76% das vítimas foram atingidas por balas perdidas

A proteção à vida é um direito previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A ideia é garantir um desenvolvimento sadio e harmonioso em condições dignas de existência. Mas na realidade do Rio de Janeiro, manter esse direito tão fundamental foi tarefa impossível para as 100 crianças baleadas na Região Metropolitana entre 2016 e 2021.

No dia 17 de abril, houve mais uma vítima. O pequeno Kaio Guilherme da Silva Baraúna entrou para a cruel estatística do Rio de Janeiro. Sem saber, ele se tornou a 100ª criança baleada. Na ocasião, o menino de 8 anos estava em uma festa onde faz aulas de reforço escolar, na Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste do Rio, quando foi atingido por uma bala perdida. Bangu foi o bairro com mais crianças atingidas nestes quase 5 anos, foram 5. E Vila Aliança, empatada com o Morro do Juramento, foi a favela com mais vítimas, foram 3 em cada.

Das 100 vítimas com idade inferior a 12 anos* mapeadas pelo Fogo Cruzado, 30 não resistiram. Do total de vítimas, 39 foram baleadas em ações onde havia a presença de agentes de segurança**: destas, 10 morreram.

Em um ano marcado pela pandemia, a população deu adeus a 2020 renovando as esperanças de um ano melhor. Mas já nos primeiros minutos de 2021, mapeamos mais uma vítima da violência armada. Ainda na virada do ano, Alice Pamplona da Silva, de 6 anos, foi morta a tiros no Morro do Turano, no Rio Comprido. A menina foi atingida por uma bala perdida disparada durante a comemoração do fim do ano. Ela não foi a primeira criança baleada na região metropolitana do estado e infelizmente, não será a última. Até o dia 18 de abril de 2021, já são 6 crianças baleadas no Grande Rio: 3 morreram.

O ano que passou se despediu levando embora também Emily Victória Silva dos Santos, de 4 anos, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, de 7. As primas foram mortas por balas perdidas no dia 4 de dezembro, durante uma ação policial, no Barro Vermelho, em Duque de Caxias, onde brincavam na porta de casa perto das mães. Pouco mais de um mês depois, as primas ganharam homenagem na esquina da rua onde moraram por tão pouco tempo. Um muro foi grafitado por moradores de Duque de Caxias com o rosto das meninas e um pedido por justiça. Emily e Rebecca foram 2 das 22 crianças baleadas no Grande Rio em 2020. Além delas, outras 6 crianças morreram.

E tem sido assim todos os anos.

Em 2019 foi a vez da pequena Mulher Maravilha Ágatha Vitória Sales Felix, de 8 anos, partir. A menina foi morta durante operação policial no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, no dia 20 de setembro, quando voltava para a casa com a mãe. Naquele ano, 24 crianças foram baleadas: 7 delas morreram.

Em 2018, ano da intervenção federal, houve o maior número de crianças baleadas no Grande Rio desde quando começamos a mapear estas vítimas, em 2016. Foram 25: 4 delas não sobreviveram. Entre as vítimas, João Victhor Valle Dias, de 9 anos. O menino foi morto por uma bala perdida quando soltava pipa na laje de uma casa na Favela da Fazendinha, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, no dia 22 de novembro. A origem dos disparos nunca foi identificada.

Quem não se lembra de Arthur? Em 2017, ele conheceu o mundo sendo vítima da violência armada. O menino, que ainda estava na barriga de Claudineia dos Santos Melo, foi atingido por uma bala perdida no dia 30 de junho, durante um tiroteio na Favela do Lixão, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Claudineia teve que fazer uma cesariana de emergência e o bebê ficou internado em estado grave durante um mês – e não resistiu. A mãe de Arthur sobreviveu. Naquele ano, 18 crianças foram baleadas no Grande Rio: 8 morreram.

Quando começamos este mapeamento, em julho de 2016, um menino de 7 anos foi atingido por uma bala perdida em Coelho Neto, Zona Norte do Rio, após tentativa de roubo a um carro terminar em tiroteio no dia 17 de setembro. Em 2016, houve 5 crianças baleadas no Grande Rio: todas sobreviveram.

Nem sempre foram balas perdidas

Das 100 crianças baleadas na Região Metropolitana do Rio, 76 foram atingidas por balas perdidas***: 21 delas morreram. Indo contra esses dados, o pequeno Douglas Enzo Maia dos Santos Marinho, de 4 anos, mal conseguiu aproveitar sua festa de aniversário, que tinha o Hulk como tema. O menino foi morto a tiros propositalmente por um dos convidados de sua festa, em Piabetá, Magé, na Baixada Fluminense, no dia 7 de junho de 2020.

Medo na escola

Maria Gabriela Sathler, de 11 anos, cursava o 6° ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal Espírito Santo, em Cavalcanti, na Zona Norte do Rio, quando foi atingida por uma bala perdida dentro do colégio. A menina foi baleada quando brincava na quadra com uma amiga, no dia 25 de abril de 2018. No momento em que foi atingida, havia um tiroteio próximo à escola. Maria Gabriela foi uma das 4 crianças baleadas que, assim como ela, estavam indo/voltando/dentro da escola nestes 5 anos: 3 delas sobreviveram.

Desprotegidas dentro de casa

Anna Carolina de Souza Neves estava em casa quando foi morta, aos 8 anos de idade, no Parque Esperança, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Era noite de sexta feira, 10 de janeiro de 2020 e Anna estava no sofá de casa com os pais quando foi atingida por uma bala perdida. A origem dos tiros não foi identificada. Do total de crianças baleadas em quase 5 anos, 18 foram baleadas quando estavam dentro de casa: 8 delas não resistiram.

Motivos

Os principais motivos dos tiros que vitimaram as 100 crianças baleadas na Região Metropolitana do Rio neste período, estão Ação e Operação policial (32 vítimas: 8 mortas e 24 feridas); Homicídio e tentativa de homicídio (12 vítimas: 7 mortas e 5 feridas); Ataque a civis (10 vítimas: 1 morta e 9 feridas); Roubo e tentativa de roubo (6 vítimas: 2 mortas e 4 feridas); e Briga (6 vítimas: 1 morta e 5 feridas).

Vítimas de todos os lugares

Mais da metade das crianças baleadas no Grande Rio foram vitimadas no município do Rio de Janeiro: 59 crianças. Em seguida, houve mais crianças baleadas em São Gonçalo (12), Duque de Caxias (9), Belford Roxo (6) e São João de Meriti (3). Entre os bairros, Complexo do Alemão, Bangu e Campo Grande foram os que mais tiveram crianças baleadas, com 4 vítimas em cada.

64% das vítimas foram baleadas em favelas: 21 morreram e 43 ficaram feridas. Entre as localidades que concentraram mais vítimas, estão: Vila Aliança, em Bangu (2 mortas e 1 ferida); Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho (1 morta e 2 feridas); Favela do Para Pedro, em Colégio (3 feridas); e Barro Vermelho, em Duque de Caxias (2 mortas).

Prioridade nas investigações

Em 13 de janeiro deste ano, foi sancionada a Lei 9.180/21, também conhecida como Lei Ágatha Felix. De autoria das deputadas Dani Monteiro (PSOL), Renata Souza (PSOL) e Martha Rocha (PDT), a lei garante prioridade nas investigações de crimes contra a vida de crianças e adolescentes. 

* O Unicef considera crianças com idade inferior a 12 anos.

** Presença de agentes: Situações em que são percebidas a presença de agentes de segurança durante o tiroteio/disparo. Exemplo: Operação, Ação, Assalto a agentes etc.

*** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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