Em 2020 houve aumento de quase 300% no número de crianças baleadas na Baixada

2020 foi marcado por tragédias e dificuldades. Mas mesmo com medidas de restrição ao avanço do coronavírus, comércio e escolas fechadas, o Fogo Cruzado registrou 4.589 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Apesar de ainda alto, 2020 chegou ao fim com queda de 38% no número de tiroteios em comparação com 2019, quando houve 7.368 disparos – média de 20 por dia. No ano que se passou, houve em média 13 tiroteios por dia no Grande Rio. Também houve redução de 43% na quantidade de tiroteios com a presença de agentes de segurança*: foram 1.287 em 2020 e 2.247 em 2019. 

Neste ano já difícil, a população da região metropolitana teve que lidar com a morte de crianças e idosos, vários atentados à bala contra candidatos às eleições municipais e chacinas.

Ao todo, 1.795 pessoas foram baleadas em 2020: 896 morreram e 899 ficaram feridas. Em comparação com 2019, o número de mortos foi 41% menor (1.522), e o de feridos também reduziu em 34% (1.359). Apesar da queda, a porcentagem de tiroteios sem baleados se manteve igual: foram 74% em ambos os anos.

Veja os destaques de 2020:

  • Número total de tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 4.589
  • Média de tiroteios/disparos de arma de fogo por dia: 13
  • Número total de baleados (mortos + feridos): 1.795
  • Número total de mortos: 896
  • Número total de feridos: 899
  • Dia com mais tiroteios/disparos de arma de fogo: 06/04, com 29 registros
  • Dia com mais mortos: 15/10, com 22 mortos
  • Dia com mais feridos: 04/02, 16 feridos
  • Mês com mais tiroteios/disparos de arma de fogo: Maio, com 505 registros
  • Mês com mais mortos: Outubro, com 124 mortos
  • Mês com mais feridos: Fevereiro, com 117 feridos
  • Mês com o menor número de mortos desde o lançamento do Fogo Cruzado em junho de 2016: Dezembro, com 43 mortos
  • Mês com o menor número de feridos desde o lançamento do Fogo Cruzado em junho de 2016: Junho, com 44 feridos
  • Do total de tiroteios/disparos (4.589), em 74% não houve vítimas (3.403 casos)
  • Do total de tiroteios/disparos (4.589), em 28% houve presença de agentes de segurança (1.287 casos)

Tiros durante a pandemia

Dos 4.589 tiroteios/disparos de arma de fogo no Grande Rio em 2020, 3.565 ocorreram durante a pandemia (entre os dias 14/03, um dia após o Decreto 46.970, e 31/12). Houve participação de agentes de segurança em 922 deles. Ao todo, 1.274 pessoas foram baleadas durante o período de isolamento social: 640 morreram e 674 ficaram feridas. Em 76% dos tiroteios não houve vítimas.

Decisão do STF

O Decreto de 13 de março, com medidas restritivas para combate à pandemia, não foi suficiente para diminuir o impacto da violência armada na rotina da população: os 2 meses após sua publicação foram os mais violentos para a Região Metropolitana do Rio, com 503 tiroteios em abril e 505 em maio. Os 2 foram os meses com mais tiroteios/disparos de arma de fogo no Grande Rio em 2020. 

O trabalho dos voluntários durante a pandemia não ficou imune à violência armada. Por 8 vezes ações policiais interromperam a distribuição de cestas básicas, vitimando 7 pessoas: 5 delas não resistiram e morreram. 

Durante uma operação conjunta das polícias Federal e Civil, em São Gonçalo, o adolescente João Pedro foi morto – em casa. Então, no dia 5 de junho, quase 3 meses após o início da quarentena, o Supremo Tribunal Federal (STF), representado pelo Ministro Edson Fachin, suspendeu operações policiais em favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia – salvo em motivos excepcionais e previamente comunicados. 

Depois da medida, a média diária de tiroteios caiu de 15 para 11. Antes da decisão do STF (entre os dias 1 de janeiro e 5 de junho), houve 2.344 tiroteios no Grande Rio Após (entre 6 de junho e 31 de dezembro), foram 2.245

Seguindo a mudança, a média de mortos e feridos passou de 3 mortos e 3 feridos por dia antes da suspensão das operações policiais para 2 mortos e 2 feridos por dia após a decisão.

Também houve queda na média de tiroteios com a participação de agentes de segurança: caiu de 5 tiroteios por dia para 3

Junho – mês em que entrou em vigor a decisão do STF – foi o mês em que o Fogo Cruzado registrou o menor número de tiroteios com a presença de agentes de segurança desde que começou a operar, em julho de 2016: foram 46, em toda a Região Metropolitana do Rio.

Regiões

A Zona Norte do Rio, com 1.546 registros, concentrou 34% do total acumulado de tiroteios no Grande Rio em 2020 (4.589), sendo a região com mais tiroteios/disparos de arma de fogo. Em seguida, vieram Baixada Fluminense (1.033), Leste Metropolitano (838), Zona Oeste (834), Centro (224) e Zona Sul (114).

Em segundo lugar no ranking entre as regiões com mais tiroteios, a Baixada Fluminense teve o maior número de mortos: foram 293, concentrando 33% do total de mortos por arma de fogo no Grande Rio em 2020 (896).

O Leste Metropolitano, a terceira entre as regiões com mais tiros, concentrou 32% do total de feridos no Grande Rio (899), foram 288.

Municípios

A capital Rio de Janeiro concentrou 59% de todos os disparos de arma de fogo da região metropolitana em 2020: foram 2.718. Na sequência vieram as cidades de São Gonçalo (579), Duque de Caxias (318), Belford Roxo (208) e Niterói (188). A capital também teve o maior número de mortos (313) e de feridos (413).

Bairros

A Vila Kennedy, localizada na Zona Oeste do Rio, foi o bairro do Grande Rio com o maior número de tiroteios em 2020: 319 registros. O bairro esteve em primeiro lugar no ranking em quase todos os meses do ano, ficando atrás somente da Tijuca em outubro. A Vila Kennedy também foi a “campeã” nos tiros em 2019 (376) e 2018 (365), quando foi eleita o “laboratório da intervenção”

Unidade de Polícia Pacificadora – UPP

Dos 4.589 tiroteios/disparos de arma de fogo ocorridos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 2020, 608 foram em áreas com Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Houve participação de agentes de segurança em 148 destes tiroteios e 117 pessoas foram baleadas nessas áreas. Destas, 57 não resistiram aos ferimentos e morreram.

Todas as 21 áreas com UPP** tiveram tiroteios no seu entorno, sendo Complexo do Alemão (121), Complexo da Penha (83), Borel (61), Andaraí (50) e Macacos (37) as mais afetadas.

Leste Metropolitano

O Leste metropolitano, região que é composta pelos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu e Tanguá, concentrou 18% dos tiroteios ocorridos no Grande Rio em 2020 (4.589). Foram 838 tiroteios/disparos que deixaram 578 pessoas baleadas: 290 morreram e 288 ficaram feridas. 

Pelo segundo ano consecutivo, o Leste foi a região do Grande Rio com o maior número de feridos. Apesar disso, houve queda de 37% no número de mortos e de 32% na quantidade de feridos em comparação com 2019, que teve 457 mortos e 423 feridos.

Do total de tiroteios registrados no Leste Metropolitano (838), 69% (579) ocorreram em São Gonçalo – o município da região com mais registros. Em seguida ficaram Niterói (188), Itaboraí (39), Maricá (29) e Tanguá (2) e Cachoeira de Macacu (1).

Entre os bairros do Leste com mais tiroteios/disparos de arma de fogo estão Amendoeira (62), Pacheco (51), Jardim Catarina (47), Colubandê (23) e Ingá (23). O bairro do Ingá, que fica em Niterói, foi o único no topo da lista do Leste Metropolitano que não pertence ao município de São Gonçalo.

Baixada Fluminense

23% dos tiroteios/disparos de arma de fogo que ocorreram na Região Metropolitana do Rio em 2020 (4.589) ocorreram na Baixada Fluminense. A região – que abrange os municípios de Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica – teve 1.033 tiroteios. 

Ao todo, 491 pessoas foram baleadas na região: 293 morreram e 198 ficaram feridas. A Baixada concentrou, pelo segundo ano consecutivo, o maior número de mortos da Região Metropolitana do Rio. Apesar de ainda elevado, houve queda de 41% no número de mortos (495) e 29% no de feridos (278) em comparação com 2019.

Duque de Caxias (318), Belford Roxo (208), Nova Iguaçu (138), São João de Meriti (122) e Mesquita (73), foram as cidades da Baixada Fluminense com mais tiroteios em 2020.

Olavo Bilac (61) e Vila Centenário (25), em Duque de Caxias; Gláucia (21), em Belford Roxo; Vilar dos Teles (17), em São João de Meriti; Bom Pastor (16), em Belford Roxo; e Gramacho (16), em Duque de Caxias, foram os bairros com mais tiros.

Políticos

Em pleno ano eleitoral, 8 políticos*** foram baleados na Região Metropolitana do Rio em 2020: somente 1 sobreviveu. Houve ainda mais 6 atentados contra políticos que não resultaram em vítimas.

Entre as vítimas, 7 foram mortas na Baixada Fluminense, o único político baleado que sobreviveu ao ataque em 2020 foi atingido na Zona Norte do Rio.

Em 2018, também ano eleitoral, 7 políticos foram mortos: 5 na Baixada Fluminense, 1 no Centro do Rio de Janeiro e 1 na Zona Oeste do Rio.

No ano das eleições municipais de 2016, foram 17 políticos baleados: 14 mortos – 12 na Baixada Fluminense, 1 no Leste Metropolitano e 1 na Zona Norte do Rio – e 3 feridos – todos na Baixada.

Agentes de segurança

Em 2020, 142 agentes de segurança**** foram baleados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (54 mortos e 88 feridos). Embora ainda alarmante, o número de baleados é 40% menor que o registrado em 2019 (235 – sendo 74 mortos e 161 feridos). Também houve queda de 27% na quantidade de mortos e de 45% na de feridos.

Do total de mortos em 2020 (54), 13 estavam em serviço, 34 fora de serviço e 7 eram aposentados/exonerados. Entre os 88 feridos, 51 estavam em serviço, 36 fora de serviço e 1 era aposentado/exonerado.

Entre os 74 mortos em 2019, 18 estavam em serviço, 39 fora de serviço e 17 eram aposentados/exonerados. E dos 161 feridos, 83 estavam em serviço, 72 fora de serviço e 6 eram aposentados/exonerados.

Chacinas

Em 2020, houve 44 casos em que 3 ou mais civis foram mortos a tiros em uma mesma situação no Grande Rio*****, o que caracteriza chacina. O número continua alto, mas em comparação com 2019, quando foram registradas 81 chacinas, houve queda de 46% nesses casos.

No total, houve 170 mortos nestas circunstâncias em 2020. Já em 2019, esse número foi 44% maior: foram 303 mortos.

A presença de agentes de segurança nesses eventos foi 47% menor: foram 34 em 2020 (77%) contra 64 (79%) em 2019.

Tiros dentro de casa

Houve 35 casos de tiroteios/disparos de arma de fogo dentro de residências. Em 7 desses casos não houve vítimas e os tiros acertaram a estrutura das casas, mas não atingiram ninguém. 

Ao todo, 31 pessoas foram baleadas quando estavam em casa: 17 delas morreram e 14 ficaram feridas. Entre os mortos, 12 eram homens e 5 mulheres. Entre os feridos, foram 7 homens e 7 mulheres. Em comparação com 2019, houve queda de 77% no número de mortos (75) e 33% no de feridos (21)

Vítimas por faixa etária

Em 2020, 22 crianças (com idade inferior a 12 anos), 40 adolescentes (com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos) e 35 idosos (a partir de 60 anos) foram baleados na Região Metropolitana do Rio. Destes, 8 crianças, 18 adolescentes e 19 idosos morreram. Em 2019, foram 24 crianças, 89 adolescentes e 42 idosos baleados, dos quais, 7 crianças, 53 adolescentes e 35 idosos morreram.

Balas perdidas

123 pessoas foram atingidas por balas perdidas****** na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 2020: 26 delas morreram e 97 ficaram feridas. Em comparação com 2019 (188), houve queda de 51% na quantidade de mortos (53) e de 28% na de feridos (135).

Motivos

Dos 4.589 tiroteios/disparos de arma de fogo ocorridos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 2020, foi possível identificar a motivação, através da imprensa e registros policiais, em 1.493 deles (33%). 

Ação/operação policial (932), homicídio/tentativa, (229), roubo/tentativa de roubo (193), ataque a civis (44) – ataques a tiros a estabelecimentos civis como lojas, bares, pontos de ônibus, etc. – e “Guerra” (38) – nome dado pela imprensa a disputas entre facções e/ou milicianos – foram os principais motivos dos disparos.

Vias e modais de transporte afetados

Em 2020, 437 tiroteios/disparos de arma de fogo ocorreram em um raio de até 100 metros de corredores de transportes da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

No ranking entre as vias e modais de transporte mais afetados por tiroteios no seu entorno ficaram as rodovias (296), trens (121), BRT (108), Metrô (42) – somente a parte não subterrânea da Linha 2 do metrô, entre a Cidade Nova e a Pavuna –, e VLT (3). 

A BR-101 – que inclui a Avenida Brasil, além de ter em seu trecho no Leste Metropolitano uma ligação entre Niterói e Manilha – com 104 registros, foi a rota mais afetada. Em seguida, vieram o BRT TransBrasil (56), o BRT TransCarioca, que liga a Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional, com 54 registros; o Metrô – Linha 2 (superfície), com 53 registros; e o trem do ramal de Saracuruna (47). 

Unidades de saúde afetadas

34% (1.556) dos tiroteios/disparos de arma de fogo mapeados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (4.589) em 2020 ocorreram no entorno de unidades de saúde públicas e privadas. Média de 4 tiroteios por dia nessas áreas.

Ao todo, 1.742 das 4.190 unidades de saúde existentes no Grande Rio foram afetadas pelos tiros disparados em um raio de até 300 metros do seu entorno, o que representa 42% das unidades afetadas.

Rio de Janeiro (916), São Gonçalo (192), Niterói (112), Duque de Caxias (86) e Nova Iguaçu (61) foram os municípios com mais tiros no entorno de unidades de saúde.

Os bairros com mais tiros próximos das unidades foram Vila Kennedy (256), Tijuca (86), Pacheco, em São Gonçalo (38), Copacabana (36) e Maré (35). 

Tiros em áreas de grupos armados

44% dos tiroteios no Grande Rio em 2020 ocorreram em áreas com a presença de grupos armados: foram 2.020 registros nessas regiões. Em 587 deles (29%) houve presença de agentes de segurança.

As áreas com presença do Comando Vermelho tiveram mais tiroteios (1.350), seguido do Terceiro Comando Puro (432), Milícias (198) e Amigos dos Amigos (40).

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* Presença de Agentes: Situações em que são percebidas a presença de agentes de segurança durante o tiroteio/disparo. Exemplo: Operação, Ação, Assalto a agentes etc.

** Algumas UPPs, por serem muito próximas, têm seus números agregados neste relatório, em razão da dificuldade de distinguir alguns eventos entre elas. São elas: Complexo do Alemão (que abarca as 3 UPPs daquele bairro), Complexo da Penha (Composto também por 3 UPPs na região da Penha, Olaria e Penha Circular) e Complexo de Manguinhos (Inclui Manguinhos e Arará/Mandela).

*** Utilizado quando há políticos vítimas de disparos de arma de fogo (tenham eles sido baleados ou não – atentados mal sucedidos contam). Entenda-se por políticos: (i) pessoas que estão em cargos eletivos; (ii) pessoas que já tiveram cargos eletivos; (iii) pessoas que já concorreram a cargos eletivos mas não ganharam; (iv) pré-candidatos e candidatos a cargos eletivos; (v) assessores ou pessoas que ocupam cargos de confiança de políticos eleitos; (vi) cabos eleitorais declarados.

**** Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

***** Eventos onde há 3 ou mais mortos civis em uma mesma situação: chacinas – mesmo que o motivo dos disparos seja outro, como: assalto, ataque, operação etc.****** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

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