Rio de Janeiro, 18 de julho de 2018 – Em funcionamento desde 05.07.2016, o Laboratório de Dados sobre violência armada Fogo Cruzado registrou 13.287 tiroteios/disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro, uma média de 18 por dia. O relatório, lançado hoje, ilustra a dinâmica e a sensação de insegurança provocada pela violência armada na região metropolitana no Rio, especialmente na capital carioca, São Gonçalo, Niterói e Baixada Fluminense.

O Balanço destes dois anos é composto por uma série de infográficos que detalham indicadores como: bairros e municípios com mais notificações de tiroteios e disparos; índices de vítimas fatais e feridos; presença policial durante tiroteios; áreas com mais mortes de agentes de segurança pública; horários com maior incidência de tiros; ranking de áreas com UPPs com mais registro de tiros; mês com maior número de vítimas; registros com 3 ou mais mortos civis; crianças e adolescentes baleados; ocorrência de tiroteios contínuos em algumas áreas da região metropolitana e a evolução semestral de alguns indicadores ao longo destes 2 anos.

DESTAQUES

  • Maio de 2018 foi o mês com mais registros de tiroteios/disparos de arma de fogo desde o lançamento do Fogo Cruzado, alcançando 903 notificações – uma média de 29 tiroteios/disparos de arma de fogo por dia.
  • Março de 2018 foi o mês com o maior número de registros que terminaram em mortes: 163 – De um total de 2.805.
  • Janeiro de 2018 foi o mês com o maior número de notificações de tiros que terminaram em feridos: 157 – De um total de 2.719.
  • Nestes dois anos, o Rio de Janeiro foi o município da região metropolitana que mais registrou tiroteios/disparos de arma de fogo (8.705), seguido de São Gonçalo (1.188), Niterói (691), Duque de Caxias (551) e Belford Roxo (531);
  • Na cidade do Rio de Janeiro, os bairros da Cidade de Deus e do Complexo do Alemão foram os campeões de registros de tiroteios/disparos de arma de fogo (438), seguidos pela Praça Seca (379) – destes, apenas Praça Seca não é área de UPP.
  • O município do Rio de Janeiro registrou ao menos 3.018 pessoas baleadas por arma de fogo, destas 1.274 morreram e 1.744 ficaram feridas;
  • Ao longo desses dois anos, foram registrados 3.780 tiroteios/disparos de arma de fogo em áreas de UPPs, que resultaram em ao menos 436 mortos e 631 feridos. As UPP Cidade de Deus e Complexo do Alemão foram as que registraram o maior número de tiroteios/disparos de arma de fogo (438), enquanto a UPP Rocinha liderou o ranking de mortos (54)  e o Complexo do Alemão liderou também o ranking de feridos (116);
  • A Baixada Fluminense registrou 2.512 tiroteios/disparos de arma de fogo nestes 2 anos. Neste mesmo período, o número de mortos por arma de fogo identificados pelo Fogo Cruzado (898) ultrapassou o número de feridos (503);
  • Os municípios que compõem o Leste da Região Metropolitana totalizaram 2.069 tiroteios/disparos de arma de fogo em 2 anos de funcionamento do laboratório de dados. Assim como na Baixada, o número de mortos identificados (631), superou o de feridos (472);
  • Em 2 anos, o Laboratório de dados Fogo Cruzado mapeou 261 agentes de segurança mortos e 499 feridos na região metropolitana do Rio de Janeiro. O mês de janeiro de 2017 foi o que registrou o maior número de agentes de segurança mortos (21), e o mês de agosto de 2016 teve o maior número de feridos (43);
  • Desde o início de 2017, o Fogo Cruzado começou a acompanhar casos que resultaram em 3 ou mais civis mortos por arma de fogo. Em um ano e meio foram 78 episódios e um total de 299 vítimas fatais. A maioria foi registrada no Rio de Janeiro (39 casos), seguido de São Gonçalo (11 casos) e Duque de Caxias (9 casos).
  • Em 2018, o Fogo Cruzado identificou 25 crianças e adolescentes mortos por arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro, além de outros 29 feridos. Novamente, a capital liderou os rankings com 12 menores de idade mortos e 19 feridos;
  • Desde janeiro de 2018, o Fogo Cruzado passou a acompanhar eventos que resultem em mais de 2 horas de tiroteios contínuos. Foram 62 casos, totalizando 303 horas e 58 minutos. Destacaram-se 03 acontecimentos na Zona Oeste da capital:  o Morro do Jordão (29/06), na Taquara, que chegou a registrar um tiroteio de 23 horas e 12 minutos ; seguido pelo Bateau Mouche (26/03), na Praça Seca, com um tiroteio de 16 horas e 50 minutos; e pela Cidade de Deus (31/01), 14 horas e 14 minutos;
  • Desde de janeiro de 2018, o Fogo Cruzado registrou 58 tiroteios/disparos de arma que resultaram em vítimas de bala perdida na região metropolitana do Rio de Janeiro. Ao todo foram 70 baleados (13 mortos e 57 feridos), incluindo 6 idosos e 19 menores de idade;
  • Em 2018, o Fogo Cruzado começou a acompanhar o gênero de pessoas baleadas através de notícias de imprensa e comunicações das autoridades policiais. Este ano, de um total de 759 mortos por arma de fogo, 704 eram homens (93%) e 41 eram mulheres (5%). Dentre os 596 feridos identificados, 85% eram homens (504) e 12% mulheres (69);
  • Desde o lançamento do Fogo Cruzado, percebemos um aumento na quantidade de registros de tiroteios/disparos de arma de fogo entre um semestre e outro. O aumento mais expressivo (41%) ocorreu entre o segundo semestre de 2017 e o primeiro de 2018. O primeiro semestre de 2018 apresentou ainda um crescimento de 74% em relação ao mesmo período do ano anterior.

 

 

ANÁLISES PERIÓDICAS

O Fogo Cruzado publica relatórios periódicos (mensais e anuais) com estatísticas descritivas da nossa base de dados, que podem ser encontrados aqui. Além disso, dependendo da conjuntura, são publicados alguns recortes específicos, tais como:

ESTUDOS E PARCERIAS

Nesses 2 anos, o Fogo Cruzado realizou parcerias com organizações, servindo de fonte para variados estudos:

NOVA VERSÃO

Este ano foi disponibilizada a versão 2.0 do app para para download gratuito nos sistemas Android e IOs. Os usuários que desejarem podem receber notificações de tiroteios/disparos de armas de fogo em tempo real; uma vez habilitada, a função será ativada automaticamente quando o usuário estiver em um raio de 3 km do local da ocorrência. O usuário poderá ainda optar por receber todas as notificações registradas no app.

“Nosso objetivo é melhorar a experiência do usuário, tornando a ferramenta mais útil e interativa para o cidadão comum e permitindo que, com a informação na mão, ele se sinta menos inseguro. Nós preenchemos a lacuna da falta da informação, de forma a evitar que o pânico se dissemine, permitindo que as pessoas possam se proteger e cobrar do poder público que estabeleça políticas de segurança mais eficientes e eficazes”, disse Cecília Oliveira, diretora do laboratório de dados sobre violência armada, Fogo Cruzado. “Monitoramos, moderamos e verificamos as publicações no site para reduzir o risco de spams e outros ruídos e gerar dados de qualidade que subsidiem o debate urgente sobre armas e segurança pública”, reitera.

EXPANSÃO

Com a consolidação do laboratório de dados no Rio de Janeiro, cujo aplicativo já tem cerca de 200 mil mil downloads, o Fogo Cruzado começou sua fase de expansão para outras praças brasileiras. Em abril de 2018, o projeto foi inaugurado na Região Metropolitana do Recife. A capital pernambucana e arredores têm sofrido com altos índices de homicídios e violência armada, registrando 658 mortes violentas em 2016, de acordo com o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Assim como já ocorre no Rio de Janeiro, o trabalho vem sendo realizado em conjunto com pesquisadores e redes locais que monitoram a violência para garantir a legitimidade e a consistência dos dados.

“Sabemos que existem variações nos vetores e nos impactos da violência armada nas diferentes regiões metropolitanas do país. Como o esperado, o mapa do Recife se mostrou diferente do que observamos no Rio de Janeiro, por exemplo. Isso reitera a importância de levar o aplicativo e o mapeamento para outros lugares que vivenciam graves problemas de segurança pública, mas nem sempre têm a mesma visibilidade”, analisa Cecília. “A experiência em Recife vem nos ajudando a compreender melhor a ocorrência de tiroteios e disparos de armas de fogo, alertando as pessoas sobre a ocorrência de tiros e então, dando a possibilidade de resguardar sua vida e ainda gerar dados que apoiem a elaboração de políticas públicas regionais adequadas para reduzir a violência”.

 

No dia 9 de julho o Fogo Cruzado Pernambuco completou 100 dias e lançou seu primeiro relatório com dados acumulados do período, no qual é possível destacar algumas diferenças para o padrão de violência armada no Rio de Janeiro. Embora os registros de tiroteios/disparos de arma de fogo ocorram em número bem menor que no Rio, na região metropolitana do Recife, os eventos registrados mais frequentemente resultam em vítimas. Nestes 100 dias, apenas cerca de 9% dos tiroteios/disparos de arma de fogo não resultaram em vítimas identificadas.

CASA NOVA

Para garantir autonomia nessa fase de expansão geográfica do Fogo Cruzado , foi realizada uma transição institucional. Originalmente desenvolvido e lançado pela Anistia Internacional Brasil em 2016, o Projeto tornou-se independente e autônomo da organização a partir de janeiro de 2018. O laboratório de dados sobre violência armada é hoje um projeto licenciado para e integralmente gerido pelo Instituto Update e a Anistia Internacional não tem qualquer gerência sobre o aplicativo. (leia a nota completa da Anistia Internacional no site da organização)

Com sede em São Paulo, o Instituto Update busca contribuir para a atualização da democracia latinoamericana através do fortalecimento do ecossistema de inovação política na região. Para tal, o Update se configura como um think and do tank, realizando pesquisas e experimentos de inovação política, em busca de uma América Latina mais democrática, com práticas políticas renovadas e mais participativas, organizações e indivíduos mais atuantes, para a construção de sociedades menos desiguais, mais justas e mais inclusivas.

Links para download gratuito para download em Android e iOs (disponíveis a partir do dia 21/01)

COMO FUNCIONA

Além de receber notificações de usuários diretamente via aplicativo, a equipe de gestão de dados do Fogo Cruzado recebe informações via Whatsapp, mensagens diretas no Twitter e inbox do Facebook. No caso do Whatsapp, só são consideradas fontes conhecidas e com as quais já existe relacionamento prévio, como coletivos, comunicadores e moradores ativos localmente.

A equipe do Fogo Cruzado também adiciona às bases de dados as informações recolhidas via imprensa e canais das autoridades policiais. Vale notar que as notificações publicadas no mapa do Fogo Cruzado são sinalizadas de acordo com suas fontes.

Quando chega a notificação de um tiroteio/disparo de arma de fogo, esta informação não é automaticamente publicada no mapa e nas redes sociais do aplicativo. Imediatamente, a equipe de gestão de dados cruza a notificação com scripts e filtros desenvolvidos para  agregar informações sobre disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro. Desta forma, é possível saber quem, quando e onde está se falando sobre o assunto de forma a cruzar informações sobre um mesmo tiroteio/disparo de arma de fogo. Após tal verificação, a notificação é  postada nas redes e o incidente fica em registro público.