Houve participação de agentes de segurança em apenas 8% dos tiroteios nessas áreas

Por: Gabrielli Thomaz

Parte do Rio de Janeiro tem dono. E eles dominam comércio, serviços e até mesmo o comportamento das pessoas. Divididos em Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro, Amigos dos Amigos e Milícias, eles estão presentes de alguma forma em 513 dos 950 bairros/distritos do Grande Rio*. Não é raro passar por algumas ruas e dar de cara com siglas de facções pintadas nos muros. Um claro recado de quem é que manda ali.

Nestas áreas mapeadas pelo Pista News em 2020, houve 2.020 tiroteios/disparos de arma de fogo registrados pelo Fogo Cruzado**, o que representa 44% do total de tiroteios no ano. Em 2019, a porcentagem de tiroteios em áreas com presença de grupos armados era de 36%segundo dados levantados pelo Fogo Cruzado em parceria com o Disque Denúncia, NEV-USP, Pista News e Geni-UFF.

Comando Vermelho

Batizado inicialmente como Falange Vermelha, o Comando Vermelho (CV), como é conhecido hoje, foi criado dentro dos presídios em 1979, durante a ditadura civil militar. A segunda maior facção do país é também a maior facção do estado do Rio de Janeiro, estando presente em 4% da Região Metropolitana do Rio. Nestas áreas houve 1.350 tiroteios em 2020, o que equivale 67% dos registros em regiões com a presença de grupos armados (2.020).

Em um destes tiroteios, Gabriel Ribeiro Marcondes, de 20 anos, Mateus da Silva Gomes e um outro homem não identificado, foram mortos. Eles estavam em um baile funk no Morro da Bacia, no Ambaí, em Nova Iguaçu, no dia 18 de outubro. Gabriel, que era neto do sambista Neguinho da Beija-Flor, entrou para a estatística de vítimas em áreas com a presença do Comando Vermelho. Nas áreas da facção houve 459 pessoas baleadas – destas 206 não sobreviveram. 

Entre estas centenas de baleados, 19 eram agentes de segurança (3 deles morreram); 42 pessoas foram atingidas por balas perdidas*** (7 morreram); e houve 11 chacinas**** que deixaram 37 mortos.

Terceiro Comando Puro

Atualmente, o maior rival do Comando Vermelho é o Terceiro Comando Puro (TCP). Conhecido inicialmente como Terceiro Comando, a facção surgiu na década de 90. Presente em 1% da região metropolitana do estado, o TCP concentrou 21% do total de tiroteios mapeados em regiões sob influência de algum grupo armado: foram 432 tiros em 2020. 

No dia 10 de fevereiro, ainda no começo do ano, uma disputa entre Comando Vermelho e Terceiro Comando Puro terminou com 3 mortos e outros 4 feridos no Morro da Mineira e da Coroa, no Catumbi, na Zona Norte do Rio. Isso acontece com certa frequência. Em 2020, 128 pessoas foram baleadas em áreas com a presença do TCP: 58 delas morreram. Entre os baleados, 9 eram agentes de segurança (3 deles mortos), 8 pessoas foram vítimas de balas perdidas (metade morreu). E houve ainda 7 chacinas, que deixaram 21 mortos no total.

Amigos dos Amigos

Cada dia mais enfraquecida, a facção Amigos dos Amigos (ADA) foi fundada na década de 90, após Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, ser expulso do Comando Vermelho por planejar e executar a morte do traficante Orlando da Conceição, o Orlando Jogador. O grupo foi criado por Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém e outros traficantes, dentro do presídio de Ilha Grande.

A facção, que no passado teve como um de seus principais nomes Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, está presente em menos de 1% da área total do Grande Rio, e em 2020, concentrou somente 2% dos tiroteios em áreas sob seu domínio. Foram 40

Em relação ao impacto na vida cotidiana, seus números se destacam por serem inferiores aos demais grupos armados, assim como sua extensão, mas ainda preocupantes: 14 pessoas foram baleadas em áreas com ADA em 2020: 2 delas morreram. Entre os mortos, 1 era agente de segurança, o policial militar Luiz Henrique Sardote Ventura, de 34 anos. O agente foi encontrado morto próximo à favela Minha Deusa, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, no dia 10 de abril.

Milícias

Formada por agentes públicos de segurança como policiais, bombeiros, militares do Exército, guardas municipais e etc – e também civis –, as Milícias são hoje o maior grupo armado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e estão presentes em 6% de toda a região metropolitana. 

Mesmo estando presentes em uma área maior que as demais facções, isso não lhes rendeu o título de grupo armado mais violento. Isto porque em 2020, somente 198 tiroteios ocorreram em áreas com a existência de paramilitares. A quantidade de tiroteios só não foi menor que a da facção Amigos dos Amigos. Um levantamento feito pelo UOL com base nos dados do Fogo Cruzado, mostrou que com a milícia em expansão, ações policiais no Rio miram o tráfico e só 3% dos tiroteios ocorrem em áreas de milícia.

Pensada inicialmente como uma alternativa para conter os avanços do tráfico, as milícias atuam hoje em todas as esferas. Elas estão dentro da política, no serviço de TV a cabo, gás, internet, fazendo a segurança particular nos bairros e também, graças a um dos mais mais expoentes integrantes – Wellington da Silva Braga, o Ecko –, traficando. Apesar disso, parte de seu apoio vem da venda da ideia de proteção e combate ao tráfico.

Os 198 tiroteios que ocorreram em áreas de milícias vitimaram 103 pessoas: 67 delas morreram. Entre os baleados, 121 eram agentes de segurança (7 morreram); 2 pessoas ficaram feridas por balas perdidas; e houve 4 chacinas que deixaram 23 mortos no total. Entre os casos, uma operação policial no Km 32, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, terminou com 5 mortos no dia 14 de outubro. 

Sem segurança

Mais da metade dos tiroteios em regiões com a presença de algum grupo armado com a participação de agentes ocorreu em áreas do Comando Vermelho: foram 385, representando 66% em relação ao total de tiroteios em áreas com influência de grupos armados com presença de agentes****. Em seguida, vieram Terceiro Comando Puro, com 144 registros (25%); áreas comandadas por milícias, com 48 registros (8%); e Amigos dos Amigos, com 10 registros (2%).

Em uma das maiores chacinas registradas na história do Fogo Cruzado, uma ação integrada entre Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal terminou com 12 milicianos mortos em Itaguaí, na Baixada Fluminense, no dia 15 de outubro. Entre os mortos estava o ex-policial militar Carlos Eduardo Benevides Gomes, o Cabo Benê, braço direito do Ecko, e líder da milícia de Itaguaí.

Lugar errado

Em 2020, no dia 11 de agosto, os idosos Tânia Gomes Moeda (70 anos), João Carlos Moeda (67 anos) e Henrique Antônio Espíndola (78 anos) foram baleados após entrarem de carro no bairro Jóquei, em São Gonçalo. A região, que atualmente tem forte presença do CV, ilustra bem a realidade de como é viver no estado. 

No Rio de Janeiro, saber bem por onde anda é fundamental para qualquer pessoa. Não são exceções os casos de motoristas desavisados que entram “por engano” em favelas e bairros com a presença de algum grupo armado. Na Vila Kennedy, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro que está sob o domínio do Comando Vermelho, motoristas de aplicativo já sabem que não têm permissão para transitar ali

Tânia, João Carlos e Henrique foram só mais três personagens nessa disputa que acontece no estado. O resultado é quase sempre o mesmo: são baleados, e tem quem não sobreviva para contar essa história.

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* Para este levantamento, os bairros/distritos foram obtidos da plataforma MP in loco, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

** Metodologia: a análise foi feita cruzando os dados georreferenciados de tiroteios do Fogo Cruzado em 2019 e 2020 com dois mapas de domínio de grupos armados disponíveis, um para 2019 e outro para 2020. O mapa de 2019 foi realizado por um consórcio de 5 instituições (Fogo Cruzado, Pista News, Disque Denúncia, Geni/UFF e Nev/USP) e utiliza a cartografia de favelas, conjuntos habitacionais e sub-bairros realizada pelo Pista News, com metodologia de classificação de áreas de domínio baseada em denúncias do Disque Denúncia. O mapa de 2020 foi disponibilizado pelo Pista News, de acordo com cartografia e metodologia de classificação própria da instituição. Nesse sentido, por usar mapas com metodologias distintas, é necessário ter cuidado ao fazer comparações entre os anos, sendo mais indicada a observação de padrões dentro de cada ano.

*** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

**** Eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação – chacinas, mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc.

***** Presença de agentes: Situações em que são percebidas a presença de agentes de segurança durante o tiroteio/disparo. Exemplo: Operação, Ação, Assalto a agentes etc.

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