Em um mesmo fim de semana, 3 pessoas foram mortas a tiros em disputa de milícia na região

O segundo mês do ano foi marcado pelo aumento da violência armada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ao todo, houve 53 tiroteios, segundo dados do Relatório mensal do Instituto Fogo Cruzado. Neste período, 32 pessoas foram baleadas na região (18 mortas e 14 feridas), empatando em número de vítimas com o Leste Metropolitano, que em 2021 foi destaque como a região com mais mortos e feridos de todo o Grande Rio.

Para Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, a razão para que a Zona Oeste esteja crescendo nos números da violência se deve às disputas da milícia na região. 

“A movimentação das ações criminosas são cíclicas. As dinâmicas criminais de traficantes e milicianos hoje são diferentes de tempos atrás – e isso tem claro impacto nos números de tiroteios e homicídios. As áreas em que Ecko e Tandera tinham sociedade estão em disputa. Eles romperam a sociedade em dezembro de 2020, e com a morte de Ecko, em junho de 2021, o espólio está em disputa”, afirma a diretora.

A Zona Oeste, com forte presença de milicianos nos bairros e favelas, teve no mês de fevereiro um novo capítulo nas disputas pela região. No último dia 19, Vladimir Melgaço Montenegro, conhecido como Bibi, foi morto a tiros dentro do carro em que estava, na favela dos Jesuítas, em Santa Cruz.  

A promoter Marianna Jaime Costa também foi morta no episódio, e outras três pessoas ficaram feridas. Bibi fazia parte da milícia de Zinho, o irmão de Ecko que hoje domina boa parte dos bairros deixados de herança pelo irmão.

No dia seguinte, um homem foi morto com mais de 50 tiros quando saía de um salão de festas em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. O homem era Edivaldo Barbosa da Costa Neto, de 41 anos, que também fazia parte do grupo de Zinho e era responsável por administrar as vans clandestinas da região. Poucas horas depois, outro homem foi morto a tiros na Estrada Guandu Sapê, também em Campo Grande.

No ranking das regiões do Grande Rio, a Zona Oeste da cidade do Rio ficou em terceiro lugar no número de tiroteios, mas empatando com o Leste Metropolitano – que concentra sete municípios – no número de baleados:

  • Zona Norte da capital : 109 tiroteios, 26 mortos e 20 feridos
  • Baixada Fluminense: 66 tiroteios, 29 mortos e 20 feridos
  • Zona Oeste da Capital: 53 tiroteios, 18 mortos e 14 feridos
  • Leste Metropolitano: 43 tiroteios, 17 mortos e 12 feridos
  • Centro da capital: 5 tiroteios, 1 morto e 3 feridos
  • Zona Sul da capital: 4 tiroteios e 1 ferido

O mês em dados

Em fevereiro, houve 280 tiroteios na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, indicando uma queda de 26% no número de registros em comparação com o mesmo período de 2021, quando houve 380 tiroteios. Este é o início de ano com menos tiroteios desde que o Instituto Fogo Cruzado passou a operar na Região Metropolitana do Rio, em julho de 2016.

Cerca de um terço dos tiroteios ocorridos no mês foram em ações e operações policiais, sendo 89 registros nestas ações. Em comparação com fevereiro de 2021, que acumulou 123 registros nestas situações, houve queda de 28% nos tiroteios.

Ao menos 161 pessoas foram baleadas no Grande Rio, destas, 91 delas morreram. Houve uma queda de 5% entre os mortos e de 28% entre os feridos em comparação com fevereiro de 2021, que concentrou 193 baleados, sendo 96 mortos e 97 feridos.

Em comparação com o mês de janeiro, que acumulou 227 tiroteios no Grande Rio, fazendo 121 baleados (63 mortos e 58 feridos), fevereiro teve aumento de 23% no número de tiroteios, de 44% no número de mortos e de 21% no de feridos.

Entre as datas mais impactadas pela violência armada em fevereiro, o dia 18, com 18 registros, concentrou o maior número de tiroteios. O dia 11 teve o maior número de mortos (10), e os dias 4 e 18, concentraram o maior número de feridos (7) cada uma.

O mapa da violência

Entre os municípios que fazem parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, os mais afetados pela violência armada em fevereiro foram:

  • Rio de Janeiro: 171 tiroteios, 45 mortos e 38 feridos
  • São Gonçalo: 31 tiroteios, 13 mortos e 9 feridos
  • Belford Roxo: 20 tiroteios, 9 mortos e 4 feridos
  • Duque de Caxias: 20 tiroteios, 6 mortos e 5 feridos
  • Niterói: 6 tiroteios, 1 morto e 1 ferido

Entre os bairros da Região Metropolitana, os mais afetados foram:

  • Penha (Rio de Janeiro): 11 tiroteios e 9 mortos
  • Bangu (Rio de Janeiro): 11 tiroteios, 4 mortos e 5 feridos
  • Vila Kennedy (Rio de Janeiro): 9 tiroteios e 2 feridos
  • Maré (Rio de Janeiro): 6 tiroteios, 3 mortos e 2 feridos
  • Brás de Pina (Rio de Janeiro): 6 tiroteios e 5 feridos

O Jacarezinho, que atualmente está ocupado pelo Cidade Integrada, ficou em 44º lugar entre os bairros mais afetados pela violência armada. No Itanhangá, bairro onde fica a Muzema, outra favela ocupada pelo Cidade Integrada, houve dois tiroteios.

Em fevereiro houve 26 tiroteios/disparos de arma de fogo em áreas de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Ao todo, 11 pessoas foram mortas e duas ficaram feridas nestas áreas. As UPPs afetadas pela violência armada foram:

  • Complexo da Penha: 10 tiroteios e 9 mortos
  • Macacos: 5 tiroteios e 2 feridos
  • Complexo do Alemão: 4 tiroteios
  • Complexo de Manguinhos: 3 tiroteios
  • Jacarezinho: 2 tiroteios e 1 morto
  • Andaraí: 1 tiroteio e 1 morto
  • Turano: 1 tiroteio

Perfil da violência em fevereiro

  • Houve quatro chacinas na Região Metropolitana do Rio, resultando em 22 mortos no total. Três delas ocorreram durante ações/operações policiais. Em fevereiro do ano passado houve sete chacinas, resultando em 33 mortes. Seis delas ocorreram durante ações/operações policiais. 
  • Houve 11 casos de roubos ou tentativas de roubo que terminaram em tiros no Grande Rio. Ao todo, 13 pessoas foram baleadas nestes casos: quatro morreram e nove ficaram feridas. Em fevereiro de 2021 houve 32 casos de roubos e tentativas que deixaram 30 baleados no total (17 mortos e 13 feridos).
  • Oito agentes de segurança foram baleados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro: destes, quatro morreram (dois fora de serviço e dois eram aposentados/exonerados) e quatro ficaram feridos (três em serviço e um fora de serviço). O número de agentes baleados foi 43% menor do que o registrado em fevereiro de 2021, quando houve 14 vítimas: destas, sete morreram  (um em serviço, quatro fora de serviço e dois eram aposentados/exonerados) e sete ficaram feridas  (três em serviço e quatro fora de serviço).
  • Sete pessoas foram vítimas de bala perdida no Grande Rio em fevereiro: uma morreu e seis ficaram feridas. Entre as vítimas, duas foram baleadas durante ações/operações policiais. No mesmo período de 2021 foram quatro vítimas de balas perdidas: duas mortas e duas feridas. Três delas foram baleadas durante ações/operações policiais. 
  • Três adolescentes (com idade entre 12 e 17 anos) e dois idosos (com idade a partir de 60 anos) foram baleados no Grande Rio: destes, um adolescente e os dois idosos morreram. Em fevereiro de 2021, houve duas crianças (com idade inferior a 12 anos), cinco adolescentes e um idoso baleados no Grande Rio: destes, uma criança e dois adolescentes morreram.

Acumulado do ano

Entre janeiro e fevereiro, o Instituto Fogo Cruzado mapeou 507 tiroteios na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, dos quais, 161 deles ocorreram durante ações/operações policiais. Ao todo, 282 pessoas foram baleadas (154 mortas e 128 feridas). Em comparação com o mesmo período de 2021, quando houve 804 tiroteios (sendo 251 deles em ações/operações policiais) e 413 baleados (sendo 212 mortos e 201 feridos), houve queda de 37% nos tiroteios, de 27% nos mortos e de 36% nos feridos. Os tiroteios em ações e operações policiais tiveram queda de 36% nos registros.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

Chacinas: eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação: chacinas – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc. (SSP de SP).

Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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