Ao se aproximar da sociedade civil, o Instituto espera ajudar na criação de políticas públicas contra violência armada

Tirar as pessoas da linha do tiro através de uma metodologia que contasse com a contribuição coletiva de todos sempre foi o objetivo do Instituto Fogo Cruzado. Ao chegar em Pernambuco, há 3 anos, e passar a mapear a Região Metropolitana do Recife, o Instituto queria entender a dinâmica da violência armada na região, que tem entre seus principais indicadores o número de tiroteios dentro de presídios. De 1º de abril de 2018, quando chegamos em Pernambuco, até hoje, mapeamos 18 tiroteios dentro desses espaços: 52 pessoas foram baleadas. Na teoria, esse número não deveria existir. Outro dado alarmante e inaceitável diz respeito às pessoas baleadas dentro de casa. A cada 2 dias, 1 pessoa é baleada quando está dentro do próprio lar.

Mas para tirar as pessoas efetivamente da linha do tiro, não basta somente a produção de levantamentos e alertas em tempo real, que são parte da metodologia do Fogo Cruzado. É preciso que o poder público se interesse por esses dados e que, através deles, trace planos concretos de prevenção à violência.

Pernambuco já foi referência nacional de políticas de controle de armas, de prevenção de homicídios e de transparência pela divulgação diária de dados, o que mostra ser possível ter um controle maior sobre os números da violência no estado. Mas hoje em dia a transparência diminuiu. Além do atraso na divulgação de estatísticas, há também a dificuldade em fazer um jornalismo de oposição ao governo que, contrariado, exclui jornalistas de receber informações diretamente da assessoria de imprensa da Polícia Civil. Atualmente, as rádios são a principal mídia de resistência de Pernambuco frente a carência de informações e denúncias sobre segurança pública.

Para Cecília Olliveira, Diretora Executiva do Fogo Cruzado, é desafiador mapear Pernambuco. “De um lado há poucos veículos de comunicação na região metropolitana. De outro, um receio muito grande da população em falar sobre a violência. Temem por sua segurança. Por isso, apostamos numa comunicação anônima e em relações de confiança construídas ao longo do tempo, pessoalmente. A concentração midiática gera pouca diversidade no debate público”. 

Apesar dos desafios, Edna Jatobá, Coordenadora Regional do Fogo Cruzado em Pernambuco, vê um futuro otimista em relação à transparência de informação.

“Toda vez que pressionamos a partir da coleta e sistematização de dados próprios, obrigamos o Estado a se explicar sobre o motivo para não ser tão transparente. Conseguimos informar a população para além de uma narrativa oficial que escolhe quais são os melhores dados sobre violência e criminalidade, que são os que estão mais baixos. E é a partir da sociedade civil, dessa produção responsável, sistemática e contínua que a gente pode obter avanços também no campo da transparência”.

Colaboração com a sociedade

Desde que chegou em Pernambuco, o Fogo Cruzado já participou de seminários como o de “Prevenção da Violência: Os caminhos da periferia”. Realizado em 30 de julho de 2019, no Nascedouro de Peixinhos, em Olinda, o Instituto compôs a mesa “Comunicação popular como forma de prevenção da violência”. Além de falar das experiências de comunicação popular, durante a mesa também foi debatido como a comunicação pode ser utilizada como instrumento de transformação e prevenção da violência, junto com representantes do Jornal do Commercio, Coletivo Força Tururu e Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças (GCASC).

Reconhecimento

Em 3 anos cobrindo a Região Metropolitana do Recife, o Fogo Cruzado atuou na defesa dos Direitos Humanos sempre focado no mapeamento de dados em prol de políticas públicas de segurança mais eficazes. Participando de premiações nacionais e internacionais, chegou a ficar em terceiro lugar em 2018 no 7° Prêmio Amaerj Patrícia Acioli de Direitos Humanos na categoria “Práticas Humanísticas”.

Em 2020, o Instituto também levou o terceiro lugar no 8° Prêmio República de Valorização do Ministério Público Federal na categoria “Responsabilidade Social”, que tem entre seus temas a “Participação Comunitária”.

Números ao longo dos anos

Ao todo, nos 3 anos estando na Região Metropolitana do Recife, houve 4.573 tiroteios/disparos de arma de fogo que deixaram 5.050 baleados, dos quais 3.296 deles não resistiram e morreram. 

Do total de baleados, 27 eram crianças* (0,5%), 319 eram adolescentes** (6%) e 54 eram idosos*** (1%), dos quais 4 crianças, 212 adolescentes e 30 idosos não resistiram e morreram. Neste período, houve também 124 pessoas atingidas por balas perdidas****. Ainda nesses 3 anos, chama atenção o número de pessoas baleadas quando estavam dentro de casa: foram 525 vítimas, 423 morreram e 102 ficaram feridas. 

Entre os municípios com mais tiroteios/disparos de arma de fogo estão:

  • Recife: 1.781 
  • Jaboatão dos Guararapes: 734 
  • Olinda: 393
  • Cabo de Santo Agostinho 392
  • Paulista: 228

Violência armada na pandemia

Quando o Fogo Cruzado estava próximo de completar 2 anos atuando na Região Metropolitana do Recife, o mundo se viu em meio a maior crise sanitária dos últimos anos. A pandemia da Covid-19 fez governos implementarem regime de quarentena em seus territórios. Em Pernambuco não foi diferente. No dia 17 de março de 2020 foi decretado o início das medidas de quarentena no estado. Foi neste cenário que o Fogo Cruzado se reuniu em uma conversa virtual com representantes de Sancho, em Recife, em junho de 2020. 

Naquele ano, Somente entre 18 de março de 2020 e 31 de dezembro de 2020, houve 1.378 tiroteios/disparos de arma de fogo no Grande Recife que deixaram 1.569 foram baleadas, sendo 175 delas atingidas quando estavam dentro de casa, indo de encontro ao principal pressuposto sanitário da pandemia: ficar em casa é estar seguro. Houve aumento de 41% nos tiroteios em comparação com o mesmo período de 2019, quando foram 975 registros. Ao todo, 1.051 pessoas foram baleadas. Entre 18 de março e 31 de dezembro de 2020, o número de baleados foi 49% maior. Também houve aumento de 62% no número de baleados dentro de casa, no mesmo período de 2019 foram 108.

Metodologia

Sempre focado na construção de dados estatísticos sobre violência armada nas regiões metropolitanas, o Fogo Cruzado está presente em todas as redes sociais e também coleta informações através de um aplicativo, no qual é possível contribuir coletivamente para a construção de uma base de dados cada vez mais robusta.

Para Maria Isabel Couto, Diretora de Programas do Fogo Cruzado, os dados são essenciais. “Os ‘dados’ são os melhores amigos da população. Quanto mais informações um governo disponibiliza para os cidadãos, quanto mais transparente ele é, mais poder ele desloca das suas mãos para os cidadãos. Um governo transparente, permite que a população ajude-o a tomar decisões para além do voto, no dia-a-dia, decidindo junto com os governantes o que é mais importante a cada momento. Mas quando os governos não estão dispostos a dar esse passo, a sociedade civil pode dar o exemplo e cobrar essa mudança”.

E foi pensando nisso que em 2019 foi lançada a API do Instituto, na qual pesquisadores, jornalistas e qualquer um pode ter acesso à nossa base de dados de forma transparente e gratuita. 

Também é possível gerar dados e gráficos instantâneos através da aba de Estatísticas do site, onde há dados consolidados de todos os meses de atuação.

Nossa história

Criado em julho de 2016 no Rio de Janeiro, com a ideia de levantar dados sobre tiroteios e disparos de arma de fogo que até então não eram mapeados e divulgados, o Instituto Fogo Cruzado chegou em Pernambuco no dia 1º de abril de 2018 para cobrir a Região Metropolitana do Recife. Em 2019, passou a ser coordenado pelo Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP). O GAJOP é uma entidade da sociedade civil que atua na defesa irrestrita dos Direitos Humanos. O Gabinete compõe ainda a Rede de Observatórios de Segurança, da qual o Fogo Cruzado também é parceiro.

* Com idade inferior a 12 anos (UNICEF)

** Com idade entre 12 anos e 18 anos incompletos (UNICEF)

*** Com idade a partir de 60 anos (Estatuto do Idoso)

**** “Vítima de bala perdida”: a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil (ISP).

Deixe um Comentário





16 + 10 =