Somente em 2022, 16 pessoas morreram baleadas quando estavam dentro de bares, segundo Instituto Fogo Cruzado

A morte da influenciadora digital Bruna do Nascimento Marques Maciel, de 21 anos, chamou a atenção e comoveu os seguidores. A jovem saía de uma casa de show no bairro do Ipsep, Zona Sul do Recife, na madrugada do dia 21, quando foi baleada e morta. Segundo testemunhas, um homem aguardou por horas a influencer sair do estabelecimento. Desde o início do ano, 29 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de bares, segundo o relatório do Instituto Fogo Cruzado: 15 delas morreram e 14 ficaram feridas.

Outro caso que também deve ser destacado sobre violência armada em locais de lazer aconteceu em fevereiro, quando quatro pessoas foram mortas e 11 ficaram feridas durante um evento em um bar no município de Moreno. Pessoas estavam em um estabelecimento conhecido como Casarão quando homens armados chegaram em motocicletas e dispararam contra os presentes.

Para Edna Jatobá, coordenadora regional do Fogo Cruzado em Pernambuco, esses números mostram que é necessário que o poder público implemente ações que garantam a segurança da população. “O que vemos desde o final do ano passado é um indicativo de aumento da violência letal como todo, no Recife e na Região Metropolitana. Infelizmente, tem sido comum a retomada da violência armada em bares. Precisamos de ações coordenadas entre as prefeituras e Secretaria de Defesa Social que busquem reforçar a segurança nos territórios com maior número de ocorrências”.

Tensão em Porto de Galinhas

A morte de Heloysa Gabrielle, de 6 anos, reacendeu o debate sobre a segurança pública em um dos maiores destinos turísticos do país. A menina foi atingida com um tiro no peito, enquanto brincava no terraço de casa, no dia 29. Ela foi morta durante ação policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar em Porto de Galinhas, no Ipojuca. Após a morte de Heloysa Gabrielle, moradores da região protestaram nas ruas.

“O caso da menina Heloysa é um dos retratos mais brutais do despreparo da polícia. O número de tiroteios e disparos de arma de fogo, durante operações policiais, aumentou 31% em 2021 em comparação com 2020, quando comparado ao ano anterior. O resultado disso é o aumento de mortes decorrentes de ações e operações policiais, gerando dor e sofrimento à população, neste caso, aos familiares – como os de Heloysa – que velam seus entes queridos toda semana. É inadmissível que apenas algumas crianças tenham o direito de brincar e estarem com suas famílias em segurança”, avalia Edna Jatobá. Segundo dados do Instituto Fogo Cruzado, em 2021 houve aumento de 23% dos baleados durante ações e operações policiais no Grande Recife em comparação com 2020.

O mês em dados

Durante o mês de março, houve 155 tiroteios na Região Metropolitana do Recife, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Houve uma queda de 4% em comparação com março de 2021, quando foram 161 tiroteios.

Ao menos 167 pessoas foram baleadas: 125 morreram e 42 ficaram feridas. Em comparação com março de 2021, que concentrou 171 baleados, sendo 114 mortos e 57 feridos, em março deste ano houve aumento de 10% nos mortos e queda de 26% entre os feridos.

Em comparação com fevereiro, que concentrou 160 tiroteios e 197 baleados (120 mortos e 77 feridos), março houve queda de 3% nos tiroteios, aumento de 4% nos mortos e queda de 45% nos feridos.

Os dias mais afetados pela violência armada no mês de março foram: 29, com 11 tiroteios e 13 mortos; e dia 3, com cinco feridos.

Dos 155 tiroteios ocorridos no Grande Recife em março, em 95% deles houve mortos e/ou feridos.

Mapa da violência

Entre os municípios que compõem a Região Metropolitana do Recife, os cinco mais afetados pela violência armada foram:

  • Recife: 45 tiroteios, 31 mortos e 12 feridos
  • Jaboatão dos Guararapes: 23 tiroteios, 19 mortos e 6 feridos
  • Cabo de Santo Agostinho: 19 tiroteios, 14 mortos e 10 feridos
  • Olinda: 13 tiroteios, 13 mortos e 3 feridos
  • Camaragibe: 9 tiroteios, 6 mortos e 2 feridos

Entre os cinco bairros mais afetados pela violência armada no mês, estão:

  • Ponte dos Carvalhos (Cabo de Santo Agostinho): 7 tiroteios, 7 mortos e 3 feridos
  • Nova Descoberta (Recife): 6 tiroteios, 3 mortos e 3 feridos
  • Timbi (Camaragibe): 4 tiroteios e 3 mortos
  • Pina (Recife): 4 tiroteios, 2 mortos e 1 ferido
  • Santa Rita (Igarassu): 3 tiroteios e 4 mortos

Perfil da violência armada

  • Entre os 125 mortos no Grande Recife em março, 92% (115) eram homens; Entre os 42 feridos, 95% (40) eram homens.
  • Houve seis casos de homicídios múltiplos no Grande Recife em março: 13 pessoas morreram, sendo 12 homens e uma mulher. Em março de 2021 houve seis casos de homicídios múltiplos com 12 mortos no total: 11 homens e uma mulher.
  • 24 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa em março: 21 morreram (17 homens e quatro mulheres) e três ficaram feridas (dois homens e uma mulher). Em março de 2021 houve 19 pessoas baleadas dentro de casa: 16 morreram (15 homens e uma mulher) e três ficaram feridas (todos homens).
  • Houve três casos de roubos ou tentativas de roubo que terminaram em tiros no Grande Recife. Ao todo, quatro pessoas foram baleadas nestes casos: três mortos e um ferido. Em março de 2021 foram nove casos de roubos e tentativas que deixaram 11 baleados no total (quatro mortos e sete feridos).
  • 1 criança (com idade inferior a 12 anos) e 12 adolescentes (entre 12 e 17 anos) foram baleados no Grande Recife em março: destes, a criança e oito adolescentes morreram. No mesmo período de 2021 foram 11 adolescentes e um idoso (com idade a partir de 60 anos) baleados: destes, oito adolescentes morreram.
  • Quatro pessoas foram vítimas de balas perdidas no Grande Recife: três sobreviveram. Em março de 2021, três pessoas foram atingidas e sobreviveram.
  • Um motorista de aplicativo foi morto a tiros no Grande Recife em março de 2022, assim como em março de 2021.
  • Não houve vendedores ambulantes baleados em março de 2022. Em março de 2021, houve um vendedor ambulante ferido.
  • Dois mototaxistas foram baleados no Grande Recife: todos morreram. Em março de 2021, foram quatro mototaxistas mortos a tiros.
  • Houve um baleado dentro de presídio no Grande Recife, mas sobreviveu. Em março de 2021 não houve baleados dentro de presídios.
  • Não houve agentes de segurança baleados no Grande Recife em março de 2022. No mesmo período de 2021, dois agentes foram baleados: somente um sobreviveu.

Acumulado do ano

Entre janeiro e março, houve 475 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Recife, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Ao todo, 543 pessoas foram baleadas (361 mortas e 182 feridas). Em comparação com o mesmo período de 2021, quando houve 428 tiroteios, deixando 460 baleados (299 mortos e 161 feridos), este ano houve aumento de 11% nos tiroteios, de 21% nos mortos e de 13% nos feridos.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

Homicídios múltiplos: eventos onde há 2 ou mais mortos civis em uma mesma situação – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc (SSP de SP). 

“Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma ligação, participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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