Policial civil e especialista em segurança pública, Rafael Cavalcanti avalia que despreparo das instituições alimentam a vitimização dos agentes de segurança 

Delegacias mal equipadas, policiais sobrecarregados, sem o devido acompanhamento psicológico e sem treinamento. Na Região Metropolitana do Recife, os problemas na segurança pública não afetam somente a população, mas também a vida dos agentes de segurança. Os números refletem esse cenário: o Relatório Anual do Fogo Cruzado mostra que 24 agentes de segurança foram baleados no Grande Recife em 2021, quase o dobro do que no ano anterior (14). 

A diminuição dos índices de vitimização policial em Pernambuco está associada a uma reforma estrutural das polícias, começando por uma melhora nas condições de trabalho dos policiais que se arriscam diariamente nas ruas. Sem um plano concreto, os números não vão diminuir do nada. A avaliação é do policial civil, especialista em segurança pública e presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol-PE), Rafael Cavalcanti.

“As polícias maltratam muito na questão estrutural. Em Pernambuco, as delegacias são casas particulares mal adaptadas. É um improviso que não serve para o policial, e consequentemente não serve para o cidadão. E é uma estrutura muito elitizada, que privilegia os cargos de comando. Esse tratamento mal dado deixa o policial descoberto”, afirma Cavalcanti.

Em Pernambuco, delegados precisam se locomover de uma cidade para outra a fim de preencher espaços vagos em delegacias – 30% delas não têm delegados titulares e muitas têm fechado mais cedo por falta de profissionais. Cidadãos encontram dificuldades para registrar queixas ou fazer denúncias, e agentes não dão conta da quantidade de inquéritos abertos e por consequência, os crimes não são solucionados. 

Para Cavalcanti, a sobrecarga no trabalho e o risco natural da função já tornam a profissão de policial um ofício estressante. Sem o devido acompanhamento psicológico, a consequência é que cada policial se torna uma bomba-relógio, com comportamentos violentos em casa e na rua.

“A falta de estrutura, a pressão institucional e a falta de assistência psicológica culminam na má relação do policial com sua família. Constantemente vemos famílias destruídas por conta desse desaguar de problemas do policial dentro de casa. Há um paiol de pólvora. O policial acaba sendo consumido por tudo isso e em uma hora estoura”.

A falta de investimento nos setores de atenção à saúde mental das instituições de segurança pública é um problema que afeta o policial em diferentes esferas da vida, inclusive no rendimento profissional. “Um relatório do grupo de psicologia do Sindicato dos Policiais Civis mostra que 90% dos agentes relatam assédios morais, perseguições no ambiente de trabalho e sobrecarga. Se dizemos não a um chefe, somos ameaçados de transferência”, comenta Cavalcanti.

Quando a cultura do ‘policial herói’ se volta contra o próprio agente

Dos 13 agentes de segurança mortos em 2021 no Grande Recife, 5 estavam fora do trabalho, e apenas 1 no horário de serviço – outros 5 já estavam aposentados ou foram exonerados. Os dados do Fogo Cruzado mostram que mesmo em horários de folga os agentes correm risco de vida. Rafael Cavalcanti diz que parte disso é fruto da cultura do policial herói, alimentada dentro das delegacias e batalhões.

“Há um pensamento cultural de que o policial tem uma missão quase heróica. E esse pensamento acaba sendo incutido na cabeça dos servidores, de que ele deve proteger seus pares sem fazer reflexões sobre os procederes. Somos estimulados a nos entendermos como diferentes do restante da sociedade. O pensamento é: ‘somos diferentes, e sendo diferentes ninguém gosta da gente e temos que nos proteger’. Isso não é ensinado oficialmente, mas é o espírito das corporações”, relata o policial civil.

Entre os 9 agentes de segurança baleados em roubos/tentativas em 2021, 4 atiraram ou tentaram sacar a arma para atirar e revidar. Outros 2 agentes de segurança foram mortos em brigas.

“Há orientações dentro da polícia para que o policial de folga não utilize armas em algumas situações, como por exemplo em festas. Mas é uma orientação no campo das ideias. Na prática, culturalmente, o policial tem o porte de arma como o seu diferencial. Isso é inclusive algo que o identifica como policial”. Para Rafael, a ausência de uma discussão profunda sobre o uso de armas dentro das instituições acaba fortalecendo a cultura do ‘policial herói’, sempre pronto para agir em qualquer circunstância. “Assim, ele acaba sendo vítima. Quando se descobre que ele é um policial, os assaltantes agem na dinâmica do ‘ou mata, ou morre’. Primeiro, tentam roubar a arma do policial. Se não der, o executa”.

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