Entre julho de 2016 e junho de 2017, o aplicativo Fogo Cruzado identificou 5.345 tiroteios/disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro através de notificações de usuários da plataforma colaborativa, de notícias de imprensa e de boletins policiais. Foram mais de 14 tiroteios registrados por dia, em média, com cerca de 1.425 feridos e 1.349 mortos entre policiais e civis. Essa cifra assustadora permite, pela primeira vez, começar a compreender com números um tipo de violência que há muito afeta a população carioca e fluminense, mas para a qual não havia dados oficiais.

A existência de conflitos armados no Rio de Janeiro, especialmente na sua capital, infelizmente, não é algo novo. Embora não seja o único fator que explica esse fenômeno, o domínio armado de parcelas do espaço territorial por grupos criminosos, o grande número de armas em circulação e o modelo de enfrentamento ao tráfico de drogas adotado pelo governo local tornou os tiroteios um dado da realidade cotidiana. Ao longo de muitos anos, foi comum — especialmente para os cariocas, mas não apenas — se deparar com notícias de operações policiais em favelas que deixaram para trás um rastro de mortos em decorrência de alegados confrontos. Nas últimas três décadas, uma série de políticas de segurança se sucederam, reforçando esse fenômeno ou buscando superá-lo. No final de 2008, enfim, a proposta das Unidades de Polícia Pacificadora acenou com a possibilidade de desnaturalizar a condição de “território deflagrado” do Rio de Janeiro. No entanto, após um breve período em que, na capital, a existência cotidiana de tiroteios parecia superada, e menos de 10 anos após a instalação das primeiras UPPs, os conflitos armados nas ruas voltam a assustar a população carioca e fluminense.

Este estudo dá continuidade à parceria entre a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP) e o Fogo Cruzado — inaugurada com o trabalho “Educação em Alvo: os efeitos da violência armada nas salas de aula”, lançado em julho deste ano —, e inicia uma série de estudos que visa explorar outros ângulos da violência armada que afeta a população do Rio de Janeiro.

Veja também:
Íntegra da pesquisa “Efeitos da Violência Armada nas Salas de Aula
Mapas de escolas e creches municipais x áreas de tiroteios/disparos de arma de fogo
Número de escolas/alunos atingidos pela violência armada na cidade do Rio

No estudo Crise na Segurança – incidência de tiroteios e indicadores criminais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, foi possível notar que:

● Quase 72% dos tiroteios/disparos de arma de fogo registrados pelo Fogo Cruzado ocorreram na capital, seguida pela Baixada Fluminense com 14%;

● Números do ISP apontam que Baixada Fluminense e a cidade do Rio de Janeiro registraram aumentos de 15% e 14%, respectivamente, nos registros de homicídios dolosos na comparação entre o primeiro semestre de 2017 com o primeiro semestre de 2016;

● Os roubos de veículos estão crescendo rapidamente em todo o estado. No primeiro semestre de 2017, 80% dos registros deste tipo de crime foram registrados na capital e na Baixada. A Região Metropolitana concentrou 96% das ocorrências;

● O primeiro semestre de 2017 apresentou um aumento de 35% nos roubos de veículo na capital, 14% na Baixada Fluminense, e 22% na Grande Niterói e no interior do estado quando comparado ao semestre anterior.

Em maio de 2017, a FGV/DAPP lançou um estudo inédito analisando a evolução dos principais indicadores de criminalidade ao longo de 10 anos no Rio de Janeiro — Retrato do Espalhamento da Mancha Criminal no Estado do Rio de Janeiro. A pesquisa trouxe como principal conclusão a constatação de que, entre 2006 e 2016, a mancha criminal do estado ampliou-se consideravelmente. Os marcadores de violência, que antes se concentravam sobremaneira na capital, espalharam-se, agravando consideravelmente as condições de segurança, principalmente, na Baixada Fluminense e em municípios do interior.

Passados seis meses do último dado coletado para a pesquisa mencionada, a situação de segurança continua se deteriorando em todo o estado, como podemos perceber na evolução de agregados semestrais apresentada a seguir.

Tabela 1

O primeiro semestre de 2017 apresentou um aumento de 35% nos roubos de veículo na capital, de 14% na Baixada Fluminense, e de 22% na Grande Niterói e no interior do estado, quando comparado ao semestre anterior. De forma semelhante, com exceção do interior, que registrou queda de 5%, todas as regiões apresentaram aumentos significativos nos registros de homicídios dolosos nos últimos 6 meses — 24% na região da Grande Niterói, 13% na capital e 6% na Baixada. Ainda, se compararmos o primeiro semestre de 2017 com o primeiro semestre de 2016, a Baixada Fluminense e a cidade do Rio de Janeiro viveram aumentos de 15% e 14%, respectivamente, em seus registros de homicídios dolosos, bem como mantiveram-se responsáveis, conjuntamente, por 80% dos roubos de veículos no estado.

Esses números apresentam um cenário previsto no citado estudo da FGV/DAPP e que agora se confirma. A mancha criminal se espalhou nos últimos anos, tornando mais complexas e custosas as estratégias de contenção da mesma em decorrência do agravamento das condições de segurança pública em múltiplas cidades — a concentração das forças em uma determinada área não é mais capaz de proporcionar uma melhoria geral nos indicadores. Agora, a situação torna-se ainda pior com o rápido crescimento dos indicadores de violência também na capital, onde os marcadores mantinham-se mais estáveis, e os ganhos obtidos nos últimos anos estão sendo revertidos.

Nesse sentido, é preciso dedicar um olhar mais detalhado para a Região Metropolitana do estado, que inclui a capital, a Baixada Fluminense e a Grande Niterói. Comparando o primeiro semestre de 2017 com o mesmo período de 2016, é possível notar um aumento de, aproximadamente, 13% no número de homicídios dolosos e 41% nas ocorrências de roubo de veículos.

Ademais, dados do último ano coletados pela plataforma colaborativa Fogo Cruzado — criada em julho do ano passado — mostram que a região acumulou ao menos 5.306 tiroteios, mais de 14 por dia. Após um trabalho de consolidação dos dados georreferenciados coletados pela plataforma, a FGV/DAPP constatou sua extrema concentração na cidade do Rio de Janeiro (72%), seguida pela Baixada Fluminense (14%). Ainda que esta concentração possa estar enviesada pela maior participação da população dessas áreas no aplicativo — visto que uma das principais fontes de coleta de dados é o engajamento colaborativo dos usuários —, a existência desses dados tornou-se fato inovador e essencial para a compreensão das dinâmicas de violência no Estado e, mais especificamente, na Região metropolitana.

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Em virtude disso, este trabalho se presta a analisar as dinâmicas de violência presentes na região. Tendo em vista o retorno dos tiroteios como uma realidade cotidiana para a capital e para outros municípios da Região Metropolitana, cruzaremos informações sobre tiroteios/disparos de armas de fogo compiladas e disponibilizadas pelo aplicativo Fogo Cruzado com informações sobre indicadores de criminalidade fornecidos pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) para o mesmo período. Cruzaremos, portanto, os índices de violência e criminalidade na região com as referências a tiroteios para a mesma área, oferecendo um panorama da violência nesse território.

A Região Metropolitana

A Região Metropolitana é composta pelos municípios de Rio de Janeiro, São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Niterói, Belford Roxo, São João de Meriti, Magé, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Maricá, Queimados, Itaguaí, Japeri, Seropédica, Rio Bonito, Guapimirim, Cachoeiras de Macacu, Paracambi e Tanguá. O IBGE estima que, em 2016, a população dessa área era de aproximadamente 12.330.186 pessoas, ou seja, quase 74% da população do estado reside nos municípios citados acima. Destes municípios, sete têm mais de 300 mil habitantes, oito têm de 100 mil a 300 mil habitantes, e apenas seis têm menos de 100 mil habitantes.

Como área que concentra grande parte da população do estado, a Região Metropolitana acumula também parcela considerável de problemas associados ao cotidiano das grandes zonas urbanas, como a criminalidade. Entre janeiro e junho de 2016, aconteceram 18.907 ocorrências de roubos de veículos na região, sendo que no estado foram computados 19.633, ou seja, 96% dos roubos deste tipo no estado do Rio de Janeiro aconteceram na Região Metropolitana. O mesmo comportamento foi averiguado para o primeiro semestre de 2017. No estado, foram contabilizados 27.534 roubos de veículos, sendo que 26.669 aconteceram apenas na Região Metropolitana do Rio, mantendo a mesma proporção de roubo dos primeiros seis meses de 2016 para o primeiro semestre de 2017, com o agravante de que a ocorrência do fenômeno aumentou em 41% na Região Metropolitana na comparação entre os períodos.

Os números de homicídios dolosos também seguem essa tendência preocupante, apresentando 13% de aumento na região na comparação entre os primeiros semestres de 2016 e 2017. No primeiro semestre de 2016, do total de homicídios dolosos cometidos no estado, aproximadamente 73% aconteceram na Região Metropolitana. Já nos primeiros seis meses de 2017, mais de 75% deste tipo de crime foram cometidos nessa mesma região.
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Mas, chamar atenção para o fato de que a Região Metropolitana tem que ser um foco prioritário das políticas de segurança em razão da concentração populacional nessa área, de suas fronteiras internas fluídas e da sua participação na mancha criminal, não implica dizer que a região é afetada de forma homogênea. Pensar uma política pública metropolitana de segurança pública demanda compreender quais áreas são mais afetadas em termos absolutos e em termos relativos, como mostram os gráficos a seguir.

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A partir do mapa da distribuição de tiroteios na Região Metropolitana conforme registrados pelo Fogo Cruzado, selecionamos os municípios com maior incidência de notificações de trocas de tiros para traçar um perfil mais aprofundado dos indicadores oficiais de criminalidade — como os apresentados no ranking —, que exploraremos a seguir. Serão analisados os dados do Rio de Janeiro (capital), São Gonçalo, Niterói e Duque de Caxias — em razão de seu destaque em termos absolutos — e Japeri, devido à taxa de notificação por 10 mil habitantes alcançada.

A Capital

No período analisado — 01 de julho de 2016 a 30 de junho de 2017 —, o Rio de Janeiro foi o município que acumulou a maior quantidade de notificações de tiroteios no aplicativo Fogo Cruzado. Foram 3.829 casos registrados, quase 72% do total. Mesmo quando ponderamos as notificações pela população dos municípios, a capital foi a área que mais registrou tiroteios no aplicativo, alcançando a taxa de 5.89 notificações a cada 10 mil habitantes.

Mas o Rio não foi apenas o líder em termos de tiroteios. Nesse período, a cidade registrou a maior quantidade de roubo de veículos e de homicídios dolosos em termos absolutos — embora quando ponderado pela taxa por 10 mil habitantes o município tenha ficado melhor posicionado, em 12° e 18° lugar, respectivamente, dentre os 21 municípios da Região Metropolitana.

Por ser a capital do estado e, em consequência, acumular parcela significativa da população e da produção econômica, é de se esperar que o Rio concentre parcela também significativa dos problemas de violência do estado, sendo, por isso, líder em números absolutos de roubos de veículos, roubo a transeuntes, homicídios dolosos e mesmo pessoas desaparecidas. No entanto, como colocamos em estudo anterior da FGV/DAPP, na última década a cidade viu seus indicadores de violência melhorarem, especialmente quando comparados aos do restante do estado — situação que marcava o espalhamento da mancha criminal.

É importante, no entanto, agora, olhar para os números do último semestre da cidade do Rio, ainda que quando ponderados pela população os indicadores permaneçam entre os melhores da Região Metropolitana.

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O gráfico anterior demonstra uma deterioração significativa dos indicadores de segurança da capital. Entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro de 2017, observa-se um aumento de 13% nos homicídios dolosos, e este aumento é ainda maior quando se comparam os primeiros semestres dos dois anos, alcançando 14% de aumento. Os roubos de veículos apresentaram elevação ainda mais significativa. O último semestre apresentou aumento de 35% de casos em relação ao semestre anterior e de 38% em relação ao primeiro semestre de 2016. A deterioração em ambos esses indicadores dialoga com o alto registro de tiroteios captado pelo aplicativo Fogo Cruzado no último ano, na cidade do Rio, apontando para um cenário de escalada da violência armada na região não ligada à sazonalidade de crimes.

Por outro lado, os registros de roubos a transeuntes e pessoas desaparecidas tiveram queda entre janeiro e junho de 2017 — 4% e 29%, respectivamente, em relação ao semestre anterior. No entanto, é preciso lembrar que houve uma greve na polícia civil no início de 2017 que pode ter levado à subnotificação destes crimes. A mesma preocupação não se verifica com relação aos dados de homicídios dolosos e roubos de veículos por serem crimes de menor subnotificação devido a sua natureza: o primeiro tem como importante fator o custo de uma eventual ocultação de cadáver e de provas, e o segundo pela necessidade do registro de ocorrência para acionar as seguradoras de carros.

Outra questão importante para compreender as condições de segurança no município do Rio de Janeiro é olhar para a concentração espacial da mesma. O mapa a seguir apresenta os tiroteios registrados entre julho de 2016 e junho de 2017 na capital. Podemos perceber concentrações significativas na Zona Norte da cidade — com destaque para o Complexo do Alemão, da Maré e da Penha — bem como uma concentração na região da Cidade de Deus.

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A concentração da ocorrência de crimes em determinadas áreas também foi observada pelo ISP, que constatou que metade dos roubos de rua registrados na Região Metropolitana em 2016 ocorreu em apenas 2% do território desta região. Tendência semelhante também pode ser vista com relação às mortes violentas por arma de fogo em 2016, apresentada no mapa a seguir, para a capital.

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Nesse sentido, ainda que seja possível observar um espalhamento dos crimes entre os municípios, dentro deles as ocorrências tendem a estar concentradas. Ainda mais interessante é notar que, embora não abarquem períodos idênticos — o Fogo Cruzado representa o segundo semestre de 2016 e o primeiro de 2017, e o ISP representa o ano de 2016 — ambos os mapas apresentam concentrações espaciais muito semelhantes, sendo o primeiro de tiroteios e o seguinte de violência letal causada por arma de fogo.

De forma consonante ao mapa de mortes violentas por arma de fogo apresentado anteriormente, as regiões da 39ª DP (Acari, Barros Filho, Costa Barros, Parque Colúmbia e Pavuna), e da 34ª DP (Bangu, Gericinó, Padre Miguel e Senador Camará) registraram o maior número de homicídios dolosos, com, respectivamente, 128 e 108 registros entre julho de 2016 e junho de 2017 — mesmo período analisado na base do Fogo Cruzado. Considerando as 42 DPs da capital, estas duas citadas concentram 17% dos homicídios dolosos da região. Por sua vez, os casos de pessoas desaparecidas, que em muitos casos podem estar associadas a homicídios, estão concentrados na área da 36ª DP (Paciência e Santa Cruz), com 212 ocorrências no mesmo período — ou 9% do total das ocorrências da capital.

Complementando este cenário, a representação destas áreas nos registros do Fogo Cruzado aponta para direção próxima a dos dados oficiais. A região da 39ª DP contabilizou pelo menos 179 tiroteios, dos quais decorreram pelo menos 47 vítimas (44 civis e 3 agentes de segurança) e 58 feridos (54 civis e 4 agentes de segurança). A 34ª DP, por sua vez, contabilizou 177 tiroteios, com 36 notificações de vítimas (30 civis e 6 agentes de segurança) e 68 notificações de feridos (55 civis e 13 agentes de segurança). Se somados os bairros de Bangu e Vila Kennedy — dentre os quais ainda há notificações trocadas em razão da recente separação oficial em dois bairros —, apareceriam conjuntamente como uma das regiões de maior destaque dentre as notificações recebidas pelo Fogo Cruzado: 5° lugar no ranking de tiroteios do período (143) e de vítimas civis (21), 2° no acumulado de civis feridos (40) e 3° no de agentes de segurança feridos (10).

No que diz respeito aos roubos de veículos, modalidade de atividade criminal em que muitas vezes são utilizadas armas de fogo, a 40ª DP (responsável pelos bairros de Coelho Neto, Honório Gurgel, Rocha Miranda e por parte do bairro de Colégio) lidera no ranking da quantidade de ocorrências, com 1.962 casos de roubo de veículos entre julho de 2016 e junho de 2017 — representando 8,5% do total de veículos roubados na capital neste período.

São Gonçalo

O município de São Gonçalo foi o segundo que mais registrou tiroteios no aplicativo Fogo Cruzado entre julho de 2016 e junho de 2017. Foram 316 — pouco mais de 3 por 10 mil habitantes —, com registros de 120 vítimas (113 civis e 7 agentes de segurança), além de 113 feridos. São Gonçalo foi também o segundo município a registrar mais vítimas civis e feridos no aplicativo.

Nesse mesmo período, no que diz respeito aos indicadores oficiais de criminalidade, São Gonçalo apresentou um desempenho bastante ruim no que diz respeito aos roubos de veículos. Dentre os municípios da Região Metropolitana, ficou em 2° no ranking em termos absolutos, com 5.306 ocorrências, e em 4° lugar quando considerada a taxa ponderada a cada mil veículos da frota municipal — uma taxa de, aproximadamente, 18 veículos roubados para cada 1 mil em circulação. O município ficou novamente em 2° dentre os municípios da região que mais registraram roubos a transeuntes, com 9.668 ocorrências, e em 3° quando ponderados esses roubos pela população do próprio município — uma taxa de 92 roubos para cada dez mil habitantes.

Com relação aos crimes contra a pessoa, São Gonçalo ficou em 4° lugar no registro de homicídios dolosos, com 330 casos, e em 3° no de pessoas desaparecidas, com 275 ocorrências, quando observados os números absolutos — ponderando pela população, essa colocação cai para o 15° no caso de homicídios e para 14° lugar no caso de pessoas desaparecidas. A melhor colocação deste município no ranking de crimes contra a pessoa — e em especial contra a vida — não deve, contudo, amenizar o aumento da violência letal que a cidade enfrentou no último semestre.

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Após um período de queda nos homicídios dolosos entre o primeiro e o segundo semestre de 2016, São Gonçalo viu esse tipo de registro crescer 29% entre o último semestre de 2016 e o primeiro de 2017, e 6% se comparados os primeiros semestres de ambos os anos. O roubo de veículos, por sua vez, vem apresentando elevação persistente ao longo dos últimos três semestres — 11% entre o primeiro e o segundo semestres de 2016, 20% entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro de 2017, e 33% na comparação entre os primeiros semestres de 2016 e 2017, apontando para um crescimento independente de sazonalidade deste tipo de crime.

Novamente, os registros de roubos a transeuntes e de pessoas desaparecidas apresentaram reduções — ainda mais significativas que a capital. Nesse caso, assim como para os outros, a ressalva acerca da greve da polícia civil precisa servir de alerta para uma provável subnotificação desse tipo de crimes.

Também de forma semelhante ao que ocorre na capital, a violência armada identificada pelo aplicativo Fogo Cruzado está bastante concentrada em áreas específicas da cidade de São Gonçalo, especialmente nos bairros de Camarão, Jardim Catarina e Itaúna com pelo menos 33, 31 e 25 tiroteios, respectivamente.

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O bairro de Camarão ainda lidera os rankings de vítimas (pelo menos 9 civis e 2 agentes de segurança) e feridos (pelo menos 21 civis e 1 agente de segurança). Itaúna, que ficou em 3° lugar no ranking de tiroteios mapeados pelo Fogo Cruzado em São Gonçalo, também registrou 9 vítimas civis, assim como Camarão, além de mais 2 civis feridos. A 73ª DP, que atende a ambos os bairros, registrou 75 homicídios dolosos e 1.390 roubos de veículos no período.

Interessante notar, que a 73ª DP não foi a de maior destaque no período em São Gonçalo. Quando observamos a concentração de ocorrências criminais entre julho de 2016 e junho de 2017 pela base do ISP, notamos que a região com maior número de homicídios e pessoas desaparecidas no município de São Gonçalo é a área da 74ª DP, responsável entre outros bairros pelo Jardim Catarina, com respectivamente, 138 e 97 ocorrências. Juntas, essas duas DPs (das quatro presentes no território do município) concentram 64,5% dos registros de homicídios dolosos em São Gonçalo. Já os números de roubos a transeuntes e de veículos estão concentrados na área da 72ª DP, com 3.259 e 1.526 casos, respectivamente.

 Niterói

Além dos casos citados acima, a situação de Niterói também merece atenção. Foi o terceiro município que mais notificou tiroteios ao aplicativo Fogo Cruzado em termos absolutos (233 ao todo) e relativos (4.7 notificações a cada 10 mil habitantes).

Dentre os indicadores oficiais de criminalidade, a situação do município é um pouco melhor quando comparada ao resto do estado — em números absolutos, 9° lugar nos homicídios dolosos, com 98 casos, e 6° nos roubos de veículos, com 1791 ocorrências. Quando ponderado pela população e frota de veículos, o município cai para 19º e 13° respectivamente, com taxas de pouco menos de dois homicídios para cada 10 mil habitantes e aproximadamente 7 veículos roubados para cada 1 mil da frota.

No entanto, ao observar a evolução recente dos indicadores, percebem-se deteriorações significativas. O gráfico abaixo apresenta um aumento 37% nos roubos de veículos entre o primeiro semestre de 2016 e o primeiro semestre de 2017, e um aumento de 25% entre o primeiro semestre de 2017 e o segundo de 2016.

T10

Por outro lado, as ocorrências de homicídios dolosos mostram oscilação. Entre o primeiro e o segundo semestres de 2016, houve uma queda de 24%, ao passo que no semestre seguinte a curva volta a crescer, subindo 9%. Na comparação entre os primeiros semestres de 2016 e de 2017, no entanto, o saldo foi positivo, com redução de 18%.

No caso de Niterói, apesar de o município não concentrar os piores indicadores oficiais de violência, como Rio de Janeiro e São Gonçalo, chama atenção a concentração significativa dos registros de tiroteios na cidade. Segundo o aplicativo Fogo Cruzado, os tiroteios ocorridos em Niterói se concentram em duas áreas específicas da cidade: em Santa Rosa e no Fonseca, com pouco menos de 50 tiroteios cada um, seguidas pelo Centro — com cerca de 26.

T11

De forma semelhante ao que observamos para a capital, o mapa com dados do ISP de mortes violentas provocadas por arma de fogo no ano de 2016, apresenta distribuição espacial bastante semelhante ao mapa que apresenta notificações de tiroteios ao aplicativo Fogo Cruzado no segundo semestre de 2016 e primeiro de 2017. Ambos os mapas, apresentam um panorama de violência com armas de fogo com maior concentração no oeste da cidade do que em outras regiões.

T12Segundo colocado no acúmulo de tiroteios notificados ao Fogo Cruzado, o bairro do Fonseca foi o que registrou o maior número de vítimas (ao menos 13 civis e 1 agente de segurança) e o maior número de feridos (ao menos 8 civis e 5 agentes de segurança) de acordo com o mesmo aplicativo. Este bairro é também coberto pela 78ª DP, que contabilizou 45 homicídios dolosos entre julho de 2016 e junho de 2017. Das cinco DPs de Niterói, apenas essa concentra 46% dos casos de homicídio doloso do município. Essa delegacia é, também, responsável pelas localidades de: Viçoso Jardim, Caramujo, Baldeador, Santa Bárbara, Tenente Jardim, Engenhoca, Santana e Barreto — que registraram outros 34 tiroteios e 12 vítimas civis no Fogo Cruzado. E, ademais, é a delegacia que abarca a maior parte das mortes violentas por arma de fogo em 2016, apresentadas no mapa acima. A região também lidera o ranking de Niterói para o roubo de veículos, com 748 casos.

A 77ª DP, que atende o bairro de Santa Rosa, teve o segundo maior número de pessoas desaparecidas (32 ocorrências) e de roubo de veículos (385 casos) e teve o 3° maior registro de roubo a transeuntes (860). Além de Santa Rosa, essa DP atende os bairros de Icaraí, Vital Brasil, Pé Pequeno, Viradouro e Cubango — com 26 notificações de tiroteios no Fogo Cruzado.

Duque de Caxias

Um dos mais populosos municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o município de Duque de Caxias, ficou em 4° lugar no ranking de tiroteios do aplicativo Fogo Cruzado, com 222 notificações — 2,5 a cada 10 mil habitantes —, e ao menos 78 vítimas (69 civis e 9 agentes de segurança) e 76 feridos (63 civis e 13 agentes de segurança).

As informações coletadas pela plataforma colaborativa são corroboradas pelos dados divulgados pelo ISP, que indicam um cenário de violência com pioras significativas. Comparando os primeiros seis meses de 2016 com o mesmo período de 2017, podemos afirmar que o município teve um aumento de 36% no número de homicídios dolosos e um incremento de 50% nas ocorrências de roubo de veículos. Observado um período mais curto, o segundo semestre de 2016 em contraposição ao primeiro de 2017, percebemos que as ocorrências de homicídio aumentaram em 24% e os casos de roubo de veículo cresceram em 22% — indicando que a criminalidade vêm aumentando progressivamente. Novamente, a exceção são os registros de roubo a transeuntes e de desaparecidos, que muito provavelmente foram afetados pela greve da polícia civil no estado nos primeiros meses de 2017.

T13

Desagregando essas informações, temos a 59ª DP liderando a quantidade de pessoas desaparecidas, com 123 casos, e roubo de veículos, com 2.304 ocorrências. Essa delegacia é responsável pelo centro de Duque de Caxias, que, como apontamos a seguir, foi a região em que mais se notificaram tiroteios (76 registros, com cerca de 30 mortos e 29 feridos).

TIROS CAXIAS

 

A 59ª DP é também responsável pelos bairros de Vila Centenário e Vila Sarapuí, que ficaram em 2° e 3° no acumulado de tiroteios, com respectivamente 19 e 10 registros.

Apesar da concentração significativa de tiroteios registrados, a 59ª DP ficou em segundo lugar no ranking de homicídios dolosos registrados pelo ISP neste município, 138 no total. Em primeiro lugar, aparece a 60ª DP, com 163 casos — ou 38% do total de registros no município, que conta com quatro DPs. Esta unidade, que cobre a região de Campos Elíseos, também liderou no roubo a transeuntes registrados, com 3.328 casos.

No entanto, quando observamos a distribuição de mortes violentas por arma de fogo em 2016 — período disponibilizado georreferenciado pelo ISP — vemos a 59ª DP liderar esse triste ranking com 36% dos registros (131), dialogando proximamente com a distribuição de tiroteios notificados ao Fogo Cruzado. A 60ª DP aparece logo em seguida, com 130 casos.

LETALIDADE CAXIAS

Apesar de ser apenas o décimo colocado no ranking de notificações de tiroteios ao Fogo Cruzado em termos absolutos (com 49 registros), Japeri figura entre os municípios com maior taxa de notificações por 10 mil habitantes (4.87, o 2° lugar no ranking ponderado). A taxa alta, se comparada com os demais municípios da Região Metropolitana, justifica a sua análise mais detalhada neste estudo.

Entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro de 2017, houve uma queda de 30% no número de homicídios dolosos e uma redução de 32% nos índices de roubo de veículos. Entretanto, comparando o primeiro semestre de 2016 com o de 2017, notamos um crescimento de 158% da taxa de roubos de veículos e uma redução de 24% nos número de homicídios. Isso indica que o segundo semestre de 2016 foi marcado por um alto número de roubos de veículos em Japeri, além do aumento no número de homicídios dolosos em relação ao semestre anterior — perda que, felizmente, foi revertida na primeira metade deste ano. Nesse sentido, este município passou a ocupar a posição da cidade com o menor índice de roubo de veículos na Região Metropolitana e a 12ª colocação em números de homicídios dolosos, apresentando, por exemplo, números melhores que municípios vizinhos, como Queimados.

T16

 

Utilizando as informações compiladas pelo Fogo Cruzado, foram contabilizados um total de 49 tiroteios em Japeri. Contudo, similar ao percebido em outros municípios, a violência armada identificada pelo aplicativo está bastante concentrada em áreas específicas de Japeri, especialmente na região de Engenheiro Pedreira, com ao menos 19 tiroteios e 6 vítimas civis.

T17

 

O bairro Nossa Senhora de Fátima, vizinho ao Centro da cidade, foi o segundo colocado no registro de tiroteios pelo Fogo Cruzado (8), mas liderou em vítimas fatais (10 civis e 2 agentes de segurança).

Conclusão

O estudo sobre o espalhamento da mancha criminal no Rio de Janeiro entre 2006 e 2016, feito pela FGV/DAPP, já apontava para a complexificação do cenário de violência no estado devido ao crescimento da participação das outras regiões do estado — em particular a Região Metropolitana — no acumulado de crimes.

Uma série de razões contribuíram para este aumento, e para a consolidação desta tendência neste primeiro semestre de 2017. A crise fiscal do estado levou à deterioração das condições de trabalho dos policiais militares, principais responsáveis pelo policiamento ostensivo, observada tanto nas más condições de trabalho — viaturas paradas por falta de manutenção, por exemplo — quanto no aspecto financeiro, com atrasos nos pagamentos e premiações do Sistema Integrado de Metas, que recompensava a melhoria constante dos indicadores. Isso influencia diretamente no cenário do primeiro semestre deste ano, no qual a capital — que, até o momento, era a área mais bem sucedida em manter os indicadores sob controle — aparece com índices em rápido crescimento.

A estratégia de segurança pública baseada nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) também contribuiu para a gradual deterioração que atinge picos em diversas áreas em 2017. Ainda que o projeto das UPPs tenha sido construído para ampliar a presença do estado nas localidades mais vulneráveis à atuação de grupos criminosos armados do Rio de Janeiro, a tímida entrada dos serviços sociais, a concentração das unidades na capital sem que a devida atenção fosse dada às outras regiões e a escalada pouco sustentável do projeto contribuíram para o espalhamento da mancha criminal e para a fragilização hoje observada nas unidades.

A crise política também tem importância neste cenário. A presença constante dos nomes do ex-governador Sérgio Cabral e de seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, em escândalos de corrupção fortalece a sensação de que o Rio de Janeiro está sem direção, algo que também é percebido pelas facções do crime organizado, que têm se movimentado e buscado se reorganizar no território do estado. Nesse sentido, o aumento dos confrontos entre estas facções contribui diretamente para o aumento no número de tiroteios, e consequentemente, no número de vítimas.

As redes sociais também refletem esta sensação de abandono, com a estabilização das menções à segurança em um nível muito alto. Aliado a isso, o baixo número de associações entre violência e os atores responsáveis pela elaboração da segurança pública no estado aponta para a desesperança na busca por responsáveis capazes de reverter a situação em que o Rio se encontra.

Em paralelo à complexificação do cenário, esta análise aponta para uma grande concentração da ocorrência de crimes em poucas áreas dos seus territórios. Essa observação mostra um caminho para a construção de uma política de segurança pública mais eficaz e eficiente, trabalhando através do conhecimento das dinâmicas criminais em cada território. É fundamental que no cenário atual, que exige mais do que nunca o uso otimizado dos recursos disponíveis, a segurança pública se baseie nos dados disponíveis para organizar a sua atuação de forma inteligente, buscando atender as áreas mais necessitadas e retomar o controle dos indicadores de violência.

Para isso, contudo, os governos estadual e federal precisam repensar a forma como vêm atuando na segurança do Rio de Janeiro. Da parte do governo federal, é fundamental o investimento em inteligência e na coordenação direta das ações entre os estados e nas fronteiras para responder, sobretudo, ao tráfico de armas. Nesse sentido, a principal ação vista até o momento — o envio das forças armadas para o Rio de Janeiro — tende a ter efeito apenas paliativo.

O governo do estado, como principal responsável dentre os entes federativos por garantir a segurança da população fluminense, precisa atuar de forma inteligente dentro do cenário de crise fiscal para responder à escalada dos indicadores de violência, sem que, com isso, recorra às táticas de enfrentamento direto, observadas em outras ocasiões. Esta estratégia, além de pouco eficaz para a redução no longo prazo dos indicadores, é uma das principais responsáveis pelo aumento das mortes por arma de fogo de policiais em ação e de civis por balas perdidas e precisa ser evitada ao máximo.

Nota Metodológica

Para a análise dos registros de tiroteios/disparos por armas de fogo, foram utilizados dados do Fogo Cruzado, uma plataforma colaborativa cujo objetivo é mensurar a incidência da violência armada na região metropolitana do Rio de Janeiro. Os dados são compostos por notificações enviadas por usuários através de um aplicativo de celular. Antes de postadas, as notificações são verificadas junto a colaboradores locais e também cruzando informações com filtros especiais para redes sociais. Além da colaboração dos usuários, também são coletados dados via imprensa, canais das polícias — como os boletins diários no site da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e suas redes sociais —, e veículos de comunicação locais.

A partir dos dados extraídos da plataforma Fogo Cruzado, a FGV/DAPP realizou uma filtragem, retirando denúncias duplicadas ou com endereço fora da área de cobertura do aplicativo. Em seguida, os dados foram inseridos em um software de georreferenciamento a fim circunscrever as localizações dentro dos limites da cidade do Rio de Janeiro, eliminando as que se encontravam fora deste município. Com o intuito de conferir se as coordenadas geográficas estavam corretas, foi realizada uma revisão manual de endereços a partir de uma pequena amostra dos dados de tiroteios.