Neste período, houve mais de 6.000 tiroteios no Grande Recife, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado

Nos últimos quatro anos houve mais de 6 mil tiroteios nos 15 municípios da Região Metropolitana do Recife. Para compreender a violência, especialmente a cometida com armas de fogo, é preciso entender quantos tiroteios acontecem, onde, quando e com qual frequência. Estas informações não existiam até que o Instituto Fogo Cruzado começasse a operar em Pernambuco no dia 1º de abril de 2018.

Além de ajudar na compreensão da dinâmica da violência, a ideia era também preencher uma lacuna deixada pela falta de transparência nos dados públicos em Pernambuco. 

Em 2017, a divulgação diária dos números de homicídios, informações como os nomes, idades e cor da pele das vítimas no estado, saiu do ar. Desde então é divulgado apenas um boletim mensal com o número de mortes por cidade. O Ministério Público então começou a investigar a falta de transparência.

“A falta de transparência na gestão pública foi o que motivou a abertura do Fogo Cruzado em Pernambuco”, explica a diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira.

O Fogo Cruzado funciona de forma colaborativa, onde usuários podem informar a equipe, através do aplicativo e das redes sociais. Estas informações são checadas e divulgadas em todos os canais do Fogo Cruzado. No entanto, a segurança da população é um desafio na coleta de dados sempre.

“Ainda existe um receio da população em falar sobre a violência, o que é justificável, claro. Temem por sua segurança. Por isso, apostamos numa comunicação anônima e em relações de confiança construídas ao longo do tempo”, explica Cecília Olliveira.

Em junho de 2019, o Instituto Fogo Cruzado firmou parceria com o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP) e desde então atuam em conjunto na região. Para Edna Jatobá, coordenadora executiva do GAJOP, o trabalho do Instituto é essencial para cobrar por políticas públicas melhores e mais eficazes e transparentes.

“Toda vez que pressionamos o poder público a partir da coleta e sistematização de dados próprios, obrigamos o Estado a se explicar sobre o motivo para não ser tão transparente. Conseguimos informar a população para além de uma narrativa que escolhe quais são os melhores dados sobre violência e criminalidade, que são os que estão mais baixos. É a partir da sociedade civil, dessa produção responsável, sistemática e contínua que a gente pode obter avanços também no campo da transparência”.

Somente com coleta de dados transparente e focada em atender às necessidades de quem convive diariamente com a violência e seus impactos, foi possível identificar que o problema da segurança pública em Pernambuco é tão grave que há tiroteios dentro de presídios. E não são casos isolados. Nestes quatro anos em que o Fogo Cruzado tem levantado dados no Grande Recife, houve 23 tiroteios por ano dentro de presídios. Eles deixaram 18 mortos e 43 feridos.

Para Cecília Olliveira, números como estes, mapeados pelo Fogo Cruzado, são essenciais.

“Quanto mais informações estão disponíveis para a sociedade, mais ela pode cobrar as autoridades sobre suas responsabilidades e pedir mudança. Como os governos demonstram não ter interesse em atuar com transparência e responsabilidade, cabe à sociedade civil se articular e cobrar essa mudança”.

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