Em cinco anos, Instituto Fogo Cruzado registrou mais de 40 mil tiroteios nas regiões metropolitanas do Rio e Recife

Um ambiente para monitorar a violência armada e dimensionar o impacto dela na sociedade, este foi o primeiro objetivo do Fogo Cruzado. Idealizado em 2015 para suprir a ausência de informações sobre violência armada no Rio de Janeiro e impulsionar o debate sobre segurança pública, o projeto saiu do papel alguns meses depois. Com apoio da Anistia Internacional, o Fogo Cruzado nasceu dentro da campanha “A violência não faz parte desse jogo”, lançada às vésperas dos jogos olímpicos de 2016, e tornou-se independente há três anos. 

O Instituto Fogo Cruzado usa tecnologias abertas e colaborativas para tornar as cidades mais seguras, promover a transformação social, enfrentar a violência armada e, assim, salvar vidas. Atualmente, o Instituto Fogo Cruzado possui a única base de dados aberta sobre violência armada na América Latina e disponibilizamos 20 indicadores inéditos sobre o tema para as regiões metropolitanas do Rio e de Recife. Através do aplicativo (disponível para IOS e Android) e das redes sociais, o usuário, colaborativamente, envia informações sobre tiroteios e recebe alertas, em tempo real, sobre essas ocorrências. 

Por ser até então pouco documentado, também não era muito falado que essa violência, além de sua face mais cruel que é a morte, gera também impactos desastrosos na rotina dos cidadãos. Quem mora nas áreas mais afetadas pela violência armada enfrenta desde a suspensão das aulas, o fechamento de postos de saúde até o bloqueio de vias públicas causando prejuízos que não são quantificados. As pessoas recebem a informação e isso permite que elas tomem decisões sobre seu dia a dia.

Por isso, uma ferramenta como o aplicativo disponibilizado pelo Fogo Cruzado funciona como uma proteção social. As informações produzidas ajudam a pressionar  autoridades a adotar políticas de segurança pública que priorizem e poupem vidas. 

O Fogo Cruzado iniciou sua trajetória apenas na  Região Metropolitana do Rio de Janeiro e dois anos depois, em 2018, desembarcou em Pernambuco. O Instituto passou a acompanhar também a rotina da Região Metropolitana do Recife, onde atua em parceria com o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares, o Gajop

O resultado, hoje, é uma organização com uma metodologia sólida, um aplicativo que emite alertas em tempo real e uma base de dados que já contabiliza mais de 40 mil tiroteios nas Regiões Metropolitanas do Rio e do Recife. Estas informações estão disponíveis de forma aberta e gratuita em nossa API

Caminho de lutas e vitórias

O que não faltam são motivos para o Fogo Cruzado comemorar no que diz respeito à sua atuação. É que, mais do que números, as informações compartilhadas podem favorecer a criação e a implantação de políticas públicas para salvar vidas e tornar a rotina da população mais segura. 

O banco de dados do Fogo Cruzado permitiu saber que Kathlen Romeu não foi a única grávida morta a tiros no Grande Rio, assim como a pequena Ágatha Felix, de 8 anos, não foi a única criança morta em uma ação policial. Elas fazem parte das 25 grávidas e mais de 130 crianças, vítimas da violência armada, registradas nos cinco anos de monitoramento do Fogo Cruzado no Rio de Janeiro e em Pernambuco.

“Mostramos que estes casos não são exceções. Não existem 130 casos isolados. Não existem 25 exceções. O que acontece é fruto de escolhas políticas colocadas em prática numa (anti) política de segurança que coloca a população em risco. Não há estratégia, não há preocupação com quem mora em áreas desfavorecidas. Ou então esta é a estratégia. E isso não pode ser aceito. As vidas de pessoas que moram em bairros onde há mais violência armada – que são majoritariamente negras e pobres – importam”.

Afirma a fundadora e diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira.

Que diferença fazemos no Brasil

A partir de dados do Fogo Cruzado, foi sancionada a Lei Municipal 6.609/2019, que garante aos diretores de escolas a suspensão das aulas durante tiroteios para preservar a integridade física dos funcionários, professores e alunos. 

Em 2020, com base em um estudo realizado pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com Fundação Getúlio Vargas entre 2016 e 2017, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que helicópteros da polícia, também conhecidos como “caveirões aéreos”, não mais sobrevoassem escolas.

Neste mesmo ano, dados do Fogo Cruzado serviram de base para a ADPF 635 (ADPF das Favelas), do Supremo Tribunal Federal, que proibiu operações policiais não urgentes em favelas durante a pandemia da COVID-19. Em maio de 2021, o Fogo Cruzado participou, ao lado de outras organizações e movimentos sociais, da Audiência Civil Pública realizada pelo STF para discutir estratégias de redução da letalidade policial no Rio de Janeiro no âmbito da ADPF 635.

Cecília Olliveira argumentou que “o impacto da violência armada é muito mais abrangente do que os registros criminais mostram e os dados do Fogo Cruzado permitem essa análise expondo os limites e problemas das decisões a respeito das políticas de segurança adotadas”. 

Para ela, as instituições públicas, quaisquer que sejam, funcionam tão bem quanto funcionarem os mecanismos de monitoramento externo a elas. “Desvios fazem parte da natureza humana. Por isso, o controle que a participação popular e democrática oferece é tão importante. No caso das nossas instituições de segurança, o espaço para acompanhamento é muito pequeno, a disponibilidade de dados é escassa e o acesso à Justiça é restrito àqueles que mais precisam”, completou.

Reconhecimento Nacional e Internacional

Seja para alertar sobre tiroteios em tempo real ou para informar sobre ruas interditadas e transportes com a circulação suspensa em decorrência de operações policiais, o Fogo Cruzado, através do aplicativo e das suas redes sociais, já auxiliou milhares de vezes a população a sair da linha do tiro.

Todo o esforço para manter as informações atualizadas segue sendo reconhecido. Prova disso é que em 2018, o Fogo Cruzado ficou em terceiro lugar no 7° Prêmio Amaerj Patrícia Acioli de Direitos Humanos na categoria “Práticas Humanísticas” e em 2020, conquistou a mesma posição no 8° Prêmio República de Valorização do Ministério Público Federal na categoria “Responsabilidade Social”, entre seus temas a “Participação Comunitária”. Foi ainda duas vezes finalista no Sigma Awards Projects Database, premiação internacional voltada para jornalismo de dados – a primeira em 2018, concorrendo com a API na categoria “Dados Abertos” e em 2019 com a iniciativa Mapa dos Grupos Armados.

A iniciativa e o conteúdo produzido pelo Fogo Cruzado também circulam internacionalmente, como por exemplo, no evento paralelo da 39ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Lá, foram expostas as violações de direitos humanos ocorridas durante a intervenção federal no Rio de Janeiro, em 2018. Dados apresentados mostraram a ineficácia da ação. Naquele ano houve quase 10 mil tiroteios no Grande Rio. Também foi citado no Atlas of Innovation for Economic Stability, que seleciona as inovações mais interessantes e pioneiras já implementadas em todo o mundo.

Cada vez mais consolidada como uma instituição que preza pela segurança e pela transparência de informações, com  tecnologia, metodologia e inovação, o Fogo Cruzado cuida para que os dados estatísticos de interesse comum sejam disponibilizados aberta e gratuitamente e favoreçam a criação de políticas públicas que melhorem e poupem a vida das pessoas. Mais do que proteger, o trabalho do Fogo Cruzado quer que as histórias resistam, sejam contadas pelos seus próprios autores. Quem produz os dados e escolhe quais indicadores serão disponibilizados, opta estrategicamente pelo que será pautado no debate público. E isso não pode ser decisão política de cima para baixo, precisa ser uma decisão da qual a sociedade faça parte. 

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