Relatório semestral mostra aumento desordenado de atingidos no Grande Recife

  • 94% dos tiroteios no Grande Recife resultaram em mortos e/ou feridos
  • Em meio à recomendações de isolamento social na pandemia, 15% dos baleados no Grande Recife foram atingidos dentro de casa

Cresce assustadoramente o número de casos de violência armada em casa, neste primeiro semestre de 2021, em Pernambuco. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira, 15/07, pelo relatório semestral lançado hoje pelo Instituto Fogo Cruzado.

Não bastasse a ameaça da pandemia do coronavírus no Brasil todo, a população pernambucana está tendo de lidar, simultaneamente, com o risco de ser baleada sem sair de casa. O isolamento social foi e ainda é uma das medidas mais eficazes para se proteger do vírus da Covid-19 e assim evitar a rápida propagação da doença.

A Região Metropolitana do Recife viu o número de tiroteios/disparos de arma de fogo cair 3%, 868 casos foram registrados no mesmo período do ano passado contra 839 neste. A queda refletiu na quantidade de baleados no semestre, foram 911 vítimas da violência, 2% a menos que no mesmo período de 2020, com 931. Entretanto, os índices de tiroteios no Grande Recife assustam, dos 839 registrados em 2021, em 94% deles houve mortos e/ou feridos. Apesar da diminuição de baleados, houve um aumento expressivo de mortos, o que mostra que na Região Metropolitana do estado as balas são mais precisas e direcionadas. 

O local que deveria representar segurança, tanto contra o vírus quanto contra a violência, não se mostrou eficaz em nenhum dos dois casos. O número de pessoas baleadas aumentou 47% em relação ao mesmo período no ano passado, totalizando 134 vítimas. O número de atingidos em casa equivale a 15% de todos os baleados no Grande Recife neste primeiro semestre.

Esse número é elevado inclusive para regiões do país, igualmente afetadas pela violência armada. É o que mostra o relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado com dados da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, lançado também esta semana. O levantamento mostrou que na região fluminense houve 32 vítimas em casa, 76% a menos do que no Grande Recife.

“Em Pernambuco mata-se tanto quanto no Rio de Janeiro, entretanto a violência não é tão difusa, ela é mais focada. São crimes premeditados, ou seja, que já deram pistas que iam ocorrer. Não acontece no calor da hora, quando uma pessoa pega uma arma após uma briga e atira na outra”, explica a coordenadora executiva do Gajop e gestora local do Fogo Cruzado em Pernambuco, Edna Jatobá.

A pandemia fez ainda disparar o número de trabalhadores informais. Com o fechamento do comércio e a necessidade de buscar alternativas para o sustento em meio a maior crise sanitária dos últimos anos, motoristas de aplicativo, mototaxistas e vendedores ambulantes viraram alvo da violência. Nestes primeiros seis meses, cinco motoristas de aplicativo, quatro vendedores ambulantes e 11 mototaxistas foram baleados, como mostra este relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado. Os dados mostraram que quatro crianças baleadas, sobreviveram. 

Para Ailce Moreira, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e do Movimento Nós na Criação, “este período agrava, potencializa e atualiza a lógica da escravização que funda esse país e se perpetua através da institucionalidade da exploração do trabalhador”. 

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Instituto Fogo Cruzado é uma plataforma digital colaborativa que mapeia dados sobre violência armada por meio de um aplicativo para celular aliado a um banco de dados. Existe desde 2016 na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e desde 2018 na Região Metropolitana do Recife.

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