Regiões escolhidas para ocupação tiveram poucos índices de violência, mostra Instituto Fogo Cruzado

Enquanto o governo do estado promove o Cidade Integrada em áreas com baixos índices de violência, bairros da Zona Norte e Zona Oeste do Rio que não foram escolhidos pelo plano de ação contabilizam mortos e feridos em constante rotina de tiroteios, deixando moradores na linha de tiro e impedindo a liberdade de ir e vir. O Cidade Integrada completou dois meses no dia 19 de março.

Jacarezinho e Muzema, regiões escolhidas para ocupação do Cidade Integrada, tiveram poucos ou nenhum caso de violência armada no ano passado. Embora o tiroteio em si não seja o único indicador de violência, para Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, deveria haver um plano melhor definido para a escolha das primeiras regiões a serem ocupadas.

“O que sabemos é que o Jacarezinho foi escolhido pela operação policial do ano passado, que terminou com 28 mortos, e que a Muzema tem forte presença da milícia. Fora isso, não há nenhuma explicação mais abrangente sobre a decisão por essas regiões. O Cidade Integrada, por enquanto, é só mais um projeto com prazo de validade, assim como as UPPs, o Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (GPAE) e os Destacamentos de Policiamento Ostensivo (DPO), em gestões passadas. O Rio de Janeiro segue sem um plano de segurança pública, e estamos em ano eleitoral”, afirma a diretora. 

“Não se aprendeu com os erros – e nem com os acertos – dos projetos passados e todas essas iniciativas seguem parecidas umas com as outras. A população segue abandonada na segurança pública”, completa. 

Nos dois meses de atuação do Cidade Integrada no Jacarezinho e na Muzema, são outras regiões do Rio que sofrem com a violência. O Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, concentrou 6 mortos em 12 tiroteios nos últimos 60 dias, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. A Maré está a pouco mais de 5 km do Jacarezinho, primeiro local escolhido para implementação do Cidade Integrada, e que em 2021 ocupou apenas a 64ª posição entre os bairros da Região Metropolitana do Rio de Janeiro com mais tiroteios. Nas 17 favelas da Maré há a presença de facções do tráfico e milícia.

Disputada por grupos de milícias, Santa Cruz teve oito mortos e sete tiroteios nos últimos dois meses. Naquela região, centenas de milhares de moradores vivem com medo das tentativas de homicídios e atentados que acontecem quase diariamente. Mas o governo escolheu outra região na Zona Oeste para o Cidade Integrada: a Muzema, também ocupada pela milícia, mas que desde 2019 não registra nenhum tiroteio.

Plano de Segurança

Ainda que prometa projetos de desenvolvimento urbano no Jacarezinho – o que é de responsabilidade municipal -, o Cidade Integrada não apresenta soluções concretas para os problemas de sua alçada, como a segurança pública. O Rio de Janeiro segue sem um plano que abranja redução de crimes contra a vida, contra a letalidade policial, uso de inteligência e treinamentos para agentes de segurança, por exemplo.

Em fevereiro deste ano, durante a retomada do julgamento da ADPF 635, ministros do STF determinaram que o governo do estado criasse em até 90 dias um plano para a redução da letalidade policial. Metade do prazo já passou, e o plano ainda não foi apresentado à sociedade. 

“Um plano de segurança pública precisa ter objetivos claros no enfrentamento à criminalidade e violência, precisa investir no fortalecimento das organizações, no treinamento e na inteligência das polícias. Se não for um plano abrangente, será um desperdício de recursos públicos e fadado ao fracasso, como os outros anteriores”, afirma a diretora do Fogo Cruzado.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

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