase seis anos, 54% não estavam em serviço no momento em que foram atingidos: 684 estavam fora do horário de trabalho e 126 eram aposentados ou exonerados, segundo o Instituto Fogo Cruzado. Três deles não tiveram o status de serviço divulgado.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

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