Número já é maior que a metade das vítimas de todo ano passado

Por: Instituto Fogo Cruzado e Gajop

Diferente da dinâmica da violência no Rio de Janeiro, onde há sistemáticas operações policiais e muitos disparos sem vítimas alvejadas, no Grande Recife, não se desperdiçam balas. Enquanto na Região Metropolitana do Rio o Instituto Fogo Cruzado contabilizou 2.791 tiroteios e 1.138 baleados, na Região Metropolitana do Recife foram registrados 836 tiroteios e 911 baleados.  Apesar dos números serem maiores no Rio, a proporção entre disparos e vítimas é maior no Grande Recife, onde não se erra o alvo. Em Pernambuco, quando se atira, na maioria das vezes, é para matar, tanto que 94% dos tiroteios deixam vítimas e, no Rio, 26%. 

“Apesar de haver mais tiroteios no Rio, quando comparamos com os dados de tiroteios em Recife, ainda que dentro de uma lógica perversa, as balas aqui são mais precisas e eficientes (máximo aproveitamento com mínimo de recurso). Gastam-se bem menos balas para matar o mesmo número de pessoas ou mais, dando a impressão de que são crimes premeditados, muito a ver com acertos de contas, como é comum nas disputas entre grupos armados”, explica a coordenadora executiva do Gajop e gestora local do Fogo Cruzado em Pernambuco, Edna Jatobá.

O que impressiona na violência armada do Recife é que parte desses tiros acontece dentro de casa. Acerto de contas, dívidas, brigas –  os motivos são muitos, assim como a proximidade entre as vítimas. Nem as paredes oferecem a segurança esperada: dados do Instituto Fogo Cruzado revelam que os tiros em residências, que já haviam aumentado em 2020, em plena pandemia do coronavírus, aumentaram ainda mais em 2021. São 134 pessoas baleadas no próprio lar somente neste primeiro semestre do ano. O número foi 47% maior que o acumulado no mesmo período de 2020, com 91 baleados.

Uma das explicações possíveis para esse aumento de casos pode se atribuir ao confinamento exigido com a pandemia. Antes da Covid-19 os alvos estavam espalhados pela cidade, muitas vezes em bares. Agora, com muitos estabelecimentos fechados ou com restrições de funcionamento, os assassinatos ocorrem mais ainda dentro de casa. No primeiro semestre de 2021 foram 14 baleados em bares, 6% a menos que o registrado no mesmo período de 2020, tempo em que ainda não havia pandemia no Brasil,  quando foram 15.

“As pessoas não vão parar de matar por conta da pandemia. Esses crimes continuam, elas passam a procurar essas vítimas agora dentro de casa”, comenta Jatobá.

Se estar em casa não poupou vidas, muito menos poupará a flexibilização do porte de armas, que tornou ainda mais fácil vitimar a população, seja durante um tiroteio, ou em um acerto de contas. Pernambuco teve aumento na circulação de armas e as solicitações para posse e porte aumentaram 8 vezes. Indo de 1.171, em 2018, para mais de 10 mil em 2020.

Acerto de contas em casa e nas prisões

A quantidade de tiros e vítimas em residências também pode se relacionar com o funcionamento do sistema prisional e a falta de uma inteligência na segurança pública do Estado. Ao sair do sistema prisional, por exemplo, essas pessoas tornam-se alvo fáceis para serem assassinadas em casa.

Segundo Jatobá,  muitas vítimas estiveram, ou ainda estão, em privação de liberdade. A política ostensiva voltada para a apreensão de drogas gera um novo ciclo de violência. “A polícia apreende as drogas e prende quem as portava, mas a dívida (por drogas) continua. Mesmo que a pessoa retorne para sua casa, ela continua a ter uma dívida e é morta por isso”, comenta Jatobá. 

* “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

** Homicídios Múltiplos: Eventos onde há 2 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc (SSP de SP).

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