Por Rafael Negrão*

“Ela vivia em Gaibu com as amizades, e eu passava o dia todo com a foto dela perguntando a um e a outro. Uma vez, entrei numa favela com meu menino e colocaram uma arma na cabeça do meu filho, mas não conseguimos achar ela”, relembra dona Maria da Saúde, mãe da jovem Thainara Santos que na época dessas dolorosas lembranças tinha 14 anos.

Thainara era uma jovem sorridente e feliz que tinha uma boa relação com a mãe e seus cinco irmãos, que residem no Bairro São Francisco, na periferia do Cabo de Santo Agostinho. Sonhava em ser advogada. No entanto, tudo isso foi interrompido em 2015 com a notícia que abalou a família da adolescente: ela foi executada com um tiro de espingarda calibre 12 na cabeça aos 16 anos.

“Eu estava no portão de casa. Lembro que caí ajoelhada, abraçada com meu pai, e gritava. É uma dor que nunca vai passar. Cada vez eu fico mais triste, porque não teve justiça. Minha filha tão jovem, tão alegre. Não tive nem chance de me despedir”, relata Maria da Saúde, ao lembrar do momento em que recebeu a notícia da morte que já pressentira.

A foto de Thainara permanece na parede da casa simples, como se fosse um talismã. E a mãe carrega consigo  a imagem das últimas recordações com a filha. Na imagem, a garota estava em um aniversário sorrindo, com uma das mãos na cintura e uma saia e blusa no tom azul. “Essa foi a última foto que ela tirou. Olha como ela estava feliz”, diz a mãe com olhos marejados de água.

Histórias trágicas como a de Thainara fazem parte do cotidiano do Cabo de Santo Agostinho que, há mais de uma década, é considerada a cidade mais vulnerável para um jovem viver no Brasil por instituições que monitoram os números da violência contra jovens e adolescentes. O município tem pouco mais de 210 mil habitantes, de acordo com as estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), e sempre figura nos relatórios do Instituto Fogo Cruzado.

No segundo semestre de 2021, por exemplo, o Fogo Cruzado apontou que, por dois meses consecutivos (setembro e outubro), a quantidade de tiroteios registrados no município, respectivamente 29 e 23, só ficou atrás do Recife na Região Metropolitana. Em 2021, a quantidade total de tiroteios aumentou 25% em comparação com 2020 no Cabo, totalizando 158 mortos por arma de fogo. Só nos primeiros 26 dias de 2022, o Fogo Cruzado identificou pelo menos 24 homicídios na cidade.

Os números do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública confirmam o monitoramento do Fogo Cruzado, pois de acordo com a publicação, a cidade registra a segunda maior taxa de homicídios do Brasil, com 90 assassinatos a cada 100 mil habitantes, ficando atrás somente de Caucaia, no Ceará, com 98,6 assassinatos a cada 100 mil habitantes. Em 2021, foram registrados no Cabo, ao longo do ano, 178 homicídios – segundo dados da Secretaria de Defesa Social – nos bairros que são considerados os mais violentos da cidade (Charneca, Gaibu, Vila Claudete, Centro, Ponte dos Carvalhos, Charnequinha e Cidade Garapu).

Os mortos, em sua maioria, são jovens negros, pobres das diversas localidades periféricas e do litoral da cidade. Geralmente, são comuns assassinatos durante o dia e as vítimas têm de 15 a 29 anos de idade, predominantemente do sexo masculino.

Segundo os dados do Fogo Cruzado, o distrito de Ponte dos Carvalhos foi o território, de toda a Região Metropolitana do Recife, com o maior registro de tiroteios, em 2021, somando 43 eventos desse tipo que deixaram 47 baleados. Destes, 31 morreram e 16 ficaram feridos.

Em julho, uma jovem de 24 anos, foi assassinada a tiros no distrito dentro de sua própria casa, invadida por quatro homens. Segundo o relatório consolidado do Fogo Cruzado de 2021, esse crime é um exemplo do perfil da violência armada na Região Metropolitana do Recife: “episódios focados, com alvo certo, ainda que a vítima esteja em casa – parte deles atingindo mulheres”. A intenção de matar ou ferir deliberadamente uma pessoa já conhecida pelo criminoso é demonstrada pelas estatísticas: em 94% dos tiroteios registrados no Grande Recife houve vítimas. Essa taxa é de 29% na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Desenvolvimento insustentável

Vale ressaltar que a violência no Cabo se acentuou ainda mais a partir da primeira metade da década de 2010, principalmente a partir de 2013 e 2014, época do boom da expansão do Complexo Industrial Portuário de Suape (CIPS), o maior porto público da Região Nordeste e ocupa a quinta posição no ranking nacional.

Para as obras da Refinaria Abreu e Lima, do Estaleiro Atlântico Sul e de ampliação do porto haviam chegado trabalhadores de todos os lugares do País e de várias partes do mundo. Aquela época é lembrada, até hoje, pelos moradores do Cabo e Ipojuca, se referindo aos homens de “fardas”. Cabo, assim como o município vizinho de Ipojuca, era o destino de investimentos e de trabalhadores atraídos pela política desenvolvimentista implementada pelo então governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo durante a campanha presidencial de 2014, e pelos ex-presidentes Lula e Dilma.

Eram muitos empregos ofertados para os trabalhadores da indústria pesada, principalmente da terraplanagem. As obras eram impulsionadas pelo Programa de Aceleramento e Crescimento (PAC) do Governo Federal. A partir de 2015, com a crise econômica, a região testemunhou a segunda maior desmobilização de trabalhadores da história do Brasil: em pouco tempo, 42 mil pessoas ficaram desempregadas.

O fenômeno é analisado pelo cientista social, Matheus Mariano, mestre em Sociologia pela Fundação Joaquim Nabuco. “O porto de Suape colaborou muito com o aumento da violência porque houve o surgimento de novas periferias durante as obras de construção da refinaria e do estaleiro, até chegar no resfriamento das obras com o escândalo da Lava Jato, tendo ocorrido o processo da favelização urbanística na cidade, com destaque para o litoral cabense”, explica Mariano.

Matheus ainda ressalta que o Cabo saiu de uma lógica interiorana no começo dos anos 2000, com seus engenhos e usinas de álcool e açúcar, direto para a indústria. “Mesmo tendo algumas indústrias, tínhamos bairros que eram rurais, onde se tinha cana ou parte do latifúndio e, hoje, não se tem mais porque tudo virou ruas, casas, bairros ou ocupações”, acentua o pesquisador. 

As drogas e o resgate pela cultura

Tantas mudanças em tão pouco tempo trouxeram violência e o tráfico de drogas para o cotidiano da região e para a vida de milhares de jovens.

“Eu me envolvi com o mundo do tráfico quando tinha 13 anos. Fui apadrinhado”, relata um jovem que, por segurança, não pode ser identificado. Negro, favelado, nascido na periferia e artista de rua, filho de uma mãe solo, atuava como um apaziguador social na comunidade em que nasceu e foi criado. O bairro é um dos mais violentos da cidade. “O tráfico me trouxe um poder volátil, feroz, pois ninguém mexia comigo, porque eu andava com gente que me protegia”, conta. “Eu aconselhava os caras, separava brigas de casais”, revela.

Apesar de ter roupas novas e acesso a outros bens, o envolvimento no tráfico causou um sofrimento pessoal e destruição familiar na vida do jovem, pois a mãe chorava todos os dias com receio das consequências. “Eu estava regozijado com aquele mundo, porque eu tinha de tudo, mas eu no fundo percebi o quanto mal eu fazia para as pessoas, pois aquele cara que financia a droga faz muitas mães chorarem. Quantas mulheres vão apanhar do marido por conta do dinheiro para comprar a pedra de crack em vez da feira? Era uma tristeza involuntária que eu carregava”, afirma.

“Eu sempre penso que quando o poder público não chega junto na comunidade, a criminalidade toma conta e se faz presente”, conta.

A virada da chave na vida do jovem foi dada pela arte e a religião. “O hip hop e o rap salvaram a minha vida, porque a arte salva vidas. Mesmo não tendo o que comer ou o que beber, as batalhas de rap reuniam a galera e me fizeram ver o quanto a minha arte transformava vidas. Cheguei a ouvir comentários nas apresentações que minhas músicas evitaram suicídios”, afirmou entusiasmado.

O apoio de entidades da sociedade civil organizada e de alguns amigos foram importantes nesse processo. Além disso, a religião de matriz africana oportunizou a mudança radical em sua vida. “Foi através de um convite de uma mãe de santo, que me chamou para conversar e deixar aquela vida, que eu abdiquei de tudo para viver a religiosidade e a minha arte”, relata o jovem.

Monitoramento de câmeras e guarda municipal armada

A reportagem entrevistou um policial civil que atua no município do Cabo. Ele pediu para não ser identificado. Disse que 91% dos homicídios praticados no Cabo de Santo Agostinho são contra homens, sendo que, em sua avaliação, a maioria das vítimas teria envolvimento com atividades criminosas, com destaque para o tráfico de drogas e disputas de facções por territórios.

Segundo relatou, há homicídios registrados no Cabo de vítimas que não teriam sido assassinadas na cidade, alertando para a prática de ocultação de corpos em várias áreas do município. “Matam em outros locais e os corpos aparecem principalmente nas áreas rurais daqui. O Cabo tem 463,6 km², é um grande território e, por isso, é tão fácil essa prática na cidade”.

O perfil das vítimas das mortes no Cabo de Santo Agostinho, segundo a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS/PE), é de jovens, a maioria homens dos 15 aos 29 anos. Dos 178 homicídios registrados na cidade em 2021, 14 foram de mulheres, sendo três enquadrados como feminicídio, quando a vítima é morta pela condição de ser mulher.

O policial ouvido pela reportagem destaca a integração da Polícia Civil e da Guarda Municipal na cidade. “No Cabo, os guardas municipais têm porte de armas e foram treinados para atuar no enfrentamento à violência. 117 guardas foram treinados para reforçar a segurança local. Também foram instaladas câmeras em vários pontos da cidade e uma Central de Monitoramento da SDS/PE foi instalada na Praia de Gaibu”.

Faltam políticas públicas para a juventude

O Cabo de Santo Agostinho tem o quarto maior Produto Interno Bruto entre as 15 cidades da Região Metropolitana, é um dos municípios com destaque na indústria, no comércio, na cultura e tem um litoral composto por praias que são destinos turísticos tradicionais na região. Apesar disso, a juventude cabense se queixa da falta de espaços públicos e políticas afirmativas que valorizem a população que é exterminada quase todos os dias na cidade.

“A gente vive numa cidade extremamente violenta para o jovem, pois sofremos com a falta de emprego, de educação, de políticas públicas para as juventudes que são vítimas dessas vulnerabilidades e dessa alta taxa de letalidade, que tem ceifado a vida da nossa população”, diz Glaubberthy Rusman, integrante do Fórum de Juventudes do Cabo (Fojuca).

Há quatro anos a principal pista de skate localizada no centro da cidade, por trás da Escola José Alberto de Lima, mais conhecido como Caic, permanece fechada para a reforma do espaço público, que beneficiava adolescentes e jovens das comunidades dos bairros do entorno, como Torrinha, Bela Vista, Malaquias e Alto do Cruzeiro.

O espaço também servia para a prática de esportes radicais e a batalha de rappers que reuniam jovens das diversas localidades do Cabo de Santo Agostinho.

Baixo investimento público nos jovens

Com um orçamento anual de 4 milhões de reais, segundo o Portal da Transparência da Prefeitura, a Secretaria Executiva de Juventude e Esportes pode usar esses recursos para investir nas políticas públicas e afirmativas para os jovens cabenses, porém o investimento anual na política da juventude é de 95 mil reais ao mês.

Recentemente, o próprio secretário de Esportes da cidade, Adriano Batista, mais conhecido por Nino Beleza, reconheceu que o orçamento da pasta é muito pequeno para o investimento na política de juventude e esportes. “Nós reconhecemos que é muito pouco recurso para ser investido na política para a juventude, porque, dos 4 milhões, 70% são gastos com manutenção de equipamentos públicos e a folha de pagamento dos funcionários, restando pouco mais de 1 milhão para investimentos”.

O secretário se queixa que a gestão anterior à sua não teria cuidado dos equipamentos públicos, deixando a maior parte dos campos de futebol, quadras e praças públicas abandonadas. 

O município tem oito escolas-modelo municipais – com quadras poliesportiva – e mais duas quadras municipalizadas, mas, segundo um relatório produzido pela Prefeitura, entre janeiro e março de 2021, os equipamentos públicos estão sucateados. O relatório foi solicitado pela reportagem, no entanto, não foi liberado, sob a alegação de que se trata de documento interno da gestão.

“Infelizmente, as gestões não deixaram programas de governo para as juventudes. E, neste segundo ano, nós estamos planejando novas ações, porque não há projetos para dar continuidade.”, alega o secretário. Entre elas, estariam o segundo Festival de Canto, mais uma versão do Duelo de Rima Municipal e o Encontro de Grafitagem. Há ainda a expectativa de ativação do Conselho de Juventude, órgão de controle e monitoramento de políticas públicas para a área, e a retomada dos Jogos Escolares entre estudantes das escolas municipais, estaduais e privadas.

Espaço cultural abandonado

No centro do Cabo de Santo Agostinho, um outro espaço público agoniza desde que um incêndio quase o destruiu em 2017: o Teatro Municipal Barreto Júnior. Considerado um patrimônio da cidade, celeiro de artistas cabenses, foi palco do grupo Teatro de Amadores de Pernambuco. Antes do fogo, sediou vários eventos, como o Festival Nacional de Teatro do Cabo e a Mostra Cabense de Esquetes e Poesia Encenadas (Mocaspe). Artistas como Zé Geraldo se apresentaram lá inúmeras vezes.

O espaço também abrigava exposições culturais e era um local que servia de escola para os amantes das artes. Atualmente, o prédio encontra-se em ruínas e o fundo serve de estacionamento para os carros dos policiais do 18⁰ Batalhão da Polícia Militar.

Inaugurada em 2012, ao custo de 8,5 milhões de reais, a Praça 9 de Julho, localizada às margens da PE-60, parece provar o desrespeito com o dinheiro público. A praça não tem árvores, bancos e a construção do anfiteatro Luiz Alves Lacerda, com capacidade para 600 pessoas, nunca foi concluída. A realidade é outra, o espaço serve para o uso de drogas e a prática do sexo. Na pandemia, foi adaptada para a vacinação contra a Covid-19.

A praça começou a ser construída na gestão do ex-prefeito Lula Cabral em um terreno de quase 30 mil m². Foram prometidos um jardim com espelho d’água, esplanada aberta para grandes eventos, palco fixo, minicentro de convenções com anfiteatro, sanitários, estacionamento, ruas paralelas para uma melhor circulação, escadarias de acesso e rampas com acessibilidade para cadeirantes, além de uma passarela que faria ligação com o bairro da Cohab. Porém, quem chega no equipamento público se depara com uma situação bem diferente. Em 2018, o ex-prefeito foi preso. Hoje, está solto e responde a processo na Justiça Federal por corrupção passiva e gestão fraudulenta do Instituto de Previdência Social dos Servidores do Cabo.

* Rafael Negrão é comunicador social, formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Ativista LGBTQI+, reside no Cabo de Santo Agostinho, atuando como assessor de comunicação do Centro das Mulheres do Cabo (CMC) e do Fórum Suape Espaço Socioambiental.

Esta reportagem é resultado da bolsa para o curso de Dados em Narrativas Jornalísticas, realizado em parceria pelo Instituto Fogo Cruzado, Marco Zero Conteúdo, Escola de Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco e Fundação Friedrich Ebert.

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