Heloysa Gabrielly foi atingida enquanto brincava no terraço de casa; tiros em bares também chamaram atenção no mês

Março terminou com um daqueles casos simbólicos que escancaram as falhas da segurança pública em Pernambuco e no Brasil. Policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) entraram na comunidade Salinas, em Porto de Galinhas, para uma ação policial, na tarde do dia 31. A PM diz que trocou tiros com um grupo armado que controla o tráfico de drogas na região. Os moradores afirmam que só os policiais atiraram. As versões são diferentes, mas o fato é um só: uma criança que não tinha a ver com o conflito morreu com um tiro. Heloysa Gabrielly, de 6 anos, foi atingida no peito enquanto brincava no terraço de casa. Ela chegou a ser levada para o hospital, mas não resistiu. 

O último mês na Região Metropolitana de Pernambuco teve 1 criança morta por arma de fogo, que foi Heloysa Gabrielly. Entre os adolescentes, foram 12 baleados em março de 2022 – oito morreram e quatro ficaram feridos. No mesmo período do ano passado houve 11 baleados, 8 deles morreram.

Ao todo, março teve 155 tiroteios no Grande Recife, sendo 5 desses tiroteios durante ações e operações policiais. Foi em uma dessas ações que Heloysa Gabrielly foi morta por uma bala perdida. A menina é mais uma vítima da falta de um plano de segurança pública completo e atualizado, que proteja a população. A ela não foi dado o direito a crescer. 

Ainda está em vigor no estado de Pernambuco o Pacto Pela Vida, projeto de segurança pública criado em 2007 que prometia a queda dos índices de violência armada, como tiroteios e homicídios. O programa, no entanto, perdeu força com o passar do tempo. Os números mostram isso: janeiro e fevereiro de 2022 formaram o começo de ano mais violento do Grande Recife desde 2019.

Policiais reclamam da falta de condições de trabalho, enquanto especialistas apontam as gratificações como um dos erros do Pacto – agentes são premiados em dinheiro a partir da quantidade de prisões e apreensões que efetuam. No final, é a população quem paga com a vida a falta de efetividade dos projetos de segurança.

No Grande Recife, assim como em outras regiões metropolitanas do Brasil, a violência armada afeta a vida profissional e social da população. Muitas pessoas evitam sair de casa à noite, ou ir para bairros muito longe de sua residência por conta do medo que a violência provoca. Ir a um bar muitas vezes é correr risco. Nos três primeiros meses do ano houve 30 baleados em bares – 16 morreram e 14 ficaram feridos. Março teve 3 mortos a tiros em bares ou casas de festas.

Um desses casos foi o da influenciadora digital Bruna do Nascimento Marques Maciel, de 21 anos, morta em frente a um bar no dia 21. O homicídio aconteceu no bairro do Ipsep, no Recife. Bruna havia saído de um show no estabelecimento e ia chamar um carro de aplicativo quando foi surpreendida pelo autor do crime, que ficou mais de uma hora sentado em uma barraca de comida, esperando ela sair. Ela foi atingida três vezes na altura do pescoço e morreu ainda no local.

Um plano de segurança pública não pode ficar restrito a prêmios e gratificações. É preciso que o estado entenda a fundo qual a dinâmica da violência armada de Pernambuco, e trabalhe com afinco para que casos como os da jovem Bruna ou da menina Heloysa Gabrielly não se repitam a cada mês.

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