Psicólogo e técnico do Gajop, Romero Silva avalia que falta de políticas públicas de proteção e acesso facilitado às armas têm ceifado a vida de crianças e adolescentes da região

Seja nas ruas do Centro da velha capital, seja em bairros e favelas de outras cidades do entorno, na Região Metropolitana do Recife não há qualquer garantia sobre o futuro de crianças e adolescentes, assim como em boa parte das metrópoles brasileiras. A violência armada destroça famílias e interrompe a vida de jovens todos os anos, como mostra o último Relatório Anual do Instituto Fogo Cruzado: 8 crianças e 108 adolescentes foram baleados ao longo de 2021 no Grande Recife.

Romero Silva, psicólogo e técnico do (Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares), alerta que não garantir a vida e o bem-estar dos jovens é jogar fora premissas básicas do Estatuto da Criança e do Adolescente. “Essas questões apontadas pelo Relatório do Fogo Cruzado representam o resultado das diversas violações de direitos. Nós temos o sistema de garantia de direitos no Estatuto da Criança e do Adolescente, mas na prática não há qualquer perspectiva de proteção a esses jovens”, avalia o especialista.

No recorte entre os mais novos da população, o grupo entre 12 e 17 anos são os principais alvos das balas. Somente em 2021 foram 70 adolescentes mortos –  é como se um adolescente fosse morto a tiros a cada cinco dias no Grande Recife. Os municípios com mais adolescentes mortos foram Recife (28), Jaboatão dos Guararapes (12) e Cabo de Santo Agostinho (11). Não é por acaso que o Cabo chegou a ser apontado como o pior lugar do país para ser jovem.

Diferentemente das crianças, quase vítimas de balas perdidas, a alta taxa de adolescentes baleados e mortos está relacionada com homicídios e tentativas, em que muitas vezes eles eram, de fato, o alvo do ataque. Para Romero, o poder público, que deveria trabalhar para prevenir esse tipo de situação, não age em tempo para proteger a vida e o futuro dessa juventude, ou quando o faz, é sem o cuidado que um jovem em desenvolvimento precisa ter. 

“Temos é uma política de proteção para crianças e adolescentes que são ameaçados de mortes, mas não há uma política de prevenção. Existe um trabalho emergencial de última instância que é oferecido para esse adolescente não ser morto e  para protegê-lo, acaba também violando-o: é retirado de sua localidade e da convivência familiar”.

O número de adolescentes baleados subiu 23% em 2021, em comparação com 2020. O pesquisador acredita que a política do governo federal de facilitar o acesso às armas de fogo equipou grupos armados nas favelas e periferias das cidades, inclusive na Região Metropolitana do Recife. Com mais armas nas ruas, mais conflitos acontecem; com mais conflitos, mais adolescentes são mortos.

“A política estabelecida pelo governo federal de facilitação do acesso às armas de fogo tem sido um dos fatores significativos para o crescimento da violência armada. Percebemos uma maior circulação de armas, principalmente dentro das comunidades. Daí, os conflitos entre grupos rivais, sobretudo na região metropolitana, têm se potencializado a partir desse poder bélico”, afirma Romero. “Esse poder não está relacionado à qualidade das armas, mas o acesso facilitado e ilegal a elas. Isso tem aumentado o número de adolescentes vítimas da violência”, completa.

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