Categoria é a mais afetada pela violência armada entre agentes de segurança

Na tarde do dia 1º de setembro, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro atingiu a inaceitável marca de 100 policiais militares baleados até agora. Na ocasião, o policial militar Daniel Alexandrino de Oliveira, de 32 anos, foi morto a tiros em Mesquita, na Baixada Fluminense, ao ser surpreendido quando estava na esquina entre as ruas Bahia e São Paulo. Entre as 100 vítimas, 39 morreram.

Essa marca levantada pelo Instituto Fogo Cruzado demonstra uma tendência de crescimento no impacto da violência armada sobre agentes de segurança. Para se ter ideia, no ano passado, chegou-se à mesma marca com o centésimo policial baleado somente no final de novembro, quase três meses depois do registrado em 2021.

Um estudo feito pelo Fogo Cruzado em parceria com o GENI mostrou que a decisão do STF de suspender operações não urgentes durante a pandemia da Covid-19 – a ADPF 635, conhecida também como ADPF das Favelas – vem sendo sistematicamente desrespeitada. Esse descumprimento afeta não somente a sociedade civil, mas também os policiais militares que estão na linha de frente das operações.

Para a Diretora Executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira, não existe nenhuma solução apresentada pelo governo do Estado para poupar a vida desses agentes.

“Atualmente, o plano de segurança do Rio de Janeiro não consta em nenhum lugar, essa é uma informação que ninguém tem acesso. Isso dificulta que jornalistas, pesquisadores e gestores públicos cobrem medidas que poupam a vida dos agentes de segurança pública, já que não temos sequer um plano de segurança para nos basear”, afirma. 

Outras categorias de agentes de segurança, que incluem policiais civis, militares, penais, bombeiros, forças armadas, federais e guardas municipais também são vítimas da violência armada. No dia 9 de julho, a Região Metropolitana do Rio chegou a ter 100 agentes de segurança baleados*

No entanto, é possível observar que entre os atingidos, os policiais militares ainda são os mais afetados já que atualmente, dos 128 agentes baleados, os PMs representam 78% das vítimas

Os agentes recebem pouco apoio psicológico e falta treinamento adequado para atender a demanda do Rio, que possui uma dinâmica de violência diferente quando comparada à outros estados. Por exemplo, tiroteios contínuos por mais de duas horas e paralisações de serviços públicos por conta de operações policiais, a categoria é a que mais sofre, mata e morre. Os policiais militares do Rio têm quatro vezes mais chances de cometer suicídio que a população civil. Isto evidencia que o problema da alta letalidade policial no Estado é uma questão da estrutura da corporação e não somente da violência urbana. 

A instituição prioriza o embate ao invés de adotar uma estrutura tática adequada que mude o foco do acúmulo de mortes. Em 2021, operações policiais e ações de rotina foram as que mais impactaram os agentes. Foram 49 baleados, sendo 12 mortos e 37 feridos. Isso mostra que ações pouco coordenadas oferecem risco não apenas para os cidadãos comuns, mas também para os policiais. 

No último 15 de julho, o policial Anderson Gomes, de 41 anos, foi baleado durante uma operação no Corte Oito, em Duque de Caxias, que acontecia mesmo com a suspensão pelo STF de operações não urgentes na pandemia. Ele sobreviveu, mas a circulação dos trens foi interrompida na região e, consequentemente, a rotina dos moradores foi mais uma vez afetada pela ação. 

Tentativas e roubos efetivos fizeram 25 vítimas entre policiais militares, sendo que todos foram baleados fora do horário de trabalho. No dia 21 de julho, um policial não identificado foi baleado durante assalto às Lojas Americanas, no bairro Maria Paula, em São Gonçalo. A vítima estava de folga quando foi atingida por assaltantes.

As brigas também chamaram a atenção. Este ano, 5 policiais militares foram atingidos durante discussões. Em 2020, até a marca das 100 vítimas, as brigas não fizeram parte dos motivos que levaram agentes a serem baleados.

Escala de trabalho

Dos 100 policiais militares baleados no Grande Rio em 2021, 47 estavam em serviço e 53 estavam fora de serviço/eram aposentados/exonerados. No dia 8 de agosto, o agente Cristiano Loiola Valverde, de 39 anos, foi morto à bala, na sua folga, ao tentar apartar uma briga dentro de um bar em Nilópolis, na Baixada Fluminense.

Locais mais afetados

Entre os municípios, o Rio de Janeiro liderou com 44 vítimas, sendo 44% dos policiais militares baleados no Grande Rio. São Gonçalo veio em segundo lugar, com 18 baleados. Em seguida no ranking, vieram Nova Iguaçu (10), Niterói (6), Duque de Caxias (4) e Nilópolis (4).

Entre os bairros da Região Metropolitana do Estado, Realengo foi o mais afetado com 4 baleados. Em seguida, vieram Cantagalo, em Guapimirim (3), Centro de Nilópolis (3), Brás de Pina (3) e Pavuna (3).

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e, em breve, em mais cidades brasileiras.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real. Estas informações estão disponíveis no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

* Agentes de segurança incluem policiais civis, militares, federais, guardas municipais, agentes penitenciários, bombeiros e militares das forças armadas – na ativa, na reserva e reformados.

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